João Falcão defende teatro autoral e reinventa o “Você Decide”, que estreia em 2019

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João Falcão entre Angela Dippe e Luana Martau, atrizes da nova montagem de “A Dona da História” || Créditos: Dalton Valerio

Mais de 20 anos depois de lotar os teatros com “A Dona da História”, peça criada em 1997 para Marieta Severo e Andreia Beltrão, que coloca em evidência questões de uma mulher de 50 anos que transita entre o passado e o presente, João Falcão, autor da história, decidiu revisitar a própria trajetória para trazer o espetáculo de volta. Em cartaz no Teatro Opus, no Shopping Villa Lobos, em São Paulo, e desta vez protagonizado por Angela Dippe e Luana Martau, a montagem passou por pequenas adaptações de texto, que segundo Falcão tem mais a ver com as mudanças profissionais que passou neste tempo. “Visitar a época em que escrevi a peça, há mais de 20 anos, foi um processo muito interessante”, contou ao Glamurama.

Falcão é nome por trás de obras audiovisuais da Globo de sucesso, mas nem por isso se desligou dos palcos. Neste momento em que falta incentivo ao teatro e ainda existe uma certa dificuldade para lotar as casas regularmente, o resistente diretor, roteirista e compositor analisa a dramaturgia atual brasileira como “alternativa”. Sob que aspectos? “Gerações de dramaturgos em potenciais estão escrevendo roteiros para a TV. O teatro nesse sentido sofre porque os autores valorizados são sempre os que foram testados durante anos fora do Brasil, nos grandes sucessos da Broadway, por exemplo.”

Comparando o cenário de hoje com o de 20, 30 anos atrás, quando muito mais gente ia ao teatro, o diretor avalia:
“Hoje um espetáculo que não seja montagem da Broadway não tem tanto apoio ou interesse da mídia e de patrocinadores. O teatro brasileiro, criado por autor, está em crise pois o mercado de trabalho está mais centrado na TV, ser ator de teatro atualmente não tem atrativos porque as peças de autores nacionais não tem muito apoio e destaque.” E as consequências atingem diretamente os budgets das peças: “Por incrível que pareça, está muito mais fácil conseguir um grande valor para montar um espetáculo com um nome consolidado no exterior do que uma peça pequena e nova, que ainda não se sabe qual será a reação do público. Isso fica repetitivo, torna o mercado brasileiro um pouco renegado.” Neste contexto, os temas também sofreram mudanças. “Histórias de amor se tornaram mais raras do que eram naquela época. Hoje, uma peça romântica é uma pérola entre tantas outras que abordam temas mais violentos, por exemplo.”

Á MÁQUINA 

Wagner Moura e Vladimir Brichta ajoelhados e Lázaro Ramos de pé, em “A Máquina” (2000) || Créditos: Divulgação

Além de “A Dona da História”, o roteirista também planeja voltar com outro sucesso: “A Máquina” (2000), que apresentou ao grande público Lázaro Ramos, Wagner Moura e Vladimir Brichta. “A peça tem um formato considerado moderno até hoje”, conta. “Já estou viabilizando uma nova montagem para o ano que vem. Vou atrás de novos atores pelo Brasil e tentar repetir o sucesso que tivemos com os três.”

“Ter lançado os galãs também teve suas desvantagens naquele momento”, se abre Falcão. “Foi maravilhoso por um lado, mas ao mesmo tempo a peça teve curta duração por conta disso, eles ficaram muito requisitados!” (Risos) É uma montagem que marcou uma geração, mas ao mesmo tempo foi muito mais comentada do que vista. Merecia ficar mais tempo em cartaz.”

VOCÊ DECIDE 

Com uma lista extensa de trabalhos renomados também no audiovisual, como “Sexo Frágil” (2003), a segunda temporada de “Ó Pai Ó” (2009) e “Nada Será Como Antes” (2016), Falcão dará um tempo da Globo. O motivo? Passou os últimos quatro anos trabalhando intensamente ao lado de Guel Arraes, nova versão de “Você Decide”, programa que ficou oito anos no ar, de 1992 a 2001, e teve entre seus apresentadores Antonio Fagundes, Raul Cortez e Tony Ramos. O novo projeto foi entregue em julho à emissora. “Foi um processo intenso, que passou por transformações até chegar ao modelo final, então cada episódio é uma série. É um formato interativo muito maluco que inventamos, que envolveu pesquisa e várias versões de uma mesma história.” O programa vai ao ar em 2019, ainda sem data definida.

TAL PAI, TAL FILHA 

Clarice Falcão em show da turnê “Voz, Guitarra e Mais Coisa”, que contou com a participação de João Falcão na criação do roteiro e da direção dos shows || Créditos: Divulgação

João Falcão foi casado com Adriana Falcão com quem tem duas filhas: a atriz e cantora Clarice e a acadêmica Maria Isabel, que está longe da cena artística e se denomina como “a menina que quer fugir do circo”, contou o pai orgulhoso. Na carreira de Clarice, ele só dá palpites quando é chamado. “Ela faz tudo com muita liberdade, sou muito fã e respeito os caminhos que minha filha escolhe.” Mas não nega a vontade que tem de dirigi-la no teatro. “Gostaria de fazer um musical de comédia brasileiro com ela. Se possível até escrever junto. Quanto maior for nossa parceria, melhor.” Por que isso não aconteceu até hoje? “Ela é muito ocupada, precisa encontrar um tempo para isso…”

SÉRIES 

Atraído por projetos autorais, João explica que virou diretor para contar as histórias que gosta, e atualmente produz conforme a demanda. “Quero voltar a escrever textos originais. Tenho conversado com produtoras de audiovisual que estão produzindo para plataformas de streaming como Netflix e Amazon Prime Video, mas ainda não posso dar mais detalhes. Serão séries, algo que nunca fiz, assim como novelas e admiro quem faz – é uma loucura escrever tanto -, mas sempre fiz minisséries, então essa é a minha praia. Esse formato é o futuro.”

ELEIÇÕES 

João Falcão || Créditos: Reprodução

Política também entrou em pauta, é claro. E a postura dele é otimista, “apesar de tudo”, sob uma ótica puramente artística. “Tenho a opinião de que todo artista deveria se posicionar. Não adianta salvar a minha pele se não tenho para quem mostrar o meu trabalho. O Brasil é imenso e a minha utopia como artista é que tivesse mais cultura e arte para todos. É frustrante criar algo e ver que seu trabalho fica distante de um público maior. Quem pode ir ao teatro, por exemplo, é um percentual muito pequeno. Gostaria que a educação e a informação fosse levada a mais pessoas. A mesma preocupação que tenho com a arte, tenho com o país em geral, de uma menor desigualdade. Temos que lutar para não cairmos de vez na barbárie. Ando preocupado, mas esperançoso. Apesar de tudo devemos ser otimistas com o futuro do país. Torço muito para que tudo volte ao normal, que a democracia se restabeleça com mais clareza e que a gente possa voltar a ser um país menos desigual, onde as coisas sejam menos apartadas em todos os sentidos.” (Por Julia Moura)

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