15.05.2018  /  9:00

Zé de Abreu: morte do filho, carta branca da Globo para ser “lulista”, 8 casamentos, viver sem residência fixa… À entrevista!

José de Abreu || Créditos: Reprodução

José de Abreu está na terceira novela seguida de João Emanuel Carneiro. “Só por isso já dá pra dizer que nasci com o […] virado pra lua. Já posso pedir música no ‘Fantástico'”. Em “Segundo Sol”, que estreou nessa segunda-feira, ele pensa que o filho – o protagonista Beto Falcão, papel de Emílio Dantas – está morto. E esse sentimento não é novidade para o ator. Vem ler – sobre isso e muito, muito mais! (por Michelle Licory)

“Não é normal enterrar um filho”

“A coisa mais grave que aconteceu na minha vida foi a morte do meu filho Rodrigo, há 25 anos. Isso foi uma superação difícil. Agora quando gravei o capítulo da morte do Beto… Essas coisas voltam. Voltam sempre. Nunca acaba. Não é normal enterrar um filho. De resto, nunca precisei de segunda chance”, nos disse Zé. É que o tema central da trama é recomeçar. “Ah, se você pensar em segunda chance no casamento, aí sim… Já estou no oitavo!”

 

“A minha é uma dor muito antiga”

Perguntamos se ele utiliza essa dor da perda do filho nas cenas. “Antigamente eu usava essas emoções. Hoje não preciso mais. Na hora de decorar, eu lembro, mas na hora da cena eu já viro o personagem. E a dor do Dodô [papel dele] pela morte do Beto é uma dor imediata. A minha é uma dor muito antiga, não é o mesmo nível. A dor vai mudando”.

 

José de Abreu || Créditos: Divulgação

“Fiquei dois meses preso”

Sobre sempre emitir suas opiniões ideológicas – às vezes bastante polêmicas… “Nunca me privei de dar minha opinião. Nunca fugi de nenhuma confusão. Tem uma lenda, uma historinha… Me disseram que o Caetano Veloso contava isso, não sei se é verdade: um velhinho ia todo dia na estação do trem e fazia um discurso contra o rei. E, quando ele já estava com 90 anos, um cara chegou e falou: ‘Poxa, tem 70 anos que você vem aqui todo dia. O rei não vai cair. Não adianta nada fazer isso’. E ele respondeu: ‘Mas é que se eu não vier todo dia, quem mudou fui eu’. Acho que eu não vou parar nunca. Há muito tempo que faço isso. 1968 significa pra mim minhas duas prisões na ditadura: uma por fazer passeata e outra por ir a um congresso de estudantes. Esses eram meus crimes. E fiquei dois meses preso”.

“Seis meses que vou ficar caladinho”, “a lei eleitoral proíbe”

Ele continua: “Ganhei um prêmio de ‘twiteiro’ mais importante politicamente no Brasil. Mais do que os de jornal. Mas é porque eu leio muito. Quando vou comentar alguma coisa, sei do que estou falando. Agora vem eleição e a lei eleitoral proíbe que a gente se manifeste quando está no ar. Então vão ser seis meses que vou ficar caladinho. E tudo bem porque, se não fosse a minha carreira, eu não teria essa voz. E tenho que me concentrar na novela, é muito difícil falar baiano [a história se passa na Bahia]! Sofro muito. Ou esqueço, ou fica pouco, ou fica muito. Vão me arrasar. Já estou pedindo desculpas para todos os baianos. Tentei, fui pra lá, fiquei 15 dias, por minha conta… Exilado nesse bairro de Santo Antonio Além do Carmo… Sei tudo de lá, pelo menos”.

Lula pergunta, Marinho responde: “Dos meus comunistas cuido eu”

Perguntamos se ele já teve problemas no trabalho por conta de seus discursos sobre política. “Tive com uma amiga, por incrível que pareça. Com a Globo, nunca. Até provoquei a Globo pra saber e eles disseram ‘faça o que quiser, nunca vamos nos meter’. Uma vez o Lula falou: ‘Pô, quando encontrar com um dos Marinho, pergunta se você está muito lulista. Encontrei com o João Roberto, que me parece que é o mais ligado em política, falei que o Lula estava preocupado… João respondeu que não tinha problema, que era como o pai dele dizia: ‘Dos meus comunistas cuido eu’. Mas, opa, não sou comunista, sou socialista cristão (risos)”.

“Se você ficar doidão de uma hora pra outra, não sofre”

Além da novela, Zé se prepara para entrar em cartaz no cinema no próximo dia 24, em “Antes Que Eu Me Esqueça”. Sobre o trabalho… “É muito difícil fazer alguém 10 anos mais velho, com Alzheimer, mas toda crítica que recebo do filme fala que é o melhor trabalho da minha vida. Que bom. O personagem começa a vender imóveis abaixo do preço, compra uma boate… Faz coisas que ninguém acredita que seja atitude de uma pessoa normal, mas faz isso quando ainda está bem de cabeça. E os filhos decidem interdita-lo. Ele foi juiz de Direito durante muitos anos, bastante careta. Nunca arriscou nada na vida porque acreditava que para poder julgar os outros tinha que ser um cara puro, perfeito. E aí quando começa a sentir que está perdendo a lucidez… Tem uma frase no filme: é muito duro ter lucidez suficiente para saber que está perdendo parte dela. Se você ficar doidão de uma hora pra outra, não sofre. Agora perceber a mente falhando e cada vez ficando pior… Deve ser terrível. E todo mundo vai passar por isso: seu pai, sua mãe, todos nós. A outra opção é a morte”.

