21.05.2016  /  8:09

Renato De Cara abre sua casa para a Revista J.P. Pode entrar!

||Créditos: Gui Morelli/Revista J.P
|| Créditos: Gui Morelli/Revista J.P

Por Thayana Nunes para a Revista J.P

Renato De Cara pode parecer um clássico acumulador – ele mesmo já se pegou com essa dúvida. Mas isso até a página dois. A partir dali, revelam-se toques de colecionismo exótico que fazem de seu novo apartamento um acervo de preciosidades, encontradas em leilões pela internet ou até em caçambas de São Paulo

Renato De Cara está viciado em leilões virtuais. É em frente ao computador que o galerista, dono de um dos espaços de arte mais descolados de São Paulo, a Galeria Mezanino, passa várias horas de seu dia. O que procura por ali? O ineditismo. Renato é uma daquelas mentes que nasceram com um olhar tão apurado para o novo e o belo que objetos, fotografias e imagens comuns para a maioria das pessoas conseguem, com seu toque, se transformar em verdadeiras obras de arte. Seu novo apartamento, no bairro de Pinheiros, retrata bem esse clima: são paredes forradas de quadros, móveis de brechós, esculturas excêntricas e até “achados” que vêm de lixos e caçambas. Acredite.

“Estou vidrado nesses leilões. Às vezes você encontra umas coisas absurdas e bem baratas”, começa Renato, que não cansa de se encantar com a arte popular disponível on-line. Ele se atenta a algo que vai além do valor do mercado daquele objeto ou se a peça vai entrar em exposição em sua galeria. A pergunta é como aquilo pode ser especial para ele. E, claro, como vai compor as mil ideias para decorar o apê onde vive com a mulher, a atriz e bailarina Luanna Jimenes. “Pode parecer até descontrole acumular esse monte de coisa. Mas a Lu me estimula. E, sinceramente? Adoro colecionar, achar coisa em caçamba… Sei lá que obsessão é essa. Só sei que me divirto. Daqui a pouco não vai ter mais espaço em nenhuma parede por aqui”, diz nosso anfitrião.

Localizado a duas quadras da Mezanino, o apartamento de 160 metros quadrados é espaçoso na medida certa para as necessidades do casal. A sala principal tem janelões que recebem o verde de uma rua tranquila do bairro e serve de palco para as aulas de ioga e os ensaios de dança diários de Luanna. Dali, um passeio pelos cômodos revela o colecionismo autêntico do galerista/artista: miudezas, esculturas e livros estão por todos os cantos, assim como as fotografias, imagens e pinturas que cobrem as paredes – cada uma delas divididas por temas. Tem o mix perfeito de obras sobre infância, o encontro de diferentes paisagens e horizontes, o grupo de imagens de animais e os retratos dos dois moradores. O retratismo, aliás, é outra mania: ele convidou artistas da galeria para pintar, cada com um sua técnica, retratos seus e de Luanna.

Entre os espaços mais usados está o escritório, uma espécie de oficina-ateliê onde ele encontra inspiração e consegue criar suas assemblages, obras que surgem a partir de colagens de pequenos objetos, desde papel de correspondência a peças que ganhou de presente ou que encontra no lixo. “Antes de Luanna morar comigo era inviável entrar no meu escritório. Porque vou guardando até coisa quebrada. Mas acredito que consigo transformar isso em uma expressão minha. Acho que é saudável de certa forma.” Tão saudável que até virou tema de uma aplaudida exposição em 2011, realizada no espaço do amigo e cenógrafo Zé Carratu, um dos mais conhecidos do país.

Difícil mesmo é saber ao certo quando começou esse gosto tão peculiar. Jornalista de formação, com passagens pela fotografia, produção de moda e até pela noite paulistana, ele revela que gostava de rabiscar suas ideias em diários quando adolescente, de guardar embalagens, além de garimpar novidades em suas andanças pelo mundo. A Galeria Mezanino veio há dez anos, depois de uma série de coletivas de sucesso organizadas com artistas amigos. De um perfil mais alternativo, com obras acessíveis, hoje o espaço “virou gente grande”, como ele diz, com artistas mais caros. “Sempre fui curioso e tenho o privilégio de poder trabalhar com isso, de ter contato com um time de artistas que adoro. Acredito muito na sensibilidade do olhar, em estimular o colecionismo. E que você pode ter algo bonito, independentemente do valor.”