Qual é a sua || Créditos: Getty Images

Qual é a sua? Um giro para conhecer as filosofias de vida de alguns povos e o que elas têm a nos ensinar

09.11.2019  /  8:30

Qual é a sua || Créditos: Getty Images

Por Victor Santos para a revista Joyce Pascowitch

Já se foi o tempo em que apenas a prima hippie era quem fazia ioga. Também ficou no passado os raros pubs – que hoje são vários. A dieta ayurvédica agora direciona a alimentação de muita gente, turma que mudou de vez o que come em prol da saúde. Além disso, em tempos tão conectados, parece que todo mundo está fazendo mindfulness, técnica de meditação e atenção plena que virou mania. Cada um desses exemplos mostra uma tendência de comportamento que transforma a maneira como nos relacionamos e vivemos. Lá fora, países como Holanda, Japão e Escócia têm seus próprios costumes, mas que, nos últimos anos, vêm sendo disseminados mundo afora e influenciando muita gente. Conheça a seguir filosofias de vida em alguns países e, por que não, a sua próxima.

Hygge: Termo tipicamente dinamarquês, surgido na pequena ilha de Fano, costa oeste do país, banhada pelo Mar do Norte. O local abriga um inverno rigoroso, assim como épocas do ano com pouquíssimo sol e ventania. Como que essa turma consegue ser feliz? O segredo está no “hygge” – se pronuncia “hu-ga” ou “rigue” –, palavra que ganhou o mundo e estampa até cafés em Los Angeles, desde que países da Escandinávia estiveram no topo dos rankings de felicidade da World Happiness Report. Muitos dos entrevistados justificavam a felicidade por dedicação ao hygge. Como é isso? Ao passar longos períodos em casa durante o inverno, os dinamarqueses acabam por cuidar muito bem de seu lar, preparam a morada para a chegada de estações, um momento de cuidado próprio. Vale sentir cada gota de água e o escorrer do xampu ao tomar um banho, preparar um canto confortável no sofá para ler um livro em silêncio embrulhado em um cobertor gostoso, apreciar o fim da tarde e tomar seu chá preferido – sem cafeína para não aflorar os ânimos. Mas nem tudo é solidão. Passar um tempo do dia preparando uma refeição com quem se ama, convidar amigos para sentar em torno de uma mesa e dividir experiências também faz parte.

Ikigai: A longínqua ilha de Okinawa, sul do Japão, é conhecida mundialmente por sua população de excepcional longevidade. A região tem 20% da população com três dígitos de idade e supera o índice do próprio país. Mas, como essa turma vive tanto? Muitos apontam a constante busca pelo “ikigai”. Traduzido para o português, essa palavrinha simpática significa “a razão de ser ou de viver”. Tal sabedoria é focada no encontro de propósitos, uma motivação profunda que pode surgir a partir de questionamentos simples como: qual sua razão para viver? Ou até, qual sua razão para sair da cama? A resposta está no mundo em que se vive. Alguns já nasceram sabendo, mas não é todo mundo que tem facilidade de chegar a um veredicto, por isso o ikigai é inclusivo e se incentiva compreendê-lo aos poucos. Pense na sua primeira tarefa do dia, talvez um café da manhã bem preparado. Se olhe no espelho, reflita. Ao encontrar o que te preenche, se dedique, se especialize e lembre-se que, segundo os japoneses, essa é a única forma de se comprometer consigo mesmo. Ser protagonista da sua vida.

Còsagach ou coorie: Na Escócia, as tempestades de inverno e a agitação do mar promovem um espaço pouco convidativo para curtir a vida. Porém, os escoceses encontraram sentido e paz aos seus lares e convívios. Mais comum em áreas rurais, o “còsagach” significa estar confortável e propõe uma forma de relaxar em sincronia com seus arredores. A expressão deriva da palavra gaélica “còsag” e remete a um buraco simples onde algumas criaturas vivem. Procure dar sentido a tudo que está a seu redor e se identificar com cada detalhe de cada contexto vivido. Para entender melhor, que tal aproveitar uma noite chuvosa embaixo do edredom com uma – ou duas – doses de uísque escocês, talvez construir uma churrasqueira rústica e cozinhar um peixe fresco, talvez pescá-lo, ou até tricotar seu próprio suéter.

Gezellig: Uma filosofia que também é uma expressão, “gezellig” pode ter muitos significados e engloba o cerne da cultura da Holanda. A tradução literal é aconchegante: uma festa pode ser “gezellig”, assim como um café, um encontro, uma casa e até uma pessoa. É mais que uma palavra, é uma vibração. Pode incluir agradável, amigável, confortável, divertida, legal que ainda vai faltar. Pense em uma sala decorada aleatoriamente com flores ou um bar com gatos dormindo nos cantos e luzes de velas: definitivamente “gezellig”. Um senso de conexão e relaxamento, mas também de celebração e, de preferência, com álcool, atitude e sem frescura. A expressão deriva da palavra “gezel”, que traduzida significa companheiro ou amigo. Um primeiro passo é fazer um jantar com o que tem disponível, uma viagem de bicicleta sem destino prévio ou uma noite em volta da fogueira em lugar secreto.

Lagom: Termo sueco, o “lagom” em tradução literal no português significa moderado. Apesar de, sim, haver essa relação, muitas leituras indicam “quantidade certa”, nem mais, nem menos – apenas o necessário. O importante é ter em mente que o equilíbrio é a chave. Na questão do trabalho, o objetivo final não é que uma pessoa brilhe – o que não tem problema –, mas a finalidade é que seu esforço ajude a construir uma sociedade boa, em que todos convivam em harmonia. A abnegação como cuidado pessoal. Não se come mais do que o necessário e, ao falar, se atenha ao necessário. O que pode parecer frieza para nós brasileiros é apenas uma forma de ver dos suecos, que aliás interpretam conversa mole como indício de desonestidade. Um costume tradicional é a “fika”, pausas para tomar café com amigos que organizam a rotina. Uma das principais teses é que o termo vem da era viking. Os guerreiros se sentavam em torno de uma fogueira e dividiam o seu drinque – no caso hidromel. Passavam um copo feito de chifre cheio, de mão em mão, e ninguém tomava mais do que a sua parte.

Meraki: Não se sabe ao certo a origem do termo. Dizem ter surgido entre as cidades de Atenas e Tessalônica, ambas banhadas pelo Mar Egeu, a parte oriental da Grécia, e significaria amor. Porém, “meraki” também teria vindo da Turquia e traduz o sentimento de se preocupar ou cuidar. Afinal, o que é? Uma filosofia que prega o orgulho pelo seu próprio trabalho ou sua obra. Manter os ombros para trás e a cabeça erguida, “meraki” transborda confiança. O termo abrange a ideia de trabalho como algo que pode dar prazer e a ideia de que nenhum detalhe é pequeno demais para merecer atenção. Incorporar essa filosofia a todas as tarefas do dia a dia pode trazer mais satisfação e alegria. Para seguir o exemplo dos gregos, na próxima vez que for comprar um pão deixe de lado os que estão empacotados nas prateleiras do mercado e tente fazer o seu preferido.