06.12.2016  /  10:20

“Vou viver com a música até o fim da vida”, diz Gil para o Glamurama

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Gilberto Gil na sala de seu apartamento, em São Conrado || Créditos: Glamurama

Foi com a imensidão do mar diante da varanda de seu apartamento, na praia de São Conrado, no Rio, que Gilberto Gil conversou com o Glamurama, durante uma tarde em que sua mulher, Flora, reuniu amigas para apresentar o trabalho do joalheiro Carlos Rodeiro. Gil permaneceu sentado na ponta de um sofá da sala, conversando durante boa parte do tempo com Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, e Gilda Mattoso, sua assessora de imprensa. Sereno, como de hábito, deu muitas risadas com as amigas, apesar da aparência fragilizada.

“Eu me hospitalizo por dois, três dias, e depois volto para casa. Faz parte do tratamento e vai durar até março ou abril. Depois disso, o que sobrar de energia, o que eu ainda tiver de ímpeto, porque também tem isso, a idade vai refecendo os impulsos, que são típicos das fases mais jovens da vida, eu penso em voltar a compor”.

Por Denise Meira do Amaral

Glamurama: Como foi encerrar a turnê “Dois Amigos, Um Século de Música”, depois de rodar o mundo ao lado de Caetano?
Gilberto Gil: “Já estou com saudades. Ainda hoje eu toquei três músicas do repertório lembrando da turnê, lembrando dele, da gente cantando junto. Viajar com Caetano é muito bom, primeiro porque tenho uma admiração extraordinária por ele. Depois da admiração, tenho uma amizade, um afeto muito grande. E depois tenho ainda o prazer de compartilhar a música com ele. Caetano é um compositor extraordinário, um intérprete muito agudo e importante. A gente conversava muito na viagem, sobre nossas vidas, sobre o Brasil, sobre o mundo e as dificuldades que passa a nossa civilização hoje em dia. Já tenho imensa saudade de tudo isso.”

Glamurama: Além do que, Caetano é seu parceiro de uma vida toda, né? Como foi o encontro de vocês?
Gilberto Gil: “Tínhamos 19 anos quando nos encontramos. Foi na rua Chile, em Salvador. Tinha um amigo muito ligado ao meio artístico, o Roberto Santana. Ele disse que queria me apresentar um amigo, achava que eu ia gostar, já que ele também gostava de bossa nova. Um dia, eu e meu amigo estávamos juntos e vimos Caetano subindo a ladeira. No final de semana já estávamos juntos de novo, depois de novo, depois show no teatro Vila Velha, ida pra São Paulo… e nunca mais nos afastamos.”

Glamurama: O que você tem gostado de ouvir? Algum cantor ou cantora nova?
Gilberto Gil: “Nunca tive o hábito de procurar discos e autores. As coisas sempre chegaram até mim. Desde os tempos em que eu era menino, em que as músicas vinham pelo rádio. Tocava-se de tudo. Cresci com esse sentido de aproximação muito livre da música em geral. Isso se manteve durante a vida toda, com exceção de alguns períodos em que eu, talvez até mais por necessidade de trabalho, me dediquei a ser um ouvinte mais seletivo. Criei o hábito de ouvir todos que compartilharam algum tempo da minha vida. Então eu gosto até hoje de ouvir Chico, Rita Lee, Caetano, mas de ouvir mesmo, de um jeito que eu não ouço outras coisas: com atenção, cuidado e carinho. Mas em geral eu ouço muito aleatoriamente tudo, o rádio ficou muito plural e está em todos os lugares. E ultimamente tem essas playlists, que são muito ecléticas.”

Glamurama: Com o fim da turnê, você já tem algum projeto novo em vista?
Gilberto Gil: “Meu empenho atual é cuidar da minha saúde. Porque é uma coisa natural do envelhecimento. Começaram a aparecer probleminhas aqui e ali e às vezes esses problemas se tornam mais agudos, como é o meu caso agora, com meus rins e coração. Estou cuidando dessas coisas. E considerando a possibilidade de assim que eu tiver uma volta mais permanente pra casa, pensar em compor de novo.”

Glamurama: Como tem sido essa rotina de tratamento?
Gilberto Gil: “Eu me hospitalizo por dois, três dias, e depois volto para casa. Faz parte do tratamento e vai durar até março ou abril. Depois disso, o que sobrar de energia, o que eu ainda tiver de ímpeto, porque também tem isso, a idade vai arrefecendo os impulsos, que são típicos das fases mais jovens da vida, eu penso em voltar a compor. Com a idade a gente vai ficando mais quieto, mais satisfeito. Mas eu ainda toco muito violão, toco todos os dias em casa. Vou viver com a música até o fim da vida.”

Glamurama: Você vai para seu camarote [Expresso 2222, em Salvador] no próximo Carnaval?
Gilberto Gil: “Vou estar lá. Vou de mansinho, mas vou…”

Glamurama: O que te deixa mais feliz atualmente?
Gilberto Gil: “É conviver com a Flora e com a minha família. Tenho uma família muito grande, de várias origens, outras mulheres com quem fui casado, netos, agora já tenho até uma bisneta, a Sol, que acabou de fazer um ano. E é a Flora que harmoniza tudo isso. Ela tem por mim um cuidado muito especial, é muito carinhosa. Isso é a maior felicidade.”