Carla Madeira
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Carla Madeira se tornou a autora mais lida do país falando de violência e perdão sem rodeios

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O interesse pelas condições humanas e a habilidade admirável de lapidar palavras transformaram a publicitária Carla Madeira num fenômeno da literatura nacional.

Em 2021, ela foi a autora brasileira mais lida no país, com mais de 40 mil cópias vendidas. O título que gerou a comoção, “Tudo É Rio”, já havia sido lançado em 2014, mas foi a nova publicação, pela editora Record, no ano passado, que o tornou um dos assuntos mais falados nos clubes de leituras e nas discussões entre apaixonados pela literatura.

Segundo Carla, o segredo está na escolha dos temas e na linguagem. “A ressonância é muito forte nas pessoas porque fala de assuntos que nos rondam hoje, como sexualidade, religiosidade, violência, desigualdade de gênero. Eu entro nessas questões de forma direta, sem rodeios. Ao olhar para a história do outro, o leitor reflete sobre a própria vida”, diz a mineira.

É difícil não se envolver com o estilo único de Carla, que mistura poesia à realidade. “Exponho a hipocrisia do que é considerada uma família de respeito e do peso que as mulheres carregam nessas configurações. Quantas mulheres não conseguem se afastar de relações agressivas, entrando num ciclo de violência sem saída?”, questiona ela, que rechaça títulos grandiloquentes de genialidade e originalidade, mas defende sua capacidade de criar protagonistas fortes e que rompem com expectativas e padrões.

“Vivemos em uma sociedade em que o gozo é reservado aos homens e o sacrifício é o que cabe às mulheres. Porém, muitas vezes, as minhas personagens viram essa chave e assumem as rédeas de sua própria vida, não sem consequências de julgamentos externos, claro”, afirma.

“Vivemos em uma sociedade em que o gozo é reservado aos homens e o sacrifício é o que cabe às mulheres. Minhas personagens viram essa chave”

Carla também descarta maniqueísmos, não há vilões ou heróis em suas histórias, mas pessoas reais. “Eu fico comovida de pensar em como o bem e o mal, essas potências, vão se equilibrando dentro de nós”, explica. Não por menos, outro tema que é frequente nas escritas da mineira é o perdão.

“O perdão existe para perdoar o imperdoável. Escrevo isso em “Tudo É Rio”. É preciso tempo, conversa, tolerância, mas as pessoas podem ser perdoadas, mesmo que seus atos não sejam. Sem o perdão, não teríamos chegado até aqui como sociedade. Nós confundimos perdão com vingança. Queremos que o outro sofra.”

Matemática e redação publicitária

Carla sempre teve tino para as artes. Quando pequena, compunha músicas no violão. Hoje, para além das palavras, pinta. Não é de se estranhar que, na faculdade, tenha deixado para trás dois anos do curso de matemática pura e se dedicado à comunicação.

“Sou diretora de criação há 35 anos, o que me deu a possibilidade de trabalhar com várias linguagens artísticas, como a música e a interpretação, mas a redação publicitária sempre foi um destaque. Até dei aula da matéria na Universidade Federal de Minas Gerais”, lembra.

“O contato com as palavras impactou diretamente na escrita dos livros, nas características do meu texto. Minhas frases são curtas, sintetizadas.”

O processo autoral visceral fez com que os primeiros esboços de “Tudo É Rio” fossem abandonados por 14 anos. Depois de escrever a cena mais violenta do livro, Carla ficou paralisada por tamanha brutalidade. “Talvez eu não tivesse muitos recursos para lidar com aquilo emocionalmente ainda. Travei e não sabia como encaminhar a história”, revela.

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Só que a trama voltava com frequência aos seus pensamentos. Perguntas, saídas, refações. “Não abria o arquivo, não voltava formalmente a escrever, mas fazia anotações. Foi um tempo de maturação que não tive com meus outros livros”, fala, citando “A Natureza da Mordida”, que está esgotado e será relançado este ano, e “Véspera”, lançado no fim de 2021.

Quando retomou o best-seller, escreveu tudo em oito meses. “O leitor sente essa correnteza, é como se estivesse jorrando um texto aprisionado.”

Leia a reportagem completa na edição de abril da revista J.P, já nas bancas.

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