ELZA SOARES, CANTORA Hoje, nós, mulheres, sabemos da necessidade de pegar na mão da outra e fazer uma corrente. Sou mulher e vou continuar parindo com a música – PODER, maio de 2019

Neta de Elza Soares fala sobre carreira viva da cantora, que faria 92: ‘Ela não tinha idade, tinha tempo’

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Difícil encontrar uma única data para celebrar Elza Soares. A carioca de legado infinito, que morreu em janeiro aos 91 anos, dizia ela mesma não ter certeza da data em que nasceu. Tinha dúvida sobre o mês, mas a data escolhida foi este 23 de junho, quando faria 92 anos.

A família e a gravadora Deck prepararam o lançamento do DVD “Elza ao vivo no Municipal”, o especial que a cantora gravava no Theatro Municipal de São Paulo e deixou praticamente pronto. A apresentação pode ser conferida nesta quinta-feira (23), às 20h, no canal de YouTube da cantora. Em conversa com o GLMRM, Vanessa Soares, neta e produtora executiva de Elzão, como chamava carinhosamente a matriarca, contou sobre a saga para gravar o DVD e o clima de despedida.

“Foi muito emocionante por todas as dificuldades de Lei Rouanet, de redução de verba, de ter que se encaixar dentro de uma verba bem apertada para fazer uma coisa muito bonita que representasse a Elza”, disse. “A gente tinha noção de que seria o último por conta da idade. Já estávamos trabalhando como se fosse um último DVD.”

Elza Soares
Foto: Divulgação

Apesar da data escolhida, Vanessa conta que a avó não era uma grande fã de aniversários. “Ela só gostava de celebrar a vida. Elza amava viver. Então, os aniversários eram sempre muito em família.” Os bolos da cantora tampouco podiam ter velas revelando a idade. “Até porque ela dizia que não tinha idade, tinha tempo”, completa a neta, emocionada.

Últimos meses de vida

O primeiro aniversário de Elza após sua morte será um dia muito difícil para a família e, principalmente, para a neta, que tinha uma ligação ancestral com a avó. As duas moraram juntas nos últimos cinco meses de vida da artista.

“Criamos um vínculo, uma dependência uma da outra muito grande. A minha avó não fazia nada se eu não tivesse por perto”, conta Vanessa. Apesar da falta, ela lembra com carinho os últimos dias ao lado de Elza. “Entrava no quarto dela e dizia o quanto a amava. Ter dito isso em vida é o que me traz paz de espírito. Falo até hoje, porque ela ainda está lá!”.

Foto: Divulgação

Elza deixou um legado tão grande e forte que até a família perguntava se não estava na hora de parar. Mas ela queria “cantar até o fim”, como proclamou em “Mulher do Fim do Mundo”. Vanessa conta um detalhe curioso do que, fora da carreira, a artista que nunca parou não conseguiu realizar.

“Na carreira, minha avó fez tudo o que queria, mas pessoalmente deixou de realizar uma única coisa: ela queria tirar um dia da semana com a família para ir a um quiosque na praia, comer alguns petiscos e ficar olhando o mar, mas não deu tempo”.

Pavimentando caminhos

Elza Soares se tornou recordista em lançamentos fonográficos, com 124 estreias entre discos compactados, ao vivo, duplos e singles. Mesmo com tanta bagagem, fazia questão de olhar para a nova geração. Sua voz está em dezenas de parcerias que fez nos últimos anos, como a com MC Rebecca, no single “A Coisa Tá Preta”, de 2020.

No cinema, a voz de Elza ainda ecoou este ano com o lançamento de “Medida Provisória”, primeiro filme dirigido por Lázaro Ramos. A faixa “O Que Se Cala” encerra a trama distópica sobre racismo, que infelizmente a cantora não conseguiu assistir.

Sucesso póstumo

Desde a morte de Elza, as músicas em plataformas digitais ganharam ouvintes na busca para conhecer a vida e obra da “voz do milênio”, como elegeu a BBC britânica.

Atualmente, a neta se dedica a manter a carreira ativa da avó. Além do lançamento do DVD ao vivo no Municipal, organiza uma homenagem no Rock in Rio e outra no MTV Miaw. Há ainda a previsão de lançar, em agosto, um disco de inéditas.

Ainda que o legado de Elza esteja mais vivo que nunca, Vanessa se sente aliviada em saber que ela recebeu muitas homenagens ainda em vida. “É por isso que as pessoas ainda veem o trabalho da Elza. Ela continua, o trabalho dela não morre. O que se foi, foi a matéria”, conclui.

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