13.10.2019  /  9:00

Protagonista do longa ‘Domingo’, Martha Nowill manda a real em entrevista para Glamurama: “Censura é crime, mas vai passar”

Martha Nowill está nos filmes ‘Domingo’ e ‘O Livro dos Prazeres’ / Crédito: Instagram

Conversar com Martha Nowill é como uma aula para quem gosta de arte, empoderamento e ativismo. A atriz começou a carreira aos 18 anos, mas descobriu que queria ser atriz ainda criança, aos 6. Neta de Dorina Nowill, a paulistana teve a ajuda da avó desde cedo, mesmo quando muitos se preocupavam com o fato de ela não escolher uma profissão considerada tradicional. “Enquanto todos da família estavam preocupados com a minha decisão, ela me apoiava. Sempre dizia que, se eu quisesse ser atriz, eu seria”, lembra.

Dorina Nowill, que morreu em 2010 aos 91 anos, ficou cega aos 17 e, desde então, dedicou a vida à luta pela inclusão das pessoas com deficiência visual no Brasil e no mundo. “É bom saber que eu tenho a força da minha avó dentro de mim. Ela fez de tudo pela comunidade com deficiência visual e sua história é linda”, conta. Por isso que, em 2016, Martha resolveu fazer um documentário sobre a vida de Dorina. “Foi maravilhoso, lindo. Fiz esse documentário para ela, por ela”, conclui.

Aos 38 anos, Martha tem um extenso currículo no cinema, no teatro e também na TV. Já participou de séries, como ‘Amor em 4 Atos’, ‘Como Aproveitar o Fim do Mundo’ e ‘Felizes pra Sempre?’. Nesta última, fez par romântico com Paolla Oliveira. Atualmente, ela pode ser vista nos filmes ‘Domingo’ e, em breve, em ‘O Livro dos Prazeres’, ainda sem data de estreia, além da série ‘Todas as Mulheres do Mundo’, da Globo, ainda sem data de estreia. Mas Martha faz questão de deixar claro que sua carreira foi construída, um passo por vez, como ela gosta de dizer. “A minha carreira nunca teve uma reviravolta, ela é muito sólida. Fui construindo pouco a pouco. Sinto embaixo de mim todos os meus tijolos”. A seguir, nosso bate papo com Martha!

Glamurama: Voltando ao passado, como e quando você decidiu que seria atriz?
Martha Nowill: Acredite se quiser, mas foi com 6 anos de idade, quando fiz um teste na escola. Durante esse processo, até pensei em desistir, mas segui firme, estudei teatro, atuação. E assim estou aqui.

G: Sua avó, Dorina Nowill, era uma grande ativista. Quais ensinamentos ela deixou para você?
MN: A minha avó ficou cega aos 17 anos e ela sempre lutou muito, a vida toda. Lembro de um dia eu perguntar: ‘vó, você nunca ficou triste?’. Ela respondeu que sim, já havia ficado triste, mas que tem uma mola nos pés. Quanto mais a puxam pra baixo, mais ela consegue subir, voar. Ela tinha uma vontade de viver muito bonita. É bom saber que eu tenho a força da minha avó dentro de mim. Ela fez de tudo pela comunidade com deficiência visual e sua história é linda.

G: Em 2016 você produziu um documentário sobre ela. Qual a parte mais difícil na hora de passar a história de Dorina para essa nova geração?
MN: Nada foi difícil. Foi maravilhoso, lindo. Fiz esse documentário para ela, por ela. Entrevistei meu pai, amigos, colegas de trabalho. E cada parte do processo era maravilhosa.

G: Você também é uma mulher engajada. Quais são suas “lutas”?
MN: Estamos em um momento muito radical de ambos os lados e tento ao máximo dialogar com as pessoas. Antes, quando alguém não concordava com a minha opinião, eu ficava irritada. Hoje procuro conversar de forma menos radical. Quem concorda comigo, sempre vai concordar. E quem não concorda, não vai concordar se eu responder com agressividade, independente do assunto.

G: Você tem uma carreira extensa, com 25 filmes, 18 séries e mais de 10 peças de teatro. Pode nos contar um momento inesquecível da sua história profissional?
MN: Eu não consigo dizer um momento apenas. “Entre Nós” foi um marco, “Vermelho Russo” também, já que foi a minha primeira protagonista. Mas eu tenho a sensação de que não teve um grande momento. A minha carreira nunca teve uma reviravolta, ela é muito sólida. Fui construindo, pouco a pouco. Sinto embaixo de mim todos os meus tijolos.

G: Você é protagonista do longa ‘Domingo’, que estreou este mês. Fale um pouco do filme e de sua personagem…
MN: A Eliana é uma personagem grávida, já perto de parir. E ela enfrenta outros dilemas, como o marido abusivo. É uma personagem complexa. Ao mesmo tempo em que ela tem uma força gigante, parece que a todo o momento vai desfalecer ou quebrar. A sensação que tenho, é que ela é como uma bomba.

G: É difícil gravar com uma barriga fake?
MN: Muito! As pessoas talvez não saibam, mas é pesado. A barriga, além de tudo, era gigante. Mas eu já passei por isso, sabia como era. Além da barriga, eu também precisei treinar o meu sotaque gaúcho, foi um desafio.

No filme Domingo, Martha é Eliana / Crédito: Divulgação

G: Você também está em ‘O Livro dos Prazeres’, certo? É fã de Clarice Lispector?
MN: Eu sou fã e justamente esse é o meu livro preferido da Clarice. Na adolescência, li duas vezes, então já conheço bem a história. Mas a grande questão está no fato de que a diretora trouxe a trama para os dias de hoje. Interpreto Luciana, que quer trabalhar e ser bem sucedida, mas se culpa muito ao deixar os filhos sozinhos em casa. Tem a ver com maternidade também, mas de outra forma.

G: Além de tudo isso, você também está no elenco da série “Todas as Mulheres do Mundo”, da Globo, inspirada no livro homônimo de Domingos de Oliveira. Como concilia tudo?
MN: Inclusive estou entrando agora mesmo no Projac para gravar. Na verdade, agora só estou gravando a Laura, que é uma potência, livre, engraçada. O que cansa mesmo é essa ponte entre Rio e São Paulo. Confesso que, às vezes, dá uns piripaques. Tem que ligar e desligar os botões dos personagens o tempo todo.

G: Atualmente, estamos encarando um cenário de censura em relação à cultura…
MN: Censura é crime, mas ela vai passar. O povo, com certeza, vai se posicionar e lutar contra. Temos que estar atentos mesmo à autocensura: ‘será que devo fazer isso? Talvez não seja o momento’. Esse pensamento, tem que passar. A questão é lidar com inteligência.

G: Quais são os próximos projetos?
MN: Estou em uma peça de teatro, mas não posso falar muito sobre isso ainda. É uma adaptação do livro ‘Manual da Demissão’. Ainda estamos na fase de captar recursos. (por Jaquelini Cornachioni)