15.08.2014  /  10:16

Revista J.P: o assassinato do empresário José Carlos Nogueira Diniz Filho

 

Vítima de uma emboscada, o empresário José Carlos Nogueira Diniz Filho foi morto por criminosos que teriam agido sob o comando de sua ex-mulher. Única herdeira dele, Jacqueline Carr Diniz também era namorada do chefe do bando

 

Toda a cena não durou mais de um minuto. O primeiro tiro atingiu o para-brisa do carro, mas não alcançou o motorista. Apavorado, ele acelerou. Os criminosos acirraram a perseguição e intensificaram os disparos, até que acertaram seu alvo no peito. Eram quase três da manhã, do dia 26 de novembro de 1989, quando o empresário carioca José Carlos Nogueira Diniz Filho, então com 44 anos, foi abatido em uma rua deserta da Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio. Diniz e a namorada, a modelo Lucimar Viana, 22 anos, voltavam do restaurante Antiquarius, no Leblon, zona sul, onde haviam jantado com um casal de amigos. Na hora do atentado, Lucimar ainda conseguiu controlar o volante e tirar a chave da ignição, impedindo que o Opala Diplomata se espatifasse contra um poste. “Levei um tiro, Lu, tô morrendo”, agonizou Diniz. Lucimar também deveria ser eliminada, mas Manoel de Oliveira, o Manoelzinho, um dos quatro bandidos que participaram da ação, contou na polícia que convenceu os parceiros a deixar o local rapidinho: “Vam’bora, isso aí vai dar merda!”, teria dito.

Tido nos anos 1980 como “dono de um terço da Barra da Tijuca”, José Carlos Nogueira Diniz Filho empreendeu boa parte dos condomínios verticais de luxo da região, como Atlântico Sul e Village Océanique. Incensado pela sociedade emergente do Rio, Diniz era o tipo que recebia para festanças faraônicas em casa e se divertia jogando garrafas de champanhe Cristal pela janela. Quando foi morto, já tinha torrado boa parte do patrimônio que herdara do pai, mas ainda havia gente de olho no que sobrou. Especialmente na cobertura tríplex de 1.700 m2, considerada na época o imóvel mais caro da cidade. Na semana anterior à do crime, em sua seção de “sociedade”, a revista Exame publicou uma matéria com foto grande informando que a cobertura havia sido colocada à venda por US$ 5,5 milhões (mais de R$ 23 milhões, em valores atuais). Com o dinheiro, Diniz pretendia comprar imóveis menores para cada uma das três filhas, então crianças, e saldar as dívidas que contraíra com seus gastos excessivos.

A notícia da venda do apartamento foi lida com particular apreensão pela ex-mulher do empresário Jacqueline Carr Nogueira Diniz, 28 anos, mãe das meninas e até então única herdeira testamentária dele. Jacqueline ficou muito contrariada. Garantiu na Justiça, contudo, que apesar de ser namorada de Paulo Sérgio Mollo Fonseca, 32, chefe do bando que matou Diniz, não teve nenhuma participação no crime. Ao tentar se desvincular de Fonseca, procurou defini-lo como uma figura inconfiável. Afirmou que nunca soube da existência da PM Seguros, empresa que ele afirmava ter “em sociedade” com o pai. Fonseca revelou ainda em juízo que operava com dólares e no mercado financeiro. Em sua casa foram encontrados carros roubados, outros com placas adulteradas e armas de diversos calibres. O inquérito, cheio de intrigas, histórias de traição, tiros e sangue, daria uma excelente fonte de pesquisa para o cineasta  americano Quentin Tarantino.

Paulo Sergio Fonseca, chefe do bando que matou o empresário José Carlos Nogueira Diniz Filho

É agora!

Jacqueline se tornou, junto com Fonseca e o resto da quadrilha, uma das principais suspeitas do assassinato do ex-marido. De acordo com a apuração da promotoria, a ideia do crime já existia havia tempo, mas ganhou premência com a publicação da matéria sobre a venda da cobertura. “É agora! Não pode passar de hoje!”, teria gritado Paulo Sérgio Fonseca, ao se aproximar do Diplomata de Diniz. O testemunho é do policial Cláudio Silva, primeiro do grupo a ser preso. Silva ocupava o banco do passageiro, enquanto Fonseca dirigia o carro (outro Opala), e Manoelzinho e o PM Edmilson Campos Dias, conhecido como Cabo Campos, iam no banco de trás.

Cabo Campos disse em seu depoimento que conhecera Fonseca havia três meses, quando fazia ronda próximo à casa dele. Os dois ficaram amigos. Passado um tempo, Campos entrou de férias e topou trabalhar naquele período como motorista de Jacqueline. Apesar do relacionamento com Fonseca, o policial negou qualquer envolvimento com o crime. No dia da emboscada, segundo declarou à polícia, esteve com a mulher e o filho em um restaurante chamado Rio 401, na Estrada da Água Grande, zona norte, e, depois, no velório de um amigo que fora assassinado. Voltou para casa por volta de 2h30 e dormiu. “Os garçons do restaurante e os parentes do meu amigo podem atestar”, disse.

