24.02.2015  /  8:00

Revista PODER entrevista Aécio Neves e narra trajetória do senador

Aécio Neves cede entrevista à PODER por telefone || Crédito: Getty Images
Aécio Neves cede entrevista à PODER por telefone || Crédito: Getty Images

Após perder as eleições mais disputadas da história, o senador Aécio Neves terá de enquadrar sua base, lidar com escândalos e conter os anseios dos tucanos paulistas se quiser se manter vivo até 2018.

por Fábio Dutra para a revista PODER do mês de fevereiro

Até o início do ano passado, o então governador de Minas Gerais Antonio Anastasia, entrevistado por PODER em dezembro de 2013, dizia que a campanha de Aécio Neves à Presidência da República seria leve, divertida, alegre, “à la JK”. Pupilo de Aécio, de quem foi secretário de governo, no primeiro mandato, vice-governador, no segundo, e escolhido para seu sucessor nas eleições de 2010, Anastasia defendia que o carisma de Aécio seria o grande trunfo na corrida pelo Planalto – que até então parecia promissora, dada a baixa avaliação da presidente Dilma Rousseff depois das manifestações de junho de 2013. Ledo engano. Se as eleições presidenciais de 2014 fossem ficção facilmente ganhariam o Oscar de melhor roteiro, tantas as reviravoltas, os personagens, os embates – e até uma tragédia. Nada de Aecinho paz e amor, como acreditava Anastasia.

De fato, a candidatura começou em clima de festa. Aécio cuidou do visual, mudou o cabelo com uma técnica conhecida como “trevas”, para evitar o grisalho, e até rejuvenesceu – o que muitos creditam a aplicações de botox. Parecia mesmo mais jovem que seus 54 anos, vigoroso, passando a imagem de alguém com a energia necessária para resolver os problemas do país. E, além disso, simpático, bonito, sempre sorridente. Um herói de cinema. Nessa época de pré-campanha chamaram a atenção os bonecos de papelão, em tamanho real, que traziam estampados um Aécio pronto para um semiabraço, para que os filiados ao PSDB fizessem selfies a seu lado durante as prévias que oficializaram sua candidatura à Presidência pelo partido. Some-se a isso uma linda esposa e gêmeos recém-nascidos, uma bela e feliz família. Praticamente um Juscelino Kubitschek.

Em agosto do ano passado, porém, a queda do avião que vitimou Eduardo Campos, então candidato pelo PSB, e seus assessores, mudou o cenário. Marina Silva, candidata a vice de Campos e furacão das eleições de 2010, quando obteve 20 milhões de votos por um partido nanico, o PV, foi ungida a candidata e viúva política do pernambucano. O horário eleitoral gratuito ainda não iniciara e Aécio patinava nas pesquisas, mas seguia como o candidato forte da oposição. No dia do acidente, uma quarta-feira, 13, subitamente foi relegado à posição de coadjuvante, ao passo que Marina, na esteira da comoção nacional, dominava as manchetes do mundo. Semanas antes da tragédia, PODER acompanhou as sabatinas promovidas pelo portal UOL com Campos e Aécio. Na do primeiro a plateia estava quase vazia; na do segundo, filas na porta, muitos gritos e aplausos dos correligionários, de pé, a cada resposta do mineiro. Em 14 de agosto, o jogo tinha virado.

FIRME E FORTE

“Essa foi uma das maiores qualidades de Aécio durante a campanha”, acredita o filósofo e professor Renato Janine Ribeiro, da Universidade de São Paulo (USP). “Ele jamais se deixou abater. Ao ver a maré mudar, muitos de seus aliados se aproximaram de Marina, mas ele se manteve firme até o final, o que é admirável.” Na primeira semana de setembro, a pesquisa do Ibope acusava empate técnico entre Dilma e Marina (37% a 33%, respectivamente, com margem de erro de dois pontos) e indicava menos de 15% dos votos para Aécio. Todas as projeções do instituto davam como certa a eleição de Marina no segundo turno e Carlos Augusto Montenegro, o dono do Ibope, declarava que ela não só estava eleita como havia grande chance de levar no primeiro. Aécio, porém, seguiu firme, mesmo sofrendo um forte baque financeiro, já que muitos de seus financiadores migraram para a campanha socialista – que, com Campos, vivia à míngua. Na última semana antes do primeiro turno, já havia empatado com Marina nas pesquisas. E nas urnas deu um banho, chegando em segundo lugar para enfrentar Dilma Rousseff.

