18.04.2015  /  8:00

Videntes, guerra e fantasia: o Saint-Exupéry que você não conhecia

67712305
Olivier d’Agay, um dos herdeiros do legado de Saint-Exupéry || Créditos: Getty Images

Um dos livros mais populares do século, “O Pequeno Príncipe” é também um dos mais polêmicos. Conhecido como “livro de miss”, o clássico de Antoine de Saint-Exupéry é constantemente revisitado, seja com suas famosas passagens ou com adaptações no cinema e televisão, por exemplo. Mas por trás do fenômeno, existe um lado pouquíssimo conhecido da vida de seu autor, que envolve mistérios sobre sua morte e até a descoberta, anos depois, de um tesouro no fundo do mar que ele deixou para trás. Olivier d’Agay, seu sobrinho-neto, veio ao Brasil nesta semana para a inauguração da nova ala do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, e aproveitou para conversar com Glamurama sobre as muitas facetas do gênio. Confira.

(Por Maria Gabriela Lyra)

Glamurama – Qual sua relação com “O Pequeno Príncipe”? Foi o primeiro livro que você leu?

Olivier d’Agay – Para falar a verdade, eu fui obrigado a ler “O Pequeno Príncipe” quando tinha 10 anos, pela minha bisavó Marie de Fonscolombe, mãe de Saint-Exupéry. Na primeira vez que li não gostei do livro, achei muito complicado. Mas um tempo depois, mais velho, li de novo e consegui entender um pouco do que ele queria dizer, mas acho que esse é um livro para se ler sempre, a cada 10 anos, porque todas as vezes você percebe uma coisa diferente.

Marie de Fonscolombe, mãe de Saint-Exupéry || Créditos: Divulgação
Marie de Fonscolombe, mãe de Saint-Exupéry || Créditos: Divulgação

Glamurama – O que acha desse fenômeno de “O Pequeno Príncipe” ser o livro mais vendido do mundo há tantos anos e sempre ser citado como o favorito de várias celebridades?

Olivier d’Agay – As pessoas que não têm muito tempo a perder, como atores e músicos, sempre recorrem aos clássicos na hora que conseguem tirar um tempo para ler, por isso “O Pequeno Príncipe” é tão famoso. É um livro que fala para todos, e sua popularidade pode estar no fato de que, por ser uma literatura básica, seja sempre citado por essas pessoas que estão no centro dos holofotes.

Glamurama – Você acha que é um livro para crianças?

Olivier d’Agay – É impossível classificar “O Pequeno Príncipe” como um livro para crianças ou adultos. No Japão, por exemplo, é considerado um livro para adultos; na França, é literatura infantil. É uma obra muito simples, mas ao mesmo tempo muito complexa. Na época que foi publicado, a editora não sabia como classificar e foi a maior discussão quando as primeiras críticas sobre o livro foram publicadas pelo “The New York Times”. A maioria das pessoas questionava se era um livro muito simples para adultos ou muitos complexo para as crianças.

Glamurama – Essa complexidade de “O Pequeno Príncipe” reflete o tipo de homem que era Saint-Exupéry?

Olivier d’Agay – É difícil dizer que tipo de homem ele era. Saint-Exupéry era uma pessoa muita diversa. Era escritor, piloto, soldado, ilustrador, poeta, então tinha muitos interesses diferentes. Era ao mesmo tempo da paz e da guerra, eufórico e cabisbaixo… Só posso dizer que ele era uma pessoa difícil de convívio na vida privada. Não era nada fácil. Gênios nunca são.

 

Saint-Exupéry era piloto|| Créditos: Divulgação
Saint-Exupéry era piloto|| Créditos: Divulgação

Glamurama – Saint-Exupéry tinha alguma ideia do sucesso que seria “O Pequeno Príncipe”?

Olivier d’Agay – Ele morreu antes que isso acontecesse. Quando entregou o livro para a editora em Nova York, recebeu o primeiro exemplar da obra alguns dias antes de embarcar para a África junto com o Exército americano em 1943, para lutar pela França contra a ocupação alemã. Ele tinha 43 anos e morreu logo depois. Durante esse tempo fora, ele ligava sempre que podia para seu agente para saber como estavam indo as vendas do livro e qual estava sendo a repercussão.

Glamurama – A morte dele é cercada de mistérios. Algum deles é verdadeiro?

Olivier d’Agay – Tudo na vida de Saint-Exupéry parece muito incrível, mas todas as histórias que você escuta são verdadeiras. Uma das mais famosas aconteceu relativamente há pouco tempo, em 1998, quando um pescador que estava em Marselha, na França, achou em sua rede de pesca uma pulseira de prata com o nome de Antoine de Saint-Exupéry. Em 2000, um mergulhador achou também parte do avião, que foi abatido durante uma missão na Segunda Guerra Mundial. Um fato que praticamente ninguém sabe é que, ao que tudo indica, Saint-Exupéry já sabia com quantos anos ele ia morrer, pois uma vez ele foi em numa vidente que afirmou que isso iria acontecer quando ele tivesse 44 anos. Ele já sabia disso quando escreveu “O Pequeno Príncipe”, por isso o personagem vê o sol se pôr 44 vezes no seu planeta. O pôr do sol, nesse caso, significava o próprio fim da vida de Saint-Exupéry.

A pulseira de Saint-Exupéry achada no mar || Créditos: Divulgação
A pulseira de Saint-Exupéry achada no mar || Créditos: Divulgação

Glamurama – A família seguiu a tradição de pilotar aviões?

Olivier d’Agay – Minha mulher, antes de casar comigo, me fez prometer que eu não poderia ter aulas de aviação até que todos os meus três filhos tivessem mais de 18 anos. Para minha sorte, o meu filho mais novo completa 18 anos em julho deste ano, e finalmente vou começar, aos 56 anos, a pilotar!

Glamurama – Como vocês seguem o legado dele?

Olivier d’Agay – Além da fundação, que tem atuação no mundo inteiro levando moradia, escola, alimentação e literatura para crianças, nós temos a intenção de criar um mundo onde toda a família possa conviver. Hoje temos uma página no Facebook com mais de 1 milhão e 300 mil curtidas, e é maravilhoso ver como as pessoas interagem. Temos também um parque de diversões na França, onde muitas crianças que vão e que ainda não conhecem a obra saem de lá querendo ler o livro. É uma maneira diferente de chegar às pessoas, fazendo o caminho inverso.

Glamurama – Quais projetos vocês têm pela frente?

Olivier d’Agay – Em outubro deste ano, será lançada uma animação sobre “O Pequeno Príncipe”, dirigida por Mark Osborne e com vozes de James Franco, Marion Cotillard e Benicio Del Toro. E em 2017, está prevista uma produção franco-americana que irá contar a história da vida de Saint-Exupéry. Ainda não posso falar quem vai fazer o papel principal, mas posso dizer que será um ator bem conhecido…

Glamurama – Como começou sua relação com a IWC?

Olivier d’Agay – 10 anos atrás, peguei um voo e sem saber sentei ao lado de Georges Kern, presidente da IWC na época. Nós começamos a conversar e descobrimos várias afinidades, principalmente porque a marca mantém vários projetos sociais que se encaixavam no trabalho da fundação. Então, depois de trocarmos cartões, resolvemos mais tarde fazer uma parceria e criamos uma linha especial dentro do modelo Pilot. Agora, todo ano um relógio dessa linha é colocado a leilão e a renda é completamente revertida para uma causa, como foi a construção da nova ala do hospital Pequeno Príncipe em Curitiba.

Glamurama – Você já conhecia o trabalho do Hospital Pequeno Príncipe?

Olivier d’Agay – Já vim ao Brasil várias vezes e acompanho o trabalho maravilhoso que eles fazem em Curitiba. Há muitos anos, o hospital me procurou pois tinha ouvido uma reportagem sobre direitos autorais. Eles ficaram preocupados por estar usando o nome Pequeno Príncipe sem permissão, mas quando fomos visitar o lugar, ficamos encantados com o trabalho que eles desenvolvem. Chegamos a conclusão que de todas as iniciativas que levam o nome do Pequeno Príncipe, essa era uma das mais bonitas. Então, a partir daquele momento, nós não nos importamos mais com autorizações.

Olivier d’Agay durante a inauguração da nova área do Hospital Pequeno Príncipe || Créditos: Divulgação
Olivier d’Agay durante a inauguração da nova área do Hospital Pequeno Príncipe || Créditos: Divulgação

*Olivier d’Agay é diretor da Succession Saint-Exupéry, ocupando-se de todas as ações comerciais que envolvem os produtos derivados do Pequeno Príncipe e também das ações culturais pela memória de Saint-Exupéry no mundo. Ele veio ao Brasil a convite da IWC.