Um dos mais influentes psiquiatras do país questiona o uso da maconha medicinal a PODER: “É preciso comprovar se essas substâncias são eficientes”

23.12.2019  /  9:00

Professor titular de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e estudioso do cérebro humano, Valentim Gentil Filho é um dos mais influentes profissionais da moderna psiquiatria brasileira. Neste generoso encontro com PODER, falou sobre depressão, pânico, os males da vida moderna, uso excessivo de medicamentos e ainda questionou as aplicações medicinais da maconha

por dado abreu e fábio dutra fotos joão leoci

A imagem é de um homem velho sentado numa cadeira junto ao fogo, cotovelos apoiados nas pernas, coluna curva e cabeça enterrada entre as mãos, esmagado sob o peso da amargura e do vazio da vida. O autorretrato ‘No Portal da Eternidade’ (At Eternity’s Gate) foi o último de Vincent van Gogh antes de sair do hospício de Saint-Rémy, na França, em maio de 1890. Gênio do movimento pós-impressionista, o pintor holandês sofreu de depressão, transtorno bipolar, alucinações e epilepsia que o levaram a cometer suicídio aos 37 anos, dois anos após cortar um pedaço da própria orelha durante uma crise.

Em maior ou menor grau, pelo menos 350 milhões de pessoas no planeta, segundo a Organização Mundial da Saúde, têm sentimentos semelhantes e sofrem com a depressão, números que fizeram a OMS chamar a doença de “mal do século”. Apenas no Brasil são 12 milhões de deprimidos, cerca de 5,8% da população. Em âmbito global, é a principal causa de incapacidade entre as doenças. “Basicamente, a depressão é uma alteração sistêmica de ineficiência de processamento. O problema é que hoje o conceito se tornou muito amplo, não ficamos mais naquelas síndromes clássicas”, diz o psiquiatra e professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Valentim Gentil Filho, um dos mais influentes profissionais da moderna psiquiatria brasileira e companhia agradável neste Almoço de PODER. “Perdeu-se a noção de síndrome nuclear e se incorporou um monte de coisas que respondem a antidepressivos. A era da ansiedade, da angústia e do estresse virou a era da depressão.”

Estudioso do cérebro humano, o qual considera ser o “ápice da perfeição”, Valentim é um entusiasta das emoções e conhece profundamente as causas e efeitos da depressão e de outras patologias que acometem a mente não tão impecável. Nos anos 1960, o jeito extrovertido e a boa prosa o levaram para a faculdade de medicina contra os prognósticos familiares e, ademais, devido a uma dose de vacina antipolítica – o pai, advogado e político, foi o presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo responsável por promulgar a Constituição paulista em 1947 e, não menos importante, fundar o time de futebol de sua cidade natal, o Oeste de Itápolis, o Rubrão – campeão brasileiro da Série C em 2012. “Eu cresci em São Paulo. Quando eu tinha uns 10 anos o vizinho de frente, com quem eu jogava bola, ficou psicótico”, lembra Valentim. “Foi a primeira vez que eu vi um doente mental grave, sabia que ele estava alterado. Não sei se isso me influenciou, mas como eu gostava muito de conversar, alguns anos depois quando eu fui fazer o teste vocacional deu psicologia.” Ele optou pela psiquiatria, mas, vale dizer, nada contra a carreira sugerida anteriormente. Sua esposa, Maria de Lourdes, inclusive, é psicanalista. “Evitamos o assunto em casa. Preferimos falar de filosofia, arte, política…”, brinca.

Na USP, no departamento de farmacologia e graças a um “acordo com ratos voluntários”, Valentim tornou-se pesquisador e referência nos mecanismos de regulação do humor normal, no estudo da importância da angústia como resposta emocional e no tratamento dos transtornos ansiosos. Diante do extenso currículo, uma pergunta bastante atual parece inevitável: o ser humano está tomando muito antidepressivo? Afinal de contas, somente no Brasil a venda de medicamentos do tipo e de estabilizadores de humor quase dobrou em cinco anos atingindo a marca de 71 milhões de comprimidos em 2018.

De imediato, Valentim devolve com outro questionamento: “Mas será que todo mundo precisa ser tratado com medicação?”, diz, antes de explicar que há casos diversos em que a psicoterapia poderia ser eficaz. “O que temos hoje são 30, 40 moléculas antidepressivas. E é claro que, por razões econômicas, os medicamentos mais recentes têm mais publicidade. O que está acontecendo é que não existe mais perspectiva de lançar novas moléculas nos próximos anos. As linhas de produção estão secas, muito poucas moléculas vão aparecer.” Como resultado, explica o psiquiatra, os grandes fundos de investimentos da indústria farmacêutica têm focado suas aplicações em oncologia, hematologia e outros setores médicos com mais perspectiva de rentabilidade. Medicina, sabe-se, é um grande negócio. É nesse aspecto que reside outra preocupação do livre-docente da USP.