As razões da heroica virada do tucano ainda não estão claras e devem permear as conversas de acadêmicos e marqueteiros por algum tempo. Muitos apontam as contradições de Marina como o principal fator que a levou a perder a confiança dos eleitores. De fato, ela começou na política no Acre, ao lado de Chico Mendes e alinhada às lutas do MST, é uma liderança histórica do PT, foi ministra de Lula – e cogitada por ele para ser sua sucessora –, mudou-se para o PV, aliou-se a grandes empresários, saiu para tentar fundar um partido da “nova política”, a Rede Sustentabilidade, e, diante do fracasso, fez uma aliança de ocasião com o PSB de Eduardo Campos. Para se tornar candidata, cedeu aos preestabelecidos acordos do PSB nos estados, o que desagradou a turma da Rede; para conseguir apoio dos evangélicos, se disse contra o casamento gay, o que desagradou seus eleitores de esquerda; e, para atrair empresários liberais, comprometeu-se a criar um banco central independente, o que desagradou o PSB e afastou de vez os eleitores esquerdistas. No domingo, 28 de setembro, Marina estava na primeira página do jornal francês de esquerda L’Humanité, sob a manchete: “A nova direita brasileira”. Para o cientista político Rudá Ricci, ex-dirigente do PT, não foi ela quem desidratou. “Desde o início, o PT usou sua máquina para desconstruí-la, pois morria de medo de enfrentá-la. Entre Dilma e Marina, quem é a mulher sofrida do povo? Ela podia ser o que foi Lula. Com o Aécio o embate era mais claro e Dilma teria mais chances”, garante, com a autoridade de quem transita bem dentro do partido.

NETO DE RAPOSA…

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente e grande defensor da candidatura de Aécio em 2014 dentro do PSDB, também destacou a capacidade de aguentar o tranco de Aécio Neves, o que definiu em inglês como “resilience”, durante a entrevista que concedeu à PODER por telefone. Ainda destacou que “Aécio é agregador, tem uma grande capacidade de diálogo, não é soberbo”, mas recusou o título de mentor. “Fui amigo de seu avô, o conheço há muito tempo, mas ele não é meu pupilo. Ele tem uma história em Minas, criou seu espaço. É renovador. Quando governador, teve a grandeza de delegar a um secretariado capaz e fez um grande mandato.”

A vida política de Aécio Neves em Minas Gerais é mesmo rica e cheia de altos e baixos até que ele conseguisse hegemonizar o poder no estado a partir de seu primeiro mandato como governador, em 2002. Antes disso havia sido secretário particular de Tancredo no governo e eleito deputado federal constituinte, o mais votado do estado, no vácuo da morte do avô, em 1986, para o primeiro de seus quatro mandatos. Em 1992, tentou ser prefeito de Belo Horizonte, mas ficou em terceiro lugar. Elegeu-se presidente da Câmara em 2001, contra a vontade de FHC, em um período em que o PSDB governava seu estado natal, mas o governador, Eduardo Azeredo, não lhe dava muito espaço. “Não foi bem assim, o Teotônio Vilela achava que o PSDB deveria ter o presidente da Câmara, mesmo sendo o acordo dar aos aliados, PMDB e PFL, o Senado e a Câmara, respectivamente. O Aécio foi ungido por esse grupo que teve minha concordância por já estarmos no segundo mandato. Seria difícil ganhar uma eleição contra a vontade do presidente”, diz FHC. Na época, Inocêncio Oliveira, o postulante ao cargo pelo PFL, chegou a dizer que daria um soco em Aécio.

Em 2002, mais forte, começou a articular sua candidatura ao governo de Minas. O favorito do PSDB parecia ser Eduardo Azeredo, governador entre 1994 e 1998 que havia perdido a reeleição para Itamar Franco quatro anos antes. Itamar, por sua vez, não seria candidato já que seu vice, Newton Cardoso, era o postulante do momento segundo acordo selado entre os dois durante o pleito de 1998. Aécio percebeu a possibilidade de contar com o apoio de Itamar, político bom de urna, da grande imprensa mineira, que vivia às turras com Cardoso desde seu tempo de governador nos anos 1980 (por conta da briga, fundou o jornal “Hoje em Dia”), e até de Lula, que queria um candidato forte no estado, pois Nilmário Miranda, escolhido pelo PT local, não prometia muito. Com tudo bem costurado, Aécio se impôs ao partido como o líder capaz de levá-lo de volta ao Mangabeiras. Mais uma vez, seu jeito agregador prevaleceu.

