Vibradores
Foto: Divulgação /Pantynova

Sextechs brasileiras crescem enquanto desmistificam tabus que envolvem o prazer feminino

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Em meados do século 20, um cartaz anunciava um vibrador que acalmava o “indivíduo levando-o a um relaxamento agradável”. A mensagem destacava as qualidades do produto que aliviava a tensão e poderia ser utilizado com ou sem cremes, além de ser absolutamente seguro para as áreas mais sensíveis do corpo, proporcionando satisfação. Mas, embora haja evidências de que as mulheres utilizavam os vibradores para a masturbação já nas décadas de 1900 e 1910, vender a peça abertamente como aparelho sexual era algo raro, uma vez que a prática foi durante muito tempo considerada obscena em vários países, com leis que impediam as companhias de anunciar produtos para o prazer sexual. Os itens, assim, apareciam como massageadores de costas ou pescoços.

Mais de 100 anos depois, no entanto, as empresas que se voltam ao bem-estar sexual – as chamadas sextechs – ainda enfrentam problemas para a divulgação de seus produtos a despeito de o segmento movimentar mais de US$ 30 bilhões ao redor do mundo, com crescimento de 30% ao ano, e previsão de ultrapassar o valor de US$ 120 bilhões até 2026. “Todas as postagens que tento impulsionar foram bloqueadas porque as redes classificam como algo que infringe as normas da comunidade. Se você usa determinadas palavras, como vagina, ou mesmo bem-estar sexual, às vezes [a publicação] não passa”, explica Lídia Cabral, que fundou há um ano a plataforma Tech4Sex com o propósito de fomentar o ecossistema de sextechs no Brasil. “Essa é uma das bandeiras de quem trabalha nessa área: como você irá atingir o público se não consegue promover os posts? Existe também um tabu para receber investimento e para alavancar um negócio você precisa de grana”, argumenta.

Lídia Cabral. Arquivo Pessoal

Seu primeiro contato com o segmento aconteceu em 2020, quando teve a oportunidade de viajar para a Consumer Electronics Show (CES), considerada a maior feira de tecnologia do mundo. Ali, Lídia se deparou com uma série de empresas voltadas ao bem-estar sexual e começou a estudar esse mercado, à época quase inexistente no Brasil, chegando a se formar, também, na Sextech School, escola de Bryony Cole, autora de “Future of Sex” e considerada uma das principais lideranças no ramo. “O mercado erótico existe há muito tempo, mas não com essa proposta e com empresas que passam a ser passíveis de investimento. Esse é um tema novo, com poucas informações ainda”, explica.

“O mercado erótico existe há muito tempo, mas não com essa proposta com empresas que passam a ser passíveis de investimento”

Lídia Cabral, fundadora da Tech4sex

Foi também em uma viagem ao exterior, durante uma especialização em São Francisco, Califórnia, que a empresária Marina Ratton se viu em um encontro destinado a debater o papel das sextechs. A percepção do potencial dessa área, com a noção de que a tendência era incipiente no Brasil, fez com que Marina decidisse abandonar a empresa onde trabalhava para empreender no ramo com a marca Feel. Com um investimento inicial de R$ 100 mil, e o desenvolvimento de pesquisas quantitativas e qualitativas para mapear como se lançar nesse terreno, ela passou a explorar questões sobre os produtos e a rotina de sexualidade, bem como os desafios que atingiam a intimidade dessas mulheres, a exemplo de candidíase, endometriose e ressecamento vaginal. “Temos poucos dados sobre sexualidade no Brasil, a última grande pesquisa data de 2017, e meu objetivo era entender se a demanda era por produtos, aplicativos ou conteúdos”, conta Marina. “Havia uma dutos, principalmente para mulheres que estão na menopausa e no climatério, e que não se sentiam atendidas.” O estudo a que ela se refere, inclusive, foi realizado pelo Programa de Estudos em Sexualidade da Universidade de São Paulo (ProSex), na Faculdade de Medicina da USP, e concluiu que metade das brasileiras não tem orgasmo nas relações sexuais.

Marina Ratton. Divulgação

Sem a mesma precisão metodológica, a pesquisa realizada por Marina apontou que 86% das entrevistadas não estavam felizes com os produtos disponíveis na gôndola. O que levou a empresária a lançar um gel lubrificante e hidratante à base de calêndula, aloe vera e vitamina E. O produto, que tinha como projeção um estoque de 500 unidades que deveriam durar dois meses, acabou em duas semanas e, agora, menos de um ano após o lançamento, a startup conseguiu captar R$ 550 mil em sua primeira rodada de investimentos por meio da plataforma de equity crowdfunding Wishe, com 84% do financiamento liderado por investidoras mulheres. Além da captação, a Feel também atraiu a atenção do Grupo Boticário em fevereiro deste ano, quando foi selecionada para participar do programa de aceleração da empresa.