“Não vou abrir um clube de striptease. Espero que não”

E se, no fim da vida, Zé começar a fazer algumas besteirinhas e os filhos resolverem cortar suas asas? “Acho muito difícil que meus filhos façam isso comigo. Tenho quatro. Eram cinco. A gente tem uma relação ótima. E não tenho dinheiro pra deixar pra eles… E não vou abrir um clube de striptease. Espero que não precise (risos)… Minha vida é completamente diferente da do juiz. Ele se privou dos prazeres da vida, eu não. Nunca. Pelo contrário”.

“Não tenho mais residência fixa”

Por falar nesses prazeres… “Eu atingi a perfeição: não tenho mais residência fixa. Moro em apartamentos do Airbnb pelo mundo. Morei três anos em Paris, mais um ano e meio em uma ilha grega lá no meio do nada. Agora fico aqui pra fazer a novela e vou para Los Angeles em novembro. Fico um ano e depois vou viver um tempo no Butão e, na sequência, Namíbia. Isso para um geminiano é perfeito”.

“Cada mulher que eu conheço na intimidade é uma evolução”

Acabou? Não. Ainda vem por aí – em agosto – uma autobiografia, para comemorar os 50 anos de carreira. “Quero discutir através dessa autobiografia a perplexidade masculina frente à nova mulher, a de 1968 pra cá, a que começou a revolução sexual com a minissaia e a pílula anticoncepcional. A mulher que, como a Marieta Severo diz, quebrou os primeiros tabus. As mulheres não param de evoluir na sociedade e deixam os homens cada vez mais perplexos. Não escolhi, mas minha vida foi assim: o primeiro casamento durou 4 anos, o segundo, 20, o terceiro, 10, o quarto, 10. Depois comecei a ter casamentos mais curtos. Estou no oitavo, é uma baiana e estou muito feliz. Esses casamentos agora duram menos, mas cada mulher que eu conheço na intimidade, convivendo, pra mim é uma evolução. Eu evoluo como homem. Empoderamento é uma palavra nova, mas isso começou quando as mulheres começaram a botar as pernas pra fora”.

“Mulheres que me tiveram e nunca ninguém soube”

Por que focar nas mulheres de sua vida? “Percebi que meus 40 anos de Globo foram cobertos pelas revistas e depois pelos sites. Para contar coisas novas, precisava ser coisas íntimas, de dentro da minha casa, não da carreira. Claro que conto fofocas internas que nunca foram publicadas de bastidores de novelas, mulheres que me tiveram e nunca ninguém soube, como já fui usado por mulheres sem caráter (risos)”. E tem esses nomes no livro? “A maioria das histórias está com os nomes. Me abri bastante, não censurei nada. Só quando as amigas pediram pra não contar, ou contar e não falar o nome, mas aí nesses casos quem for pesquisar vai descobrir quem é”.

“Faltava um cara, me botaram no palco”

Se for pra fazer um balanço da carreira… “Só tenho que agradecer a Deus, ao Universo, ao que for… Nunca tinha pensado em ser ator na minha vida e subi num palco antes de assistir a uma peça. Foi na faculdade de Direito, em São Paulo. Fui ver um ensaio, faltava um cara, me botaram no palco para fazer um exercício, nunca mais saí. Me mudei para o Rio Grande do Sul por causa de um amor, acabei no melhor grupo de teatro de lá, por causa dele fui chamado para um filme, o [Roberto] Talma estava lá porque estava namorando a [Maria] Zilda, que era protagonista… Ele me viu e me trouxe para a Globo. E aí todos os meus personagens… Não tive papel pequeno. O Nilo, de ‘Avenida Brasil’, era secundário, aparecia duas, três vezes por semana, mas com ele ganhei todos os prêmios de crítica. O balanço que faço é altamente positivo”.

“Um governo de esquerda, sem aceitar imposições”

O assunto mudou para “Bebê a Bordo”, e advinha no que deu, de novo? Comentamos sobre os cortes nos capítulos na reprise da novela de 1988 – que teve o ator no elenco – no canal Viva. O picote estaria ocorrendo por conta da censura do horário e da baixa audiência… “Mas o ibope do Viva já não é baixo mesmo? Ah, o Brasil encaretou pra caramba. Nos últimos dois, três anos, então… Mas não é só aqui, é um negócio internacional. O único país do mundo que está tendo uma revolução é Portugal: um governo de esquerda… É incrível como eles conseguiram sair da crise com um governo de esquerda, sem aceitar imposições da União Europeia. A Grécia está quebrada, é um dos lugares mais baratos do mundo pra viver”.

“Me sustentei sem tocar no meu salário da Globo”

Ele fala com conhecimento de causa.”Foi a primeira vez na minha vida que me sustentei sem tocar no meu salário da Globo, vivendo da minha aposentadoria, que é cerca de 1500 euros. A minha casa lá, grande, com vista para o mar, custava 300 euros por mês. É uma coisa maluca. Estou descobrindo essas coisas. Butão é um quinto do preço de Los Angeles”.