Churrascão

O “aquecimento” dos quatro criminosos, no fim da tarde de sábado, 25 de novembro de 1989, foi em um churrasco à beira da piscina da casa de Jacqueline, que ficava no Recreio dos Bandeirantes. Dali, eles seguiram para o prédio onde morava Diniz e mantiveram-se de prontidão para segui-lo. O empresário e a namorada tinham sido convidados pelo executivo do Bank of America Joel Korn, amigo de Diniz havia cerca de 25 anos, e a mulher, Sharon, para um jantar de retribuição. Os quatro se encontraram no restaurante por volta das 21h30. Do lado de fora, próximo à esquina da rua Aristides Espínola, onde até hoje fica o Antiquarius, o manobrista Severino Morais percebeu que um homem observava atentamente o movimento das pessoas na porta. Soube-se depois que era Cabo Campos.

O resto do bando esperava no carro, estacionado na porta da garagem de um prédio vizinho. Em seu depoimento, o porteiro Raimundo Araújo reconheceria Fonseca, Silva e Manoelzinho como os três homens que perseguiram Diniz, Lucimar e os Korn à saída do restaurante – os casais ainda esticaram na boate Hippopotamus. Araújo guardou a fisionomia dos três porque quando pediu a eles que desbloqueassem a entrada da garagem, Fonseca respondeu que todos ali eram policiais e estavam em missão de captura de um traficante – o que despertou a curiosidade do porteiro.

Jacqueline Carr Diniz, ex-mulher da vítima, deixa a delegacia acompanhada de um policial, em 1989

Adúltera, desleal, mentirosa…

Depois de executar Diniz, o grupo foi à casa de Jacqueline para comunicar a notícia. “Fato consumado”, informou Fonseca. A alegria dela durou apenas até o momento em que Lucimar ligou para contar o que tinha acontecido. “A Lucimar está viva??”, perguntou Jacqueline aos berros, soltando os maiores impropérios.  Assim que conseguiu controlar os nervos, perto das 7h, foi à cobertura de Diniz, onde agora morava apenas a mãe do empresário, dona Léa, para “transmitir carinhosamente” a triste notícia. “Não se preocupe, mamãe, vamos morar juntas”, disse Jacqueline à ex-sogra, que, por sua vez, se referia à ex-nora como “adúltera, desleal, mentirosa e violenta”. De acordo com os empregados da casa e com os seguranças do prédio, nos tempos em que ainda era casada com Diniz, Jacqueline foi vista saindo na garupa do motorista do marido, Henrique, e vivia rodeada de companhias masculinas no sítio do casal em Miguel Pereira, na serra fluminense.

Além de carinho, ela levou na visita à dona Léa seu advogado. Segundo João, o mordomo, a ex-patroa promoveu uma “vistoria” no apartamento para checar se os objetos de valor ainda estavam lá. Diniz era colecionador de arte e, entre outras preciosidades, possuía obras de Di Cavalcanti, Debret e Tarsila do Amaral. Por volta de meio-dia, de lá mesmo, Jacqueline ligou para Lucimar a fim de informar a hora do enterro. Foi então que deu à outra um aviso que a acusação explorou muito contra ela no julgamento. “Não fala nada para ninguém, você não sabe de nada, é a melhor coisa que você faz. Cala a boca! Já passou, o negócio agora é esquecer, tocar sua vidinha para frente.” No velório, beijou Lucimar na testa e a consolou.

Pervetido Sexual

Meio canadense, meio irlandesa, como se definiu em carta aberta ao Jornal do Brasil, Jacqueline Carr era bem-nascida, bonita e falante. Seu casamento com Diniz, celebrado em 1981, na Candelária, foi considerado o evento social mais concorrido da época. Agora, ela estava encrencada. Nos vários depoimentos que prestou, caiu em muitas contradições e levantou ainda mais suspeitas. No primeiro, em 28 de novembro, fez comentários desabonadores a respeito de Diniz, afirmando que ele era viciado em cocaína e pervertido sexual. Ao mesmo tempo, garantiu que Paulo Sérgio Fonseca era “incapaz de fazer mal a uma mosca”. Contou que o conheceu havia nove meses, quando ela estava para entregar a casa em que morava, na Gávea, e Fonseca apareceu querendo alugá-la. Os dois ficaram amigos, muito amigos, e então namorados.

Já no segundo depoimento, Jacqueline passou a colocar em dúvida a honestidade de Fonseca. Contou que tinha assinado uma procuração outorgando a ele poderes para administrar sua conta no banco – algo em torno dos R$ 42 mil – e que, tempos depois, o gerente ligou para comunicar que o saldo dela estava negativo em R$ 2 mil. Fonseca argumentou que tinha optado por outra forma de investimento e disse: “Amor, você não confia em mim?”. Para recuperar sua situação financeira, Jacqueline pleiteou na Justiça aumento da pensão alimentícia – e ganhou. Ela contou em juízo que Fonseca a aguardava à saída do fórum para dizer que ela tinha conseguido ganhar a ação porque ele havia subornado o juiz.