Com o investimento, a ideia é lançar mais três produtos até o fim do ano, sendo dois deles voltados para mulheres acima dos 50. O mais urgente para Marina – que ganhou no processo as sócias Dani Junco e Marina Sampaio –, no entanto, é aumentar a produção e sair “do termo de sold out”. “Fizemos um pedido robusto, de 5 mil unidades, pela primeira vez, e faremos um repique ainda maior em setembro”, comemora.

Como a Feel, a marca Lilit, que nasceu com a missão de ser a primeira empresa brasileira de vibradores criados por e para mulheres, também está indo de vento em popa. Nos primeiros 11 meses de operação, a companhia faturou R$ 757 mil. De acordo com sua fundadora, Marília Ponte, a empresa nasceu de sua própria experiência (nada entusiasmadora) ao comprar o primeiro vibrador. “Quando decidi empreender, tinha vergonha de dizer que iria pedir demissão para criar um vibrador. O que me ajudou foram as pesquisas que mostravam o tamanho do mercado”, explica. Seus primeiros passos também foram sedimentados por um estudo com mais de 3 mil mulheres, que confirmavam a sua percepção inicial: do grupo de participantes que já havia tido um vibrador, apenas 10% delas havia ficado 100% satisfeitas com a experiência. Durante o processo de elaboração do Bullet Lilit, um minivibrador com cinco estágios de vibração, que é recarregável e resistente à água, além de pequeno e discreto, Marília se deparou com a falta de informação ao realizar um quiz com parte das entrevistadas e perceber que a minoria das mulheres tinha conhecimento sobre a anatomia do clitóris. “Começamos a notar que o vibrador era só uma pequena parte para olhar de uma forma mais prazerosa e com menos tabus”, diz ela. “O benefício não é o produto em si, mas o produto como ferramenta para o diálogo, para a educação e para trazer a sexualidade a um lugar diferente.”

Marília Ponte. Divulgação

O lado positivo da pandemia, nesse sentido, é que nunca se consumiu tantos vibradores. De acordo com levantamento feito pelo portal Mercado Erótico, mais de 1 milhão desses brinquedinhos adultos foram vendidos entre março e agosto no Brasil, volume 50% maior se comparado ao mesmo período do ano anterior. Assim, se o isolamento social possibilitou o aceleramento do e-commerce e derrubou uma das principais barreiras para as mulheres comprarem sextoys – a necessidade de entrar em lojas físicas –, também abriu espaço para redimensionar a importância do prazer feminino e dos tabus que persistem nessa área.

“O benefício não é o produto em si, mas ele como ferramenta para o diálogo, educação e para trazer a sexualidade a um lugar diferente”

Marília Ponte, fundadora da Lilit

Para Lídia Cabral, da Tech4Sex, tudo deve passar pela educação, a começar pelo fato de que a maioria das pessoas não entende o significado das sextechs e acha que o nome está relacionado à pornografia ou robôs. “Não é que não seja, também faz parte, mas o grande foco são soluções para melhorar a sexualidade e, quando você fala de sexualidade, estamos abordando também a saúde e um conceito holístico de bem-estar”, explica. “Por um lado, é preciso mostrar a importância da educação sexual. Do outro, mostrar as oportunidades financeiras desse mercado que não é de nicho, se considerarmos que as mulheres são mais da metade da população.”

Iza & Heloia. Divulgação

Pioneiras nesse ramo, Izabela Starling e Heloisa Etelvina, que fundaram a marca Pantynova em 2018, registraram um crescimento de 554% em 2020: “Já vínhamos de um bem, mas crescemos anos em semanas. Só em março do ano passado foi 400% [em relação ao mesmo mês no ano anterior]”. Com destaque inicial para os strapons [brinquedo erótico constituído por um pênis artificial], que vêm com design diferente dos modelos tradicionais, feitos em couro ou napa, e dildos com modelagem mais discreta, distantes das réplicas de pênis, a marca passou a lançar, neste ano, vibradores em parceria com seus fornecedores, cuidando da customização para tornar a apresentação deles mais adequada, e planeja modelos 100% autorais até 2022. “Nossa expectativa para o próximo ano é expandir tanto no B2B quanto no B2C”, diz Izabela, que passou a ter a marca comercializada nas lojas Amaro, Renner e Magazine Luiza. “As pessoas estão entendendo cada vez mais que a sexualidade é um importante pilar para o bem-estar, tanto quanto ter uma rotina de exercícios ou se alimentar bem”, conclui a empreendedora.

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