Judoca Rafaela Silva fala sobre seus planos pós-Olímpiada na Revista J.P

A judoca Rafaela Silva finaliza um segurança do Copacabana Palace, que também é treinador de judô || Créditos: Zô Guimarães / Revista J.P

A judoca Rafaela Silva finaliza um segurança do Copacabana Palace, que além de seu fã, também é treinador de judô || Créditos: Zô Guimarães / Revista J.P

Por Denise Meira do Amaral para Revista J.P de outubro

Fosse na véspera da Olimpíada, talvez ela passasse despercebida pelos saguões do Copacabana Palace, onde as fotos deste ensaio foram feitas. Entretanto, quase um mês após a conquista do primeiro ouro do Brasil, na tarde em que Rafaela Silva encontrou com a equipe da J.P no hotel carioca, uma legião de fãs se fazia presente a cada passo da judoca até a suíte em que ela seria produzida. Hóspedes, seguranças e até mesmo a diretora-geral do hotel fizeram questão de tirar fotos e parabenizar a judoca, que, bastante tímida, agradecia antes de abrir um largo sorriso.

Com uma calça jeans rasgada, camiseta verde tie-dye e tênis, Rafaela é do tipo despojada e chama atenção pela quantidade de tatuagens pelo corpo. “Já perdi as contas de quantas tenho”, disse. Em seu bíceps direito, uma ganha destaque: os cinco anéis olímpicos acompanhados da frase: “Só Deus sabe o quanto eu sofri e o que fiz para chegar até aqui”. O desabafo foi feito após ter sido desclassificada nos jogos de Londres, em 2012.

A derrota, seguida de ataques racistas e ofensivos pelas redes sociais, quase colocou um precoce ponto final na carreira de Rafaela. Ela pensou em desistir, ficou meses sem treinar e só conseguiu se reerguer com a ajuda de uma coaching esportiva. “Ela me perguntou se na próxima Olimpíada, que seria aqui [no Rio], eu ia querer disputar ou assistir pela TV. Aí caiu minha ficha”, relembra.

Além de ter conquistado o primeiro ouro olímpico para o Brasil, Rafaela ganhou o noticiário por uma série de outras razões. Negra, mulher, homossexual e moradora da comunidade carioca de Cidade de Deus, ela chegou a ser alvo de disputa política, justamente por ser minoria – em tantos quesitos. Alguns defendem que seu sucesso se deve à sua disciplina militar, já que entrou nas Forças Armadas por meio do programa de incorporação de atletas de alto rendimento. Outros, adeptos do discurso da meritocracia, viram na atleta o alvo perfeito: ela conseguiu sozinha driblar todas as dificuldades e vencer na vida. Há, por fim, quem atribua a vitória de Rafaela ao programa social do governo Dilma, chamado Bolsa Pódio, do Ministério do Esporte – que oferece de R$ 5 mil a R$ 15 mil por mês por atleta com a finalidade de ajudá-los a disputar jogos olímpicos e paralímpicos.

Alheia às tentativas de justificar seu êxito, a judoca tem sua própria explicação: “Não é porque sou negra ou lésbica que sou pior ou melhor que ninguém. É a mesma coisa que gostar de chocolate branco ou chocolate preto. Todo mundo é igual”, diz Rafaela. Ao ganhar o ouro olímpico, Rafaela falou a um repórter que lhe perguntou qual seria sua resposta para as pessoas que a criticaram em Londres: “Eu disse que não tinha uma, mas que tinha uma medalha no peito”.

Além da medalha, o judô rendeu a Rafaela uma vida mais confortável. Aos 24 anos, ela já comprou um imóvel para ela e sua noiva, Thamara Cezar, no bairro de Freguesia, em Jacarepaguá. Também reformou a casa onde moram seus pais, sua irmã e sua sobrinha, de 11 anos. “A gente morava em uma casa com cozinha, banheiro e um quarto, onde dormia todo mundo junto. Agora, conseguimos fazer uma reforma na casa e dei uma Kombi para meu pai.” Antes de fazer fretes, seu pai, Luiz Carlos, era entregador de um restaurante, e sua mãe, Zenilda, caixa de supermercado. Hoje ela tem uma lojinha que vende um pouco de tudo em Cidade de Deus.

A comunidade, que ficou mundialmente famosa depois do filme de Fernando Meirelles, baseado no livro homônimo de Paulo Lins, também tem parte no sucesso de Rafaela, segundo ela própria. Foi lá que aprendeu a se impor e a deixar de lado a balela de sexo frágil. “Tinha raiva dos meninos. Eles não me deixavam jogar bola no time deles. E não admitiam perder a pipa pra mim. Eles falavam que menina não sabia soltar pipa, e então eu brigava o tempo inteiro.” Subir e descer as vielas em Cidade de Deus também ajudaram a judoca a ter certo molejo. O artista plástico carioca Hélio Oiticica já dizia que os meandros e labirintos das favelas são em parte responsáveis pela ginga de seus moradores. “Eu pulava muro, jogava bola, tinha uma coordenação diferente e certa agressividade, que transformei em esporte”, acredita.

Espelho meu

Ao ver seu reflexo com os olhos contornados e um coque na cabeça, a campeã olímpica garantiu que não é nem um pouco vaidosa. “Eu não sei usar nada disso aí”, brincou, apontando para a mesa de maquiagens e pincéis. Mas gostou do resultado e sorriu ao se enxergar como outra personagem antes do início da sessão de fotos. Apesar de corpo pequeno e sarado, ela não segue dieta alguma. Rafaela come o que quer. “Só diminuo um pouco a quantidade quando estou perto de uma competição”, contou.

Sua vida pós-olímpica mudou bastante. Só para se ter uma ideia, sua conta no Instagram tinha 10 mil seguidores antes de ser medalhista. Hoje, já chega a quase 300 mil. Ela também não consegue mais andar pelo bairro em que nasceu e onde ainda vive sua família. Da última vez, para participar de uma gravação, precisou ser escoltada por ao menos dez seguranças. Mas ela promete deixar os holofotes em breve – pelo menos por um tempo. Ao lado de sua noiva, Rafaela embarcou de férias. A primeira parada foi Fernando de Noronha, de onde seguiria para a Disney de Orlando: “É um sonho antigo. Quero brincar em tudo… Andar em todas as montanhas-russas e comprar todos os bichinhos. Adoro o Mike [aquele monstro verde com um olho só do filme Monstros S.A.]”.

Além do gosto por bichos de pelúcia, Rafaela passa horas assistindo a série The Vampire Diaries, na Netflix. Quando J.P perguntou se ela se sentia adulta, foi enfática: “Nem um pouco. Só gosto de brincar. Isso de responsabilidade não é comigo, não (risos)”.

Assim que voltar, vai retomar a faculdade de psicologia, que precisou trancar por conta dos treinos intensos dos últimos dois anos. Ela pretende usar esse conhecimento para ajudar outros atletas em suas carreiras. Em 2018, a judoca volta com os treinos mais intensos para a Olimpíada de Tóquio, em 2020. “Vou estar mais visada, porque sou a atual campeã olímpica, além de ter bastante menina nova chegando no judô também. Vai ser uma grande surpresa.”

Trazendo medalhas ou não, Rafaela já carimbou para sempre seu nome na história do esporte nacional.

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