E então, vem a história para Tarantino contar. A caminho de casa, Paulo Sérgio Fonseca teria parado o carro, supostamente para urinar. Em vez disso, disparou um tiro na direção do próprio ombro, a fim de simular que fora vítima de um assalto. Sua intenção era convencer o juiz subornado que o dinheiro que daria a ele, obtido com a venda de dólares, havia sido roubado. Os depoimentos eram assim, enlouquecidos.  Por causa do tiro, Fonseca perdeu parcialmente o movimento do braço esquerdo e, depois de uma bateria de exames, descobriu que teria de colocar uma ponte de safena.

Vago e inverossímil

Logo Jacqueline passou a incriminar descaradamente o namorado. Porém, à medida que seus depoimentos desencontrados traziam novos detalhes à tona, ela precisava dar a eles uma versão compatível com sua alegação de inocência. O problema é que tudo soava vago e inverossímil, diante da prova documental: ela era a única beneficiária do testamento de Diniz. A promotoria explorou muito o fato de Jacqueline jamais ter apresentado uma explicação convincente para não “precisar” participar do crime. Ao fim das investigações, reuniram 25 indícios contra ela.

Decretada sua prisão domiciliar, Jacqueline obteve o direito de uma escolta. Em pouco tempo, estava namorando – e acabou se casando – com o policial destacado para acompanhá-la, Vanivaldo Soares. Paulo Sérgio Fonseca, Cláudio Silva e Cabo Campos foram condenados a 16 anos de prisão. Manoelzinho permanecia foragido. O caso parecia caminhar para um relativo amortecimento. Se por um lado as provas contra Jacqueline se confirmaram, por outro não surgiam novas evidências da culpa dela. Até que, em 1993, Manoelzinho apareceu ferido em um hospital de Porto Velho, Rondônia, depois de participar de um tiroteio com a polícia. Inquirido por um representante do Ministério Público, ele deu um depoimento devastador contra Jacqueline.

Bruxa do ano

Ao acrescentar detalhes impressionantes ao que já havia sido dito, Manoelzinho reconduziu Jacqueline ao posto de bruxa do ano na mídia. Segundo ele, quando Lucimar ligou para dizer que Diniz tinha sido assassinado, ela fingiu que estava chorando: “Meu Deus, o que vai ser das minhas filhas?!”. Depois de desligar e de xingar todo mundo (por ter preservado Lucimar), tornou-se eufórica. Correu para abraçar Fonseca, gritando: “Ele morreu! O homem morreu!”. Feliz, pulou na piscina com roupa e tudo. Em seguida, vestiu um roupão e abriu uma garrafa de Cointreau para brindar com os bandidos.

A Justiça carioca passou três anos tentando trazer Manoelzinho para o Rio, a fim de promover uma acareação dele com Jacqueline. Quando conseguiu, a defensoria pública, recém-acionada para assistir o réu e sem dominar ainda os 14 volumes do processo, tentou adiar o confronto. O juiz indeferiu. Na acareação, Manoelzinho foi orientado a responder apenas perguntas específicas e exercer o seu direito de ficar em silêncio. Contudo, reafirmou que tudo o que havia declarado era a mais pura expressão da verdade.

Choro e desmaio

Submetida, em 1996, a um júri popular, Jacqueline foi absolvida por 4 votos a 3. Em uma conversa com J.P, o promotor Marcelo Rocha Monteiro disse que a figura dela contou muito. “Ela era o oposto do que se imagina de uma ré envolvida com bandidos perigosos. Estudou no Colégio Sion, era bilíngue, bonita, articulada.” Jacqueline ainda levou as filhas para o tribunal, teve crises de choro e chegou a desmaiar quando ouviu a sentença. “Isso é um detalhe”, afirmou a J.P o advogado de defesa dela, Paulo Edmundo Lopes. Segundo ele, em 26 horas de julgamento houve muito mais. “O Diniz era toxicômano e tinha gastos descontrolados com amantes. Usei isso também.”

O promotor apelou da sentença e ganhou o recurso. Desembargadores da 4ª Câmara Criminal decidiram que Jacqueline deveria ser submetida a novo júri. A defesa opôs embargos, e um novo grupo de desembargadores confirmou, em 1999, a absolvição. Só então Jacqueline foi autorizada a dispor dos bens do ex-marido. Bem-humorado, o promotor Monteiro comenta: “Engraçado é que a mesma história, contada pelo Manoelzinho,  condenou o bandido pobre e absolveu a loira bem-nascida”. Jacqueline deu à filha, que teve com o policial Vanivaldo Soares, o nome. (Por Paulo Sampaio)