O lado “raposa” herdado do avô não servia somente para gerar improváveis aproximações, mas também para se livrar de alianças incômodas quando necessário. Eleito com a ajuda do cabo eleitoral Itamar, Aécio reclamou da herança maldita deixada pela administração anterior logo nos primeiros meses de governo, o que levou o PMDB para a oposição. Os novos ocupantes da Praça da Liberdade anunciaram que o estado estava quebrado por causa da moratória decretada por Itamar anos antes e que, para solucionar o problema, iniciariam o chamado “choque de gestão”, programa baseado na redução dos gastos públicos para sanear as contas e na implementação de práticas meritocráticas do setor privado para o funcionalismo. Sávio Souza Cruz, que foi secretário de governo de Itamar e hoje é deputado estadual pelo PMDB, é talvez o maior responsável por manter na oposição nos últimos 12 anos o partido com fama de fisiológico. Ele refuta a propaganda do “choque de gestão”: “Aquilo é contabilidade criativa, eles escondem as dívidas e parece que o estado está no azul. A dívida chegou a R$ 80 bilhões, muito maior que o limite do endividamento de Minas. No governo Itamar, o Brasil cresceu em média 2,2% ao ano e nós crescemos na mesma taxa. Nos 12 anos de PSDB, o país cresceu mais e o estado foi o 22º no ranking nacional de crescimento”. Cruz, que acaba de assumir a Secretaria de Meio Ambiente do governo de Fernando Pimentel, diz que o sucesso creditado à administração tucana se deve à censura que Aécio, por meio de sua irmã, Andrea, impôs à imprensa. “Era pior que o regime militar. Na ditadura era proibido falar mal, mas com os Neves era obrigatório publicar a versão oficial dos fatos”, acusa.

Um tête-à-tête com a irmã Andrea ||Créditos: Folhapress
Um tête-à-tête com a irmã Andrea ||Créditos: Folhapress

TRAMA ENGENHOSA

Não é o que acredita Rudá Ricci, contratado para diversas consultorias pelo governo Aécio e familiarizado com os assuntos da administração, já que há anos atua em projetos nos mais diversos governos e partidos Brasil afora: “O Anastasia entende da máquina como ninguém e montou um sistema de auditoria em que se controlava tudo e os funcionários viviam pressionados para mostrar resultados. Isso dá uma capilaridade incrível. Eles passaram oito anos sem uma oposição forte do PT, já que Lula protegia Aécio, tinham uma gestão eficiente e um governador popular. Por isso, nunca entendi a necessidade de controlar a imprensa que a Andrea tinha. Aquilo só gerou desgaste”. Anastasia, alvo de deboche da oposição, que costuma dizer que ele mandava mais antes de ser governador, é o homem da máquina pública; Andrea Neves controlava a comunicação e a imagem do irmão; e Danilo de Castro, o terceiro integrante do tripé de sustentação do grupo político, cuidava de garantir a base, articulando com prefeitos e deputados.

Secretário forte de Aécio e também de Anastasia, Danilo de Castro é low profile como os outros dois sustentáculos, mas atrai menos interesse do grande público. Boa praça, não conseguiu nos conceder uma entrevista por falta de agenda. Foi ele o grande protagonista das costuras recentes de Aécio, notoriamente do golpe de mestre dado no PT de Pimentel em 2008. Os tucanos se aproximaram do então prefeito pelo PT para propor-lhe uma coligação entre os dois partidos na eleição para a prefeitura de Belo Horizonte. O candidato seria Marcio Lacerda, do PSB, partido teoricamente neutro. O PT, o mais forte na cidade naquele momento, levaria o cargo de vice e as secretarias seriam loteadas. A Pimentel interessava a possibilidade de concorrer ao governo do estado com o apoio de Aécio. Ao PSDB interessava se fortalecer na capital do estado que já dominava. Eleito, Lacerda fechou as portas aos petistas. Uma quimera se formou, já que o maior crítico da gestão passou a ser Roberto Carvalho, justamente o vice-prefeito, para quem esse “foi o maior erro estratégico” de seu partido. A briga se acirrou e teve idas e vindas até 2012, quando o PT decidiu lançar candidato próprio, o ex-prefeito Patrus Ananias, e perdeu para o reeleito Lacerda, o que consolidou a hegemonia do grupo de Aécio também na capital. Tudo sob a batuta do engenhoso Danilo de Castro.

