Os memes de Ruth Bader Ginsburg || Créditos: Reprodução

Toga Pop: Quem é Ruth Bader Ginsburg, juíza da Suprema Corte americana que aos 86 anos virou fenômeno midiático?

02.11.2019  /  9:00

Os memes de Ruth Bader Ginsburg || Créditos: Reprodução

Aos 86 anos, Ruth Bader Ginsburg, a segunda mulher a se tornar juíza da Suprema Corte americana, vira fenômeno midiático, ganha cinebiografia bem-sucedida e personifica o bom senso que a política dos Estados Unidos vem sentido falta

Por Anderson Antunes

Política é show business para gente feia, dizia o comediante e apresentador de TV Jay Leno, ecoando o que já falava Marilyn Monroe décadas antes. A autoria da frase é desconhecida, mas é difícil discordar. Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, talvez seja a exceção que confirma a regra. Assim, chama bastante a atenção o fato de uma discreta, elegante e provecta senhora ter se tornado uma das figuras públicas mais populares dos Estados Unidos, celebrada em inúmeros memes e em programas de TV.

Sua biografia poderia ter sido escrita pelos melhores autores americanos. Aos 86 anos, Ruth Bader Ginsburg, ou RBG, como é conhecida, adora terninhos Saint Laurent e até chegou a cultivar um certo pudor por expor a própria beleza, a ponto de usar lentes de contato cinza para esconder os olhos verdes. Indicada à Suprema Corte americana por Bill Clinton, em 1993, RBG é uma das três juízas da composição atual do tribunal, a segunda mulher a integrá-lo na história da corte.

Nascida e criada no Brooklyn, em Nova York, RBG é a segunda filha de um casal de imigrantes de Odessa, cidade da mesma Ucrânia do presidente e ex-comediante Volodymyr Zelenski, envolvido até a medula no rumoroso processo de impeachment de Donald Trump – algo que o Legislativo, e não o Judiciário, nos Estados Unidos tem competência para tratar. Nas palavras da famosa feminista Gloria Steinem, a juíza é “o mais próximo que temos de uma super-heroína da vida real”. Não é exagero. Lançado em circuito comercial em 2018, o documentário A Juíza, sobre RBG, arrecadou US$ 14,4 milhões nas bilheterias americanas, receita próxima do remake de Superfly, o grande clássico da blaxploitation – o gênero que colocou em cena elencos e heróis negros nos anos 1970. Dirigido por Betsy West e Julie Cohen, A Juíza (no original, RBG) também concorreu ao Oscar de melhor documentário de 2019, mas perdeu para Free Solo, sobre Alex Honnold, o americano que escalou sem corda nem qualquer outro equipamento de segurança o paredão El Capitan, de 915 metros, no parque nacional de Yosemite, na Califórnia, uma façanha sem paralelo no mundo do montanhismo.

A maneira como RBG tornou-se “viral” na internet é bastante explorada em A Juíza (veja alguns memes na próxima página), filme que também mostra os encontros da magistrada com a comediante Kate McKinnon, que é quem a interpreta frequentemente no Saturday Night Live, histórico programa de humor da televisão americana. Ser alvo de piadas e imitações no decano humorístico é a glória para muitos (exceto talvez para a ex-governadora do Alasca Sarah Palin), e o primeiro encontro das duas RBG rendeu manchetes em sites de celebridades. “Ela é maravilhosamente engraçada”, disse a juíza sobre sua doppelgänger televisiva, ciente de que ser parodiada é ótimo negócio. “Ruth é uma gigante”, retribuiu Kate, fazendo menção implícita ao mero 1,55 metro de altura da magistrada.

Apesar de ter caído no gosto do grande público americano há não muito tempo, RBG chegou aonde chegou com muito esforço e depois de muitas batalhas contra diversos poderosos. Formada em Direito no fim dos anos 1950 pela prestigiada universidade Columbia, de Nova York, de onde saiu como melhor aluna de sua turma, ela sofreu para conseguir um emprego: ninguém contratava advogadas naqueles tempos. Em 1963, foi finalmente admitida como professora na renomada Rutgers Law School. Mas havia um porém: seus chefes logo a avisaram que seu salário seria menor do que o dos colegas, todos homens. A questão tinha relação com (falta de) equidade, um tema que ainda não havia entrado em debate na sociedade americana, mas mais relação ainda com o fato de o marido de RBG, o advogado Martin Ginsburg, ser um homem rico.

Como não tinha opções, a futura integrante da mais alta corte americana topou o desafio, e em pouco tempo Notorious RBG: “viral” em memes na internet mostrou que tinha muito jogo de cintura para trabalhar no negócio de fazer justiça. RBG começou então a construir seu nome como defensora de causas feministas, e seu grande momento viria em 1971, ao atuar como voluntária no histórico caso “Reed versus Reed”. Apesar da proibição constitucional da discriminação baseada em gênero, o entendimento legal era diametralmente oposto, e esse caso em que atuou acabou por formar jurisprudência pela equidade. Se aí ela cravou seu nome na história, os casos que se seguiram firmariam sua reputação. Temas como aborto e a dispensa da mulher da obrigação de participar de júri popular, dispositivo que considerava uma “discriminação invertida”, sucederam-se em seu portfólio.

Nomeada pelo ex-presidente americano Jimmy Carter, em 1980, para ocupar um assento na seção do distrito de Columbia das cortes de apelações dos Estados Unidos, RBG permaneceu ali até agosto de 1993, quando veio a nomeação para a Suprema Corte. Aprovada por unanimidade pelo Senado, ela integra a chamada “ala liberal” do tribunal, e seus discursos são acompanhados com atenção até mesmo por aqueles que discordam de seus postulados.

Viúva desde 2010, quando perdeu Martin para um câncer, RBG também já teve vários problemas de saúde e há alguns meses revelou ter se submetido a um tratamento para tratar um tumor no pâncreas. Sem dar sinais de que está cogitando a aposentadoria – nos Estados Unidos, a posição na Suprema Corte é vitalícia –, ela se divide entre o trabalho e as aparições públicas, que adora fazer. Nestes últimos tempos, RBG passou a advogar uma Suprema Corte exclusivamente feminina. Difícil não tomar isso como pouco mais do que uma provocação, mas, seja como for, que fiquem registradas aqui suas palavras: “Durante muito tempo, nove juízes foi um número aceitável por aqui. Por que então não seria aceitável ter nove juízas?”