Erasmo Carlos em “Paraíso Perdido” || Créditos: Divulgaçào

Erasmo Carlos: de peruca, brega, musicando poemas para a mulher com ajuda de Marisa Monte…

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Erasmo Carlos em “Paraíso Perdido” || Créditos: Divulgaçào

Nada de pé no freio para Erasmo Carlos. Pelo contrário. Depois de “Os Machões”(1972) e “Cavalinho Azul” (1984), nunca mais convidaram o Tremendão para se aventurar no cinema “com seriedade”. “Era só pra fazer pornochanchada e não quis”. Mas a hora dele chegou, aos 76 anos: é astro do elenco de “Paraíso Perdido”, novo longa de Monique Gardenberg – que também tem Julio Andrade, Seu Jorge e Marjorie Estiano no elenco. O filme ganhou pré-estreia essa segunda-feira no Leblon – e Glamurama encontrou com Erasmo horas antes para um papo sobre essa aventura.

A conversa terminou em outro assunto: o lançamento de um álbum de inéditas, todas sobre o amor, com parcerias do naipe de Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, Arnaldo Antunes, Nando Reis, Samuel Rosa e Marcelo Camelo. E pensar que tudo começou com uma troca íntima de emails semanais entre ele e a então namorada Fernanda, que morava em outra cidade… Vem saber! (por Michelle Licory)

“Sem ser fissurado”

“Finalmente chegou um convite para o cinema sem ser pornochanchada… Pois é. Demorou à beça. Mas aí foi prontamente aceito. Tive sempre essa vontade, mas sem ser fissurado, né? Não é minha profissão, mas é algo pra mim simpático de fazer de vez em quando. Uma coisa rápida, tranquilíssima, dentro das minhas possibilidades. Como eu me saí? Vou ver agora. É difícil sair de quem você é e viver de um outro jeito”.

“Decorar diálogo é chato, né? Preciso de TP, mas não pode”

“A Monique me mostrou o Burt Lancaster no filme ‘O Leopardo’, do Luchino Visconti. Ela queria uma coisa nessa linha. Um cara de palavras de tonalidade áspera, nada gritado, sempre tom médio. Ela me chamava a atenção quando não estava do jeito que queria e eu fazia de novo… Decorar diálogo é chato, né? Sou um terror pra decorar até as letras das minhas músicas. Preciso de TP, mas no filme não pode ter TP. Tem que dominar o texto primeiro, para depois pensar na sua interpretação. Se não, é um terror… E ainda ter que transpor aquilo para aquela situação… No princípio é só o Erasmo naquela situação, só que não é assim que se faz, né… Tem que ser o personagem naquela situação… Você tem que ser o cara. O Julio Andrade me ajudou muito… As pessoas são muito simpáticas comigo e entendem minhas limitações. Eu perguntava se eu estava bem, se eu podia fazer isso ou aquilo…”

“Haja o que houver…”

E quem é esse personagem? “Um idealista, quer a união de todos. É o patriarca de uma família nada convencional, mas ele não quer saber disso. Mesmo com todos os problemas, tem que ser unido e tem que se amar uns aos outros. Tem coisas modernas demais pra ele, que ele não entende… Mas é um sonhador, um ex-cantor… Eu sou um cara assim também: haja o que houver, quero que todos estejam unidos. Não só a minha família: quero que o mundo inteiro seja assim, se for possível. Me identifico muito com ele nisso”.

“… coisas impossíveis não fui testado ainda”

Na história, o personagem de Erasmo abre mão da carreira acadêmica para realizar o sonho dos [excêntricos] filhos: abre uma boate onde eles cantam músicas românticas – aka bregas mesmo. Será que ele largaria tudo e começaria de novo por sua família “da vida real”? “Falar hipoteticamente é muito fácil, se fosse eu… Ah, só se você ficar na mesma situação é que vai saber se faz ou não… Seria falso te responder… Mas abro mão de coisas pela minha família. Coisas normais, coisas impossíveis não fui testado ainda…”

“Aí não achei sincero”

Que tal cantar brega? “Talvez pela Jovem Guarda ter um pezinho no brega, fiquei muito à vontade. É um ambiente que gosto: vim desse ambiente também. Não adianta fechar os olhos e fingir que não existe: o Brasil é assim. E um Brasil muito presente, não é um Brasil dos outros, escondido. Está na cara de todo mundo. A Monique tinha escolhido para eu cantar uma música brega dos anos 80, aí não achei sincero. Sugeri uma da minha juventude… Levei lá pra trás, para o repertório do Anísio Silva [‘Alguém me Disse’]”.

A peruca!

Foi bacana a experiência de voltar a fazer cinema? “Foi uma coisa normal. O grande ganho, o que vou me lembrar pra sempre, foi a peruca. A peruca foi um acontecimento. Fui direto experimentar a peruca. Nunca tinha me acontecido isso… Eu só experimentava figurino… Foram vários profissionais até adaptar a peruca pra mim… Uma sofisticação! E tinha que chegar cedo todo dia pra botar a peruca, aí tinha que aparar meu cabelo, que já é pouco e ficou todo ruim… Depois tirava a peruca, guardava para o dia seguinte…” Deu saudade da cabeleira de antigamente? “Eu parecia outra pessoa! Mas não deu saudade, não, porque não ligo mais pra essas coisas. Parece que já nasci assim [careca]… Ah, o clima dos bastidores era uma festa. Eu cheio de paletós engraçados, abotoaduras… Foi uma farra”.

Marisa, Emicida, Arnaldo, Calcanhoto, Samuel, Nando, Camelo… e Tim!

E por falar em amor… “Meu disco novo saiu ontem: ‘Amor é Isso’, com 12 inéditas. Se o amor não tem explicação e você não sabe falar o que é, demonstra com gestos. Turnê é cedo ainda, essa era digital mudou tudo. Vamos ver como é que o disco se sai, dentro desse universo todo. Saiu primeiro minha com a Marisa Monte e o Dadi, que é a faixa título. Mas também tenho parcerias com Emicida, Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhoto, Samuel Rosa, Nando Reis, Marcelo Camelo… E ousei, sem pedir licença, bolinando, e coloquei o Tim Maia… É um álbum explicando o amor como conceito. O amor é infinitamente elástico, encampa tudo, por isso é difícil explica-lo”. Erasmo é bom de demonstrar amor? “Procuro ser correto em tudo que eu faço”.

Poemas por email: todo domingo

Perguntamos de onde veio a tal da inspiração… A história? Das mais fofas. “O processo teve início há 8 anos, quando comecei a namorar minha mulher, Fernanda. Ela morava em São Paulo e todo domingo eu lhe escrevia um email para ela sorrir. Contava uma piada… Ela é professora, então era a piada da professora dona Fernanda com o aluninho Suricatinho, que é o apelido que ela me chama. Em 8 anos, completamos 111 emails, que é o nome do meu livro de poesias, que vai ser lançado no ano que vem. Aí um dia decidi começar a musicar os poemas. Foi uma nova experiência pra mim, nunca tinha feito isso. E as parcerias foram assim: eu mandava os poemas e as pessoas faziam maravilhas, músicas lindas. Meus parceiros foram esplêndidos”.

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