No mês em que Valentim encontrou PODER para degustar um risoto negro no Vinheria Percussi, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou a venda de produtos à base de cannabis em farmácias, representando uma alternativa para pacientes que sofrem de doenças como epilepsia e autismo. No entanto, tal medida desagrada o doutor por considerar parte das pesquisas que indicam o uso dos derivados da maconha inconclusivas. “É preciso comprovar, de fato, que essas substâncias são melhores ou igual mente eficazes às alternativas existentes, e, para além, que não ofereçam nenhum tipo de risco”, ressalta. “Em vez de nos preocuparmos com a prevenção de danos, estamos expostos à mais ampla promoção do uso de substâncias psicoativas da história.”

O sinal de alerta escarlate de um dos maiores conhecedores do cérebro humano foi explicitado meses antes, em junho deste ano, pelo próprio médico em artigo publicado na revista Veja: “Precisamos falar sobre a maconha” era o título do texto em que o estudioso destacava o pouco conhecimento da comunidade científica sobre os efeitos da cannabis no neurodesenvolvimento e no qual apresentou dados de um trabalho publicado em 2012 no Proceedings of the National Academy of Sciences, que mostrou que o uso da planta resulta em redução de oito pontos no Q.I. de usuários entre os 18 e os 38 anos.

À PODER, ele comenta que os relatos de deterioração mental pelo uso da maconha existem desde o século 19 e, no início do século 20, chegou-se a falar de “psicose canábica”. “Nem todos desenvolvem psicose. Há pessoas mais vulneráveis. Quanto maior o uso, maior a probabilidade de desenvolvimento da doença”, diz. “A pergunta que eu faço é: Quanto tempo vamos levar para alertar a sociedade sobre os riscos que a geração atual de jovens está correndo?” Riscos que, ele lembra, não precisam ser ilícitos, já que de forma geral há um abuso de limites diante das expectativas contemporâneas. “O burnout [ou síndrome do esgotamento profissional] é uma dessas coisas, o esgotamento físico e mental intenso. Nós vamos viver até os 100 anos, mas é importante dizer que se não cuidarmos da máquina ela não vai aguentar.”

Problema ainda mais grave que merece atenção especial do professor está na população em situação de rua. Se cuidar de transtornos mentais em uma situação de estabilidade já é um desafio, o que dizer então dos que enfrentam os mesmos problemas vivendo na rua, sozinhos e sem uma rede de apoio. Andar pelo centro de cidades como São Paulo, por exemplo, é por vezes semelhante a visitar uma enfermaria psiquiátrica a céu aberto. Sem exageros. Qual a razão desse cenário? Para Valentim são duas as principais causas. A primeira, de ordem social. “Na rua você está na linha de frente do perigo e exposto a substâncias e situações que aumentam o risco de psicose”, explica. A segunda, de ordem administrativa, é ainda mais crítica. “Nós temos 10% da população de rua com psicose grave não tratada porque não temos leitos para internar. Hoje temos, inclusive, menos leitos psiquiátricos para casos agudos do que a Itália de Franco Basaglia”, completa, em referência ao médico precursor do movimento de reforma psiquiátrica dos anos 1970, conhecido como Psiquiatria Democrática, que aboliu os hospitais psiquiátricos italianos e de quem Valentim diverge em alguns pontos “porque o movimento nega o diagnóstico, nega a doença mental e nega a intervenção médica de um problema que precisa ser tratado como reabilitação psicossocial”.

Segundo Valentim, que ressalta ser “a favor da luta antimanicomial, porém não antipsiquiatria”, o modelo basaliano teve grande força no Brasil – e por consequência no SUS (Sistema Único de Saúde) – de 1985 até meados do governo de Dilma Rousseff, quando leitos voltaram a ser abertos para tratamentos de dependentes de crack. “O grande problema do Brasil na ciência é ser um replicador. Quando vamos fazer coisas originais?”, questiona, com o conhecimento de quem se debruçou por décadas no estudo da síndrome do pânico quando parte da comunidade científica dizia se tratar apenas de um diagnóstico descrito anteriormente por Sigmund Freud, o pai da psicanálise, em 1895. Hoje o transtorno de pânico tem uma biografia robusta e uma base bem demonstrada. E o mais importante: é controlado. “É algo com que se pode aprender a conviver. Muitas pessoas não têm nenhum tipo de recaída, mas há casos raros de pessoas que com cinco, seis xícaras de café, por exemplo, por conta desse excesso de cafeína, acabam tendo crises”, explica, antes de, coincidência ou não, pedir um cafezinho. “Descafeinado, por favor”, ri.