Isma Almeida e Vita Pereira
Foto: Divulgação/WIlliam Gomes

Funk Travesti: Quem é a dupla ‘Irmãs de Pau’ que quebra padrões de comportamento com música

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Formada pelas funkeiras Isma Almeida e Vita Pereira, a dupla Irmãs de Pau faz provocações e quebra padrões de comportamento em letras de seu primeiro álbum. Por Pedro Alexandre Sanches

Eu vou falar para os meus pais / que eu sou uma bicha louca / vou subir na minha laje e vou girar feito uma doida”, proclamam as Irmãs de Pau nos primeiros segundos de seu álbum de estreia, Dotadas. O ponto de candomblé que abre o disco diz muito sobre as intenções da dupla em pouquíssimas palavras: “Não mexe com elas que elas nunca andam sós / trava de peito e pau, ocó morre sem dó” (no dialeto do pajubá, “ocó” quer dizer homem heterossexual). Isma Almeida, 23 anos, e Vita Pereira, 25, prosseguem com o funk “Travequeiro”, uma “homenagem” aos homens que gostam de travestis e não assumem isso em público: “Me ligou de madrugada querendo me encontrar / me chamou pra dar uma volta / mas não queria beijar / maricona desgraçada”. Contrariando expectativas anacrônicas da sociedade sobre o que é ser travesti, as duas artistas são pedagogas – Vita já formada, Isma em vias de concluir a graduação – e se conheceram quando participavam da mesma ocupação secundarista em uma escola em Barueri (SP). Dividem-se entre mil trabalhos: em teatro, cinema, dramaturgia, websérie, ar tes plásticas, arquitetura e engenharia, beleza (ambas são cabeleireiras trancistas)… “Gosto de me nomear como uma multiartista do equê, que no pajubá significa truque”, define Vita. Isma completa: “Ao mesmo tempo que a gente se orgulha muito de ser multiartista, se sente obrigada a ser, justamente por ver que o panorama das travestis é sempre o caminho da prostituição ou da área da beleza. Acabamos sendo pau para toda obra justamente por não vermos outros exemplos”.
As afrontas e provocações que lançam são muitas (“eu meto em você / mexeu com as travesti, agora tu vai se foder”, rimam também em “Travequeiro”), mas se condensam perfeitamente no nome da dupla e no título do álbum. “Qual é o problema da gente gostar do nosso próprio pau, que também faz parte do nosso corpo e não temos vontade de excluir?”, pergunta Vita. Elas admitem que sofrem resistência entre travestis e mulheres transexuais por causa dessa posição e de falarem livremente seus nomes de registro, Ismael e Victor (Isma já oficializou o nome feminino no cartório, e Vita está no processo). “Trazemos uma nova forma de lidar com as nossas dores. É um detalhe que Linn da Quebrada colocou quando fala ‘eu matei o Júnior’, mas a gente não escolheu matar o Vitão e o Ismael. Escolhemos caminhar juntos”, explica Isma. Dotadas, dizem, não se restringe ao sentido sexual: “Dotadas vem muito dos nossos dotes, dos nossos talentos, dos lugares que conseguimos ocupar”. “Dotada de talento / dotada de maldade / dotada
de malícia / dotada de sacanagem”, provoca a faixa-título.

Os temas que abordam vão além da sexualidade. Isma tem histórico familiar evangélico e Vita, católico, e as duas dizem respeitar a bagagem religiosa que carregam. O assunto aparece em “Kulto”, prece gospel que encerra o álbum, e em “Picumã y Próteses”: “Desde pequenininha era toda afeminada / teu pai era pastor da igrejinha da quebrada / gostava de louvor, era fã da Bruna Karla / mas via Beyoncé e ficava toda encantada / em um belo dia resolveu sair de casa / caiu no mundão e voltou transicionada”. Até o romantismo tem lugar no repertório. “A nossa luta também é por um mundo onde meninas trans adolescentes consigam namorar e realizar a fantasia de ter um menino assumindo”, diz Isma. “Só de quatro anos para cá é que começamos a dar beijo nas relações que tínhamos. Antes, éramos apenas uma bunda ambulante”, afirma Vita, já reivindicando as próximas conquistas.

Gabeu inaugura o Sertanejo Agropop

Foto: Divulgação

O cantor de 23 anos leva canções irreverentes ao universo da sofrência

Os ventos libertários na música brasileira não sopram apenas no funk. Gabeu bagunça o cenário sempre tradicional e heterossexual da música sertaneja e lança o álbum Agropoc, irreverente desde o título (poc, gíria para gay afeminado) e já batizado de “queernejo”. Filho do cantor Solimões, da dupla Rionegro & Solimões, Gabeu tem 23 anos e ambienta sofrências e farras no mundo sertanejo e agro, em modas radiantes como “Amor Rural” (“’vamo’ assumir o nosso amor rural / larga essa enxada e pega no meu… / quero montar na sua sela, cavalgar até ela descobrir que nóis é viado”), “Bailão” (“me faz de gato e sapato / sabe bem meu ponto fraco / mas esse cabra safado / vai aprender uma lição / eu viro um, viro dois, viro três/ beijo um, beijo dois, beijo três / até me apaixonar / e acontecer tudo outra vez”), “Cowboy” (“cavalga em mim / eu acho que eu mereço ser tratado assim / tem fio de cabelo no meu paletó / sem você eu sou só um louco apaixonado que te quer assim / todo corno merece o chifre que tem / sem você não sou ninguém”) e “Esconde-Esconde” (“não perco meu tempo com esse come e some / se tu é fora do meio te boto pra escanteio / vai ver que teu defeito é ser muito homem”).

“Sugar Daddy” satiriza os homens maduros que engatam romances com pessoas mais jovens ancorados pelo dinheiro: “Sugar daddy pra que se eu tenho meu dinheiro? / Eu não quero salário em troca do meu beijo / pode ser Milionário ou até José Rico / eu não vou cair na lábia de um herdeiro”. Até mesmo a “dor de corno” vem forrada de autoestima, como acontece em “Queda d’Água”: “O que passou, passou, não volta mais / e tempestade alguma vai me abalar”.

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