29.10.2015  /  9:50

Revista JP: a diferença entre orgasmo de verdade e aquela gozadinha básica

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Massagem vira ferramenta eficaz na busca da independência sexual. Repórter que experimentou “terapia tântrica” afirma que profissionais cumprem tudo aquilo que os homens vêm prometendo há milênios e não entregam. Já Num Spa urbano, empresária tem surpresa boa no atendimento e deixa o lugar toda trêmula

Por Julia Furrer e Paulo Sampaio para a Revista J.P de outubro
Colaborou Thayana Nunes
Ilustrações Adriana Alves

Nada causa mais desconfiança nas mulheres do que ouvir uma amiga contando que teve orgasmos múltiplos com o marido. Quando, porém, ela afirma que atingiu o mesmo resultado em uma clínica de massagem, imediatamente a desconfiança se transforma em curiosidade. Como assim? Onde é? Quem te atendeu? Homem? Mulher? São profissionais do sexo? Que coragem! Ai, conta, conta!

O orgasmo sempre foi um tema muito caro às mulheres. Em uma pesquisa coordenada pela psiquiatra Carmita Abdo, professora do Programa de Estudo em Sexualidade da USP, um terço das 4 mil entrevistadas revelou que jamais tinha tido um. “Entre as jovens, esse número é ainda maior porque elas não conhecem tão bem o próprio corpo, muitas vezes não têm privacidade e falta intimidade com o parceiro. As mais maduras possuem maior domínio da situação, sabem como direcionar a mão do parceiro, a boca, o corpo. Ao mesmo tempo, preocupam-se mais com a decadência física, precisam lidar com o desgaste do relacionamento e ainda satisfazer o outro”, explica ela.

Como na música “Se Eu Quiser Falar com Deus”, de Gilberto Gil, grande parte das mulheres se impõe tantas responsabilidades para chegar lá que o prazer, muitas vezes, é deixado de lado. No fim, ainda tem de estar prontas para dar uns gritinhos e umas arfadas fingidas, enquanto o namorado/marido atinge o clímax.

As alternativas delas, até agora, tinham sido masturbar-se – o que muitas consideram “sem graça” ou “incompleto” –, ou mudar de orientação sexual, tornar-se lésbica, o que, como se sabe, não depende de uma simples vontade. Diante dessa perspectiva, conseguir orgasmos intensos em uma sessão de massagem soa inédito e maravilhosamente prático. “Mas, gente, será que rola mesmo?”, perguntam-se as amigas. Com J.P, rolou – como se pode ver no depoimento da próxima página. A chamada “terapia tântrica” foi introduzida no Brasil em 1996 por  Tadeu Horta,  que atende pelo título de Deva Nishok e é proprietário do Centro Metamorfose. Ali, 40 massagistas (23 mulheres, 17 homens) podem ser escolhidos de acordo com a preferência do cliente, pelo site +centrometamorfose.com.br.

Formados pela Universidade da Nova Sexualidade Humana, em Itapeva, Minas Gerais, esses profissionais atendem a pessoas de ambos os sexos. Segundo Nishok, apesar das diferenças anatômicas, a forma de trabalho é praticamente a mesma: “As pessoas utilizam apenas um pequeno grupo de músculos no ato sexual. Nosso trabalho é ativar todos”. No começo, o centro era mais procurado por homens: “De 20 anos para cá, criamos um vínculo maior com as mulheres, que passaram a confiar na técnica. Hoje, é meio a meio”. Segundo ele, o método ajuda mulheres que sofrem de questões como dor na penetração, reflexo de abusos etc. “O organismo feminino apresenta “um volume absurdo de hormônio. Isso possibilita o desenvolvimento dos hiperorgasmos, que chegam a durar 60 minutos”, diz Nishok. Para Carmita Abdo, “o massagista acompanha passo a passo a excitação crescente do cliente. É uma pessoa que está ali a serviço disso”. Para os homens, Nishok garante que o método funciona em casos de ejaculação precoce e impotência, por exemplo.