GUERRA INTERNA

“Vai falar com o Danilo de Castro? Deixe a carteira em casa”, faz troça Rogério Correia, deputado estadual pelo PT e adversário histórico de Aécio. Foi ele quem levou a público a Lista de Furnas, documento com nomes e valores de propinas que seriam pagas pela estatal a aliados do governo estadual do PSDB. À época, questionou-se a veracidade da carta, entregue ao deputado por um notório estelionatário que tentava chantagear caciques tucanos. Correia quase perdeu o mandato e ficou isolado politicamente algum tempo. Em 2014, porém, saiu o resultado da perícia da Polícia Federal: o documento era autêntico. E Danilo de Castro estava na lista. “Fizeram um controle muito grande da imprensa, do Legislativo, por meio dos vários partidos fisiológicos, e até do Ministério Público. O procurador-geral de Minas Gerais, Alceu José Torres Marques, foi nomeado secretário do Meio Ambiente quando saiu do cargo, em abril de 2014. Não havia espaço para qualquer crítica ou acusação”, é a explicação de Correia para o sucesso de Aécio, que já seria passado: “Ele virou chacota, não tem mais base em Minas e o PSDB é paulista. E alguém consegue se convencer ao ver Aécio indignado com malfeitos do governo federal?”, tripudia o novo líder do governo na Assembleia Legislativa. A quebra da base foi mesmo um dos maiores problemas do mineiro em 2014. Renato Janine Ribeiro concorda: “Um líder deve resolver as brigas internas, definir quem manda e quem obedece, mas ele reluta em fazer isso”, avalia. De fato, o senador tirou o corpo fora da disputa entre Dinis Pinheiro, então presidente da Assembleia, e Marcus Pestana, presidente do PSDB de Minas, pela candidatura tucana no estado. Aécio deixou os dois grupos se digladiarem e, na última hora, impôs um candidato, Pimenta da Veiga, ex-prefeito de Belo Horizonte que há anos vive em Brasília e não participa da política mineira, seu amigo pessoal. Resultado: abandono da campanha pelos correligionários, que liberaram suas bases para apoiar Pimentel. FHC concorda com o diagnóstico: “Até pelo perfil conciliador, ele não sabe atacar, não é de briga”, explica.

O jeito boa-praça, disposto a agradar aos aliados também pesa no momento em que ele emerge como maior expoente da oposição. “Quando o estádio gritou palavrões para Dilma (na cerimônia de abertura da Copa do Mundo em São Paulo, em junho do ano passado), ele deveria ter se posicionado publicamente, mostrando que aquilo era inadmissível. O mesmo nas manifestações pelo impeachment logo após as eleições. Era necessário deixar claro que a vontade das urnas deveria ser respeitada. Mas ele tem dificuldade em enquadrar, em desagradar”, segue Janine Ribeiro, emendando que “Aécio estabelece vínculos, agrega valor, o que é positivo. Ele deverá fazer propostas, formular, se quiser aumentar suas chances e as do PSDB de chegar ao Planalto. A oposição não pode viver só de acusações.” Festeiro, homem de muitos amigos, boa retórica e imagem carismática, Aécio terá de juntar os estilhaços de sua base, algo normal após qualquer campanha, para manter-se vivo na disputa até 2018. Pesam contra ele a força de Geraldo Alckmin, reeleito em primeiro turno e responsável por grande parte de sua votação nas eleições para presidente, a sombra de José Serra no Senado e o fato de ter perdido na votação em Minas Gerais, sua casa. A seu favor, ter sido o único candidato, desde 2002, a de fato ameaçar a hegemonia do PT nas urnas. E o tempo.

Aécio Neves ||Crédito: Manoel Marques
Aécio Neves ||Crédito: Manoel Marques

A seguir, a entrevista que o senador Aécio Neves concedeu a PODER, por telefone. Em viagem, ele preferiu não revelar sua localização.

PODER: Em uma eleição tão apertada como a do ano passado, o que o senhor acha que faltou para conseguir se eleger?

AÉCIO NEVES: Essa campanha foi uma grande montanha-russa. Desde o início com o Eduardo, depois com a chegada da Marina e em seguida a nossa recuperação no final. Mas nunca deixei de acreditar que tínhamos o melhor projeto para o Brasil, o que me dava ânimo. Eu achava que na hora da escolha isso prevaleceria. Estou tranquilo porque fiz a campanha dizendo a verdade e, a cada dia que passa, assistimos à comprovação de que, infelizmente, nessa campanha a mentira, o terrorismo e a infâmia venceram e agora estão sendo desmascarados. E perdi eleitoralmente, mas, do ponto de vista político, me considero vitorioso.

PODER: O senhor cresceu nacionalmente por quase derrotar o PT, mas perdeu em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Os paulistas acreditam que Geraldo Alckmin saiu mais forte pela grande votação que teve. Seu capital político aumentou de fato?

AÉCIO NEVES: Acho que o governador Geraldo Alckmin é um nome, inclusive, para disputar a Presidência, não sou candidato a qualquer custo a absolutamente nada. Respeito com absoluta humildade a opção dos mineiros. Sei a importância que tivemos em Minas, tanto que meu sucessor foi eleito no primeiro turno. Mas uma eleição nacional não pode ser apequenada em uma avaliação pontual, o PSDB voltou a ser referência de oposição ao PT.

PODER: Surpreendeu sua derrota em Minas, dada a sua popularidade lá. Muitos creditam isso ao rompimento de sua base. Como pretende arrumar a casa?

AÉCIO NEVES: Só para deixar claro, eu não era governador de Minas há anos. Foi a opção que os mineiros fizeram e temos de respeitar. Há 30 anos o PT disputa Minas e, como nunca tinha vencido, não havia base de comparação entre o nosso governo e o deles. Agora, vai haver. O PSDB tem de se organizar, tem de se fortalecer em Minas e em outras partes do Brasil, no Nordeste em especial. Não elegemos o governador, mas vamos continuar trabalhando para mostrar que temos o melhor projeto também para o estado. Não foi falta de união do partido, foi falta de votos mesmo.

PODER: O senhor acha que o caminho do PSDB é denunciar a corrupção e apostar no antipetismo ou é preciso ir para outro lado? Qual a formulação para os próximos quatro anos?

AÉCIO NEVES: Seremos oposição sem adjetivos. Combater a corrupção é responsabilidade de qualquer agremiação política séria. Temos de mostrar que nossa condução da economia não seria pela via pouco elaborada do aumento de impostos por um lado e a supressão de direitos trabalhistas por outro, estaríamos construindo uma profunda reforma tributária. O governo do PT se inicia com o sentimento de fim de governo, distribuindo espaços de poder para pessoas sem qualquer qualificação exclusivamente para manter uma base. Não conseguiram encontrar um só economista que tenha feito campanha para a presidente Dilma em condições de ser ministro da Fazenda, com credibilidade para conduzir o país. Nós vamos mostrar essa incoerência entre o discurso e a prática. Pela primeira vez enfrentarão uma oposição conectada com a sociedade. Vejo uma base acovardada com as ações da presidente em uma direção oposta à da campanha e constrangida ao ver que as denúncias que fizemos em relação à crise fiscal, à fragilização das contas públicas, à crise do setor elétrico, à fragilização dos bancos são comprovadas pelas ações do governo. Teremos no Congresso um embate entre uma oposição revigorada e uma base do governo constrangida e fragilizada.

PODER: Como líder da oposição, o senhor critica os 12 anos de governo do PT, mas, durante os governos de Lula, adotava um tom bem mais ameno. Era visto, inclusive, na política mineira como apadrinhado de Lula. O senhor ainda mantém uma boa relação com o ex-presidente, ainda vê pontos positivos em seu governo? A crítica fica só para a presidente Dilma?

AÉCIO NEVES: (risos) Apadrinhado do Lula, essa é a primeira vez que escuto isso. Governadores têm de estabelecer relações administrativas com outros líderes da federação, mas jamais deixei de ser oposição, simplesmente achava que o embate político deveria ser tratado no Congresso. E não há mudança de postura, o governo Dilma é consequência do governo Lula. Ele teve um ambiente econômico muito mais favorável, surfou no crescimento da economia internacional, mas a bonança acabou. E não sou o grande líder da oposição, é um equívoco enorme personalizar a oposição. É importante o PSB na oposição, Marina, tantas outras figuras importantes, nossos governadores, quanto mais caras melhor para o país. Essa crise é consequência dos desatinos e da incompetência do governo do PT e quem vai pagar o preço é a população. Vou alertar para isso independentemente do futuro, porque não acho que a candidatura à Presidência seja uma carreira, que necessariamente dure várias eleições.

PODER: Tem sido dito que Lula trabalha para isolar Dilma e assim se fazer necessário. Como o senhor vê esse movimento? O senhor considera Lula um político habilidoso?

AÉCIO NEVES: Lógico que ele é um político habilidoso, senão não chegaria aonde chegou. Não sou a pessoa mais adequada para falar das disputas internas do PT, mas posso dizer que ele será vítima da própria incoerência. O que fragilizará esse governo, que já começa com sentimento de fim de festa, é a absoluta incompatibilidade entre o que se propôs durante a campanha e o que se pratica. Podemos esperar um 2015 e um 2016 muito animados no Congresso.

PODER: O senhor fala em coerência entre discurso e prática. Mas, durante a campanha, foi dito que era pouco assíduo no Senado, que Minas cresceu menos do que o Brasil e que houve escândalos em sua gestão, como o da rádio Arco-Íris e o do aeroporto de Cláudio (ver abaixo, BAGAGEM INCÔMODA). Como o senhor se defende dessas acusações e se legitima para fazer essa crítica na oposição?

AÉCIO NEVES: (risos) Olha, acho sua pergunta ofensiva. Você está me chamando de demagogo! Vou responder para terminar nossa conversa. Disputei uma campanha eleitoral pensando no Brasil e tentando combater um grupo político que, a meu ver, trouxe equívocos que custarão caro para os brasileiros. Os ataques na campanha eleitoral que disputei foram todos respondidos. Então, se quiser ficar na acusação é um direito que você tem. Se quiser ver as nossas respostas, elas estão todas aí. O governo de Minas foi um governo inovador, o Brasil inteiro se inspirou em nossas práticas, somos referência para o Banco Mundial em eficiência na gestão pública. Na campanha eleitoral, você pode ver exatamente com quem nós disputamos as eleições. Minha vida política está aí para ser julgada e tenho muito orgulho da minha trajetória. E você fique muito à vontade para julgá-la também. Um abraço! (Tu-tu-tu…)

ÁRVORE GENEALÓGICA

Neto de Tancredo Neves, eminente político da tradicional São João del Rei (ou São João del-Rei e São João del Rey, como escrevem algumas publicações), famosa por dar as cartas da política mineira há séculos, Aécio ainda carrega outros antepassados de peso. Seu avô paterno, Tristão Ferreira da Cunha, foi deputado federal e forte opositor do Estado Novo, tendo sido signatário do Manifesto dos Mineiros. Com o golpe de 1964 foi nomeado conselheiro do Cade pelo marechal Castelo Branco. Seu pai, Aécio Ferreira da Cunha, foi deputado federal pela Arena. Pelo lado materno é neto de Risoleta Neves, pertencente à tradicional família Tolentino, muito poderosa politicamente. Sua mãe, Inês Maria, casou-se em segundas núpcias com Gilberto Faria, dono do Banco Bandeirantes, vendido nos anos 1990 após enfrentar dificuldades. Gilberto era irmão de Aloysio, seu antigo sócio no Banco da Lavoura, fundador do Banco Real, vendido ao ABN, atualmente Santander, e dono do Banco Alfa.

BAGAGEM INCÔMODA

Afiado nas críticas ao governo federal por conta dos escândalos que assolam o Planalto, Aécio Neves também teve problemas em casa. Acusado de cercear a liberdade de imprensa seja pela coação jurídica seja por meio das verbas de publicidade do governo de Minas, foram várias as denúncias que surgiram no noticiário nacional quando ele se propôs a disputar a Presidência.

Notoriamente, são uma dor de cabeça para o senador o aeroporto de Cláudio (a administração pública construiu um aeroporto nas terras de Múcio Guimarães Tolentino, tio-avô de Aécio, e seu filho, Tancredo Tolentino, o Quedo, era responsável pela chave do local, que jamais foi aberto ao público); a rádio Arco-íris (retransmissora da Jovem Pan em Belo Horizonte, de propriedade da família Neves, recebeu publicidade do governo do estado – nos oito anos de Aécio foram gastos mais de R$ 400 milhões em publicidade, mas jamais se revelou quanto foi repassado a cada veículo de comunicação, apesar da nova Lei da Informação exigir que isso seja feito); e a Lista de Furnas (com nomes de políticos que receberam repasses da estatal Furnas Centrais Elétricas. Dada como falsa, a lista acaba de ser legitimada como verdadeira por uma perícia da Justiça Federal).