Prisão de poderosos cariocas na Lava Jato ajuda a derrubar mercado de luxo da capital fluminense

16.02.2019  /  8:00

 

Prisão de poderosos cariocas na Lava Jato ajuda a derrubar mercado de luxo da capital fluminense, que encara um verão de mesas vazias de restaurantes e quartos vagos de hotéis

por chico Felitti

A praia de Ipanema ainda se recuperava da ressaca de Réveillon no dia 2 de janeiro de 2019. Flores e barquinhos de madeira se amontoavam nas lixeiras, tostando num calor de 37 graus. Mas no Fasano Al Mare, separado da orla por uma parede de vidro, o clima era outro. Temperatura amena, garantida pelo ar-condicionado, e um silêncio absoluto, propiciado pela falta de clientes. No fim de tarde do segundo dia do ano, há só duas mesas ocupadas no restaurante do hotel cinco-estrelas.

Quartos com vista para o mar também estavam vazios na primeira semana de janeiro. Um apartamento de frente estava disponível para aquela noite, altíssima temporada, por US$ 700. “Bom sinal não é. Se um hotel no Rio não está ‘bookado’ em dezembro e janeiro, dificilmente vai encher em qualquer mês do ano”, diz o gerente de um hotel concorrente. O começo de ano do Fasano é uma ilustração do mercado de luxo no Rio de Janeiro.

É natural que negócios de luxo pastem no período de vacas magras que a crise financeira impõe ao país há alguns anos. Mas o calo parece apertar mais em terras cariocas. PODER visitou os principais restaurantes e lojas da cidade e descobriu que o luxo do Rio espera um verão seco: há lojas fechando e espaço de sobra nas mesas dos melhores restaurantes da cidade.

Há, em uma das calçadas mais caras do Leblon, uma sequência de três lojas disponível para arrendamento. Uma delas é onde funcionava, até meados do ano passado, a Ermenegildo Zegna, uma das principais grifes de alfaiataria do mundo. Segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, a razão do fechamento das duas lojas Zegna na cidade é a seguinte: 23 dos 25 principais clientes que compravam na loja caíram na Lava Jato. E foram presos.

Um dos 23 era Sérgio Cabral, conforme se vê numa das denúncias apresentadas contra o ex-governador. Na Zegna, ele e sua família não optavam por crédito nem débito: faziam depósitos em conta com dinheiro vivo, sempre em valores menores que R$ 10 mil. Como tornou-se de conhecimento geral neste começo de ano, a circular 3.461/2009, do Banco Central, obriga os bancos a avisarem o Coaf – Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o mesmo órgão que apontou os 48 depósitos de R$ 2 mil na conta do senador Flávio Bolsonaro – sobre operações que envolvam valores que ultrapassem R$ 10 mil. O total das compras, feitas entre 2012 e 2015, beira R$ 250 mil. Um quarto de milhão de reais gastos em ternos, sapatos, cintos e relógios.

A denúncia, assinada pelo procurador Deltan Dallagnol, ainda explica que algumas das notas da Zegna eram emitidas com um apelido, também usado nos registros internos da grife. Sérgio Cabral ora era chamado de “Serg”, e em outras vezes atendia por “Sergi” dentro da butique de luxo.

Um funcionário do Ministério Público confidenciou a PODER que, entre os apelidos dos outros clientes preferenciais da Zegna, havia um “Chefe”, sem revelar a identidade desse vip, que também pagava suas compras com dinheiro vivo e agora está preso.

Quando as lojas estavam em processo de fechamento, no fim de outubro, Ermenegildo Zegna, 63 anos, neto do fundador que dá nome à marca, veio conferir a situação brasileira com os próprios olhos. Ele, que havia ficado oito anos sem pisar no Brasil, visitou São Paulo e, em entrevista à Folha de S.Paulo, afirmou: “Decidimos fechar a loja do Rio de Janeiro por causa da crise, mas fortalecer as três de São Paulo, porque é importante se posicionar estrategicamente em todo o mundo e balanceando as perdas das regiões. Se uma vai mal, uma outra compensa”. Não especificou exatamente qual era essa crise que matava as lojas cariocas.

“O mercado de luxo do Rio é peculiar. Além de ter uma classe AA menor do que São Paulo, que dispõe de um grupo até numeroso de altos executivos, o Rio perdeu muitas dessas empresas que contratavam profissionais desse nível nos últimos anos”, diz o jornalista Paulo Lira, que está escrevendo um livro sobre o efeito da crise no andar de cima da economia brasileira.

Sem o grupo de executivos, sobrou no segmento mais favorecido do Rio de Janeiro aqueles que enriqueceram por herança ou pela política. E o segundo grupo levou um golpe considerável.

PRATO VAZIO
As peças jurídicas de denúncias contra políticos acusados de corrupção na Operação Lava Jato descrevem a praxe desses clientes cariocas: em sua maioria pagavam com dinheiro vivo contas de milhares de reais, deixavam outras centenas de reais em gorjetas e alguns ainda pediam nota fiscal.

O Antiquarius, restaurante português mais famoso do Rio, fechou no segundo semestre de 2018, depois de admitir que seu movimento foi machucado em mais de 20% no último ano. Entre os convivas de carteirinha, estavam Aécio Neves e o próprio Cabral. Após um anúncio de que o fechamento seria temporário, só até o momento em que a casa conseguisse capital suficiente para saldar suas dívidas, o salão nunca mais abriu.

O Satyricon, que leva a cozinha mediterrânea a Ipanema, também estava vazio no terceiro dia de 2019. Foi lá que Eduardo Cunha e sua mulher, Cláudia Cruz, jantaram em 22 de junho de 2016, dia em que o então presidente afastado da Câmara dos Deputados se tornava réu no Supremo Tribunal Federal pela segunda vez.

O Laguiole Lab, no Museu de Arte Moderna, no Aterro do Flamengo, era a escolha para conversas rápidas entre deslocamentos. O lugar, que fica a cinco minutos de táxi do aeroporto Santos Dumont, também oferece um menu de almoço por um preço singelo para os parâmetros dos acusados: por menos de R$ 100 por cabeça come-se à vontade.

UMA BARRA
E não é só a zona sul que sofre com o misto de crise política e econômica. A Barra da Tijuca, atual epicentro do poder, também levou um chacoalhão. O VillageMall foi inaugurado em 2012 para ser o epíteto do luxo da Barra. Nos primeiros meses, houve até excursão de bairros da zona norte para conhecer o shopping, que parecia um pedaço de Miami nos trópicos, com lojas como Gucci, Burberry e Tiffany & Co. Mas a cena nos primeiros dias de 2019 é outra: os corredores de granito e pedras nobres estão vazios numa tarde de janeiro.

A crise se manifesta na comunicação das lojas, por mais que, como tudo no mundo do luxo, os indícios sejam sussurrados: a Emporio Armani anunciou no Instagram do shopping: “produtos selecionados on sale da grife!”. Para o mercado do luxo, que teve crescimento de quase 8% em todo o Brasil em 2018, segundo dados da consultoria Euromonitor Internacional, é um sinal de alerta. E quem passeia pelo centro de compras percebe ainda mais indícios.

Uma edição limitada da Studio Bag, da grife italiana Salvatore Ferragamo, com apenas 95 exemplares pelo mundo, aportou no Rio de Janeiro em dezembro. Cada bolsa, prateada ou em combinação de cores fortes apelidada pelo mercado de moda de “color block”, vem com um número de série marcado no couro. Os exemplares de luxo sobreviveram ao Natal e Réveillon e na primeira semana de janeiro estavam lá, à venda, por perto de R$ 15 mil cada um. O shopping foi procurado para falar sobre a crise, mas preferiu não se manifestar. Uma vendedora loira e com a altura de uma modelo aceitou um emprego temporário no