Nas próximas páginas, duas experiências diferentes: no Centro Metamorfose e em um spa urbano, sem nenhuma conotação “tântrica”…

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TAKE 1 – CENTRO TÂNTRICO

“São 11 da manhã de uma quinta-feira quando meu táxi para em frente a um portão discreto de uma rua residencial. Estranho ao perceber que o bairro é Pompeia. No site, constava Vila Madalena: será que é para combinar mais com a ideia hippie-prafrentex do que vem pela frente? Nessa casa espaçosa e iluminada, sem qualquer identificação na porta, funciona uma das unidades do Centro Metamorfose. O que eles fazem? De um modo geral, tentam despertar uma nova relação entre as pessoas e seus respectivos órgãos sexuais por meio da mais intensa experiência sensorial possível. O que eu estava prestes a fazer lá? Massagem tântrica. Sim, você provavelmente já ouviu falar. Talvez tenha lido algo a respeito, ou conheça uma amiga que foi. Para mim sempre foi uma ideia bem absurda, daquelas que se surgissem em uma mesa de bar despertariam a minha curiosidade, mas logo em seguida seriam descartadas com uma frase do tipo: ‘Imagiiiiina, eu jamaaaais teria coragem!’. Pois é, mas ali estava eu, apertando a campainha do centro, depois de ter topado escrever este texto.

Quem me recebe é Letícia, que também atende pelo nome de Deva Bhakti. Letícia-Deva tem um sorriso bonito, não é gorda nem magra, e deve ter lá os seus 30 e poucos anos. Veste calça legging e camiseta pretas – um traje típico de massagista de qualquer especialidade. Havia a possibilidade de ser atendida por um homem. Escolhi mulher porque achei que me sentiria mais à vontade com alguém do mesmo sexo. Nada a ver com a minha orientação sexual. Namoro um homem, nunca transei com mulheres. O site do Centro Metamorfose ainda disponibiliza uma foto 3×4 dos massagistas, de forma que, além do sexo, o cliente pode escolher a pessoa propriamente dita. Eu preferi deixar ao acaso. Para ser terapeuta tântrico é preciso estudar bastante. Letícia, por exemplo, tem – além do conhecimento do Método Deva Nishok de Massagem Tântrica –, que eu estava prestes a provar, formação em naturopatia, ioga ayurvédica, massagem biocontato, shiatsu, reiki e é doula (acompanhante profissional que dá suporte físico e emocional a mulheres antes, durante e depois do parto). Quer dizer, entende bastante do corpo feminino.

Depois de cinco minutinhos de espera, ela me chamou. Entramos em uma sala iluminada por uma luz azul. No chão, um tatame e um colchão fininho com um lençol branco (aparentemente limpinho) e uma almofada. A decoração é indiana e a trilha sonora segue a mesma linha. Antes de qualquer coisa, sentamos em duas cadeiras para conversar. Não há lugar para pressa ali. Ela me pede que eu conte de mim. Digo que estou lá por curiosidade, que tenho namorado e nosso relacionamento vai muito bem. Ele, aliás, sabe que eu estou lá, e acha a ideia ótima. Ela me conta que atende diariamente a homens e mulheres de uma faixa etária que varia entre 18 e 78 anos. Antes eles eram maioria, mas há algum tempo elas tomaram a dianteira. A maior parte procura o centro porque tem dificuldade de chegar ao orgasmo em suas relações, mas há quem esteja apenas buscando autoconhecimento. Assim como um namorado experiente tentando tranquilizar a namorada virgem, ela explica que não vai forçar a barra, e que caso eu não me sinta à vontade durante as carícias, que devem se estender pelo corpo inteiro, incluindo, claro, os genitais, ela respeitará meus limites.  Letícia fala tudo isso com uma voz suave, amigável, própria de quem está prestes a conduzir uma operação delicada. Não sei se é a imagem do Buda que nos observa ou esse clima de ‘conversa entre amigas’, mas o fato é que não estou nem um pouco envergonhada ou ansiosa – decido fazer perguntas. Às vezes, quando invento de me masturbar, sinto cólica depois de ter orgasmo. É normal? Resposta de Letícia: ‘Você sente isso porque se contorce toda para ter uma leve sensação de prazer. Não é orgasmo, é gozadinha. Não tem nada a ver com o que vai viver aqui’.

Uau! Depois de um momento de mudez repentina diante da possível constatação da inabilidade motora de uma vida inteira, respeito a ordem de tirar toda a roupa e deito na cama, agora sim bastante ansiosa.

Daí para frente começa uma longa massagem, que não é bem massagem, mas um carinho desses feitos com a ponta dos dedos que arrepiam o corpo todo, sabe? Fico de olho fechado o tempo todo e esqueço completamente que ela está ali. A massagem tântrica não tem nada de sexual. É como se a terapeuta servisse de instrumento para que você achasse um caminho de contato com você mesmo. Não tem a ver com tesão, tem a ver com energia – completamente diferente. Aos poucos, vou conseguindo me desconectar dos meus pensamentos e entro em um estado realmente relaxado, em que só é possível sentir. Ela faz esse carinho no corpo inteiro: da cabeça aos dedos do pé, passando por virilha, nádegas, seios e outras zonas erógenas. Não quero que essa parte acabe nunca, mesmo sabendo que o melhor ainda está por vir. Não é todo dia que a gente lembra de curtir nosso corpo com tanta calma. Escuto um som de borracha: é ela colocando a luva. Letícia espalha um lubrificante quente e começa a massagem. Com movimentos firmes, toca o clitóris e outros pontos do órgão sexual, mas sem penetração. Minha respiração fica mais ofegante e não demora muito para eu chegar lá. Antes que eu tenha a chance de recuperar o fôlego, ela liga um vibrador superpequeno, mas que sabe manusear muito bem. Tá vendo como não importa o tamanho da vara e sim a mágica que ela faz? Daí para frente é difícil narrar. O esquema é ‘não para, não para, não para não’. Muitas vezes seguidas. Orgasmos múltiplos, intensos, maravilhosos. Só termina quando o corpo pede socorro por exaustão. Não achei incômodo, só gostoso. Para mim, foi tão surreal que terminei com um ataque de riso, meio sem acreditar no que tinha acabado de acontecer. Foi como se tivesse estado em outro lugar, em outra dimensão, meio fora de mim (ou realmente dentro?). E lá se foram quase duas horas e meia de sessão. Paguei os R$ 390 (que, por razões óbvias, achei um preço justíssimo), e saí de lá me sentindo muito bem. Leve, claro, mas muito feliz por ser mulher e ter a oportunidade de sentir tudo isso. Quer maior girl power do que esse?”

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TAKE 2 – SPA URBANO

Heterossexual convicta, casada há dez anos e mãe de uma filha de 6, a empresária Carolina* nunca imaginou que aquela massagem relaxante, para distender os músculos do pescoço, acabaria em orgasmo. Muitos. Intensos. A experiência foi tão arrebatadora que, na sequência, ela comprou um pacote de dez sessões. Tudo aconteceu no spa Hara, que até o início do ano passado funcionava na avenida Europa, região com o metro quadrado mais caro da cidade. Depois de falir, a dona do Hara fechou suas portas sem dar satisfação a clientes como Carolina, que haviam comprado pacotes. Entre outras celebridades, frequentavam o lugar Hebe Camargo, Ellen Rocche e Ana Maria Braga. Carolina lembra que naquele dia, quando chegou ao spa, as duas profissionais que a atendiam não estavam disponíveis,  então ofereceram a ela uma terceira. Normalmente, para deixar as clientes à vontade enquanto se despem, as massagistas se ocupam dos apetrechos que usarão durante a sessão. Em vez disso, depois de conduzir Carolina até a sala, Beatriz* fechou a porta e disse: “Pode tirar a roupa”, com os braços cruzados, olhando para ela.  Meio constrangida, Carolina nem trocou sua calcinha pela descartável. Deitou-se de bruços, meio apreensiva. Beatriz começou pela região do pescoço, prolongou-se nas costas, chegou às nádegas. Explorou-as até penetrar de leve o centro, com a lateral das mãos e a ponta dos dedos. “Aquilo nunca tinha me acontecido, eu me senti uma coelhinha acuada”, lembra Carolina, “mas estava gostando”. O Hara cobrava três valores pelas massagens, dependendo da profissional recrutada. Beatriz estava entre as top, por isso atendia em um dos bangalôs estilizados que davam para um lago central. Com o rosto apoiado no suporte vazado da cabeceira, Carolina via carpas nadando embaixo do chão de vidro transparente. A música indiana era estilo “viajante”, de maneira que todos os seus sentidos eram testados ao mesmo tempo. Beatriz alternava energia e leveza. Depois de descer por coxas, pernas e pés, ela disse: “Vamos virar?”,   e recomeçou, agora pela frente. Primeiro, tocou os pés desde os dedos, “amassando” deliciosamente a sola; na altura das pernas, aplicou pancadinhas brandas e beliscões “técnicos”. Subiu até o sexo. Com absoluto domínio da anatomia da região, deu especial atenção àquelas saliências e reentrâncias. Sem pressa. À medida que sentia retorno, intensificava os movimentos. Carolina gemia baixinho, sem se reconhecer. Um dos motivos que contribuíram para que ela chegasse até aquele ponto com uma estranha (uma mulher!) foi que a massagista não usou nenhum recurso além de conhecimento técnico. “Ela não dizia nada. Era zero sacanagem.” Segundo descreveu, Beatriz tinha cerca de 1,70 metro, 58 quilos, pele clara, cabelos pretos amarrados em um rabo de cavalo, uniforme branco. Ou seja, não havia apelo físico, só perícia. Depois de muitos suspiros e frêmitos, Carolina ficou meio sem rumo. Ela conta que, ao sair do spa, ainda trêmula, se sentiu perdida. “Não sabia nem para onde estava indo.” Precisava conversar com alguém, queria respostas para o que tinha acontecido. Ligou para um amigo gay. Ele riu muito, enquanto a ouvia empolgado, e decidiu marcar uma hora com Beatriz – para ver se ela faria o mesmo com ele. Nada. Quatro dias depois, Carolina voltou ao Hara. “Na segunda sessão (primeira do pacote), eu já estava completamente relaxada”, lembra. “Tive orgasmos consecutivos, intensos, foi absolutamente incrível.” Na terceira, vestiu uma lingerie tiro e queda, um vestido bege curto estilo “tudo e nada” e saltos altos. Ao tirar o vestido, pela cabeça, deu uma sacudida na cabeleira loira. Uma de suas fantasias era provocar a outra, deixá-la com mais vontade… Carolina agora estava com a bola toda. De alguma maneira, ela diz que se sentiu “sexualmente mais livre”. “Minha relação com meu marido melhorou mil por cento. Como não ‘precisava’ mais dele, relaxei, e as coisas passaram a fluir.” O marido, que é médico, “nunca foi um ás na cama”, mas ela também já tinha aberto mão daquela parte do casamento. Por esse ponto de vista, o “efeito surpresa” contou muitos pontos a favor da massagista. “Frequentei o Hara até falir. A dona deu um golpe na praça, eu perdi algumas sessões do último pacote.” Depois disso, Carolina nunca mais soube de Beatriz. Não tinha sequer o celular da massagista, não fazia ideia de onde ela morava, se tinha marido ou filhos. Será que era lésbica? Isso não fazia a menor diferença. O que a encantou foi justamente a possibilidade de obter prazer sem envolvimento, de uma forma prática. As duas eram, ao mesmo tempo, íntimas e absolutamente desconhecidas. Hoje, Carolina diz, rindo, que não sabe se lamentou mais o dinheiro que perdeu com a falência do spa, ou os orgasmos que deixou de ter. Afirma que, depois do “advento Beatriz”, as “massagens ficaram tão sem graça”. “Ela me fez descobrir que, definitivamente, (a vagina) não serve só para fazer xixi.”

* Os nomes citados são fictícios para preservar a identidade das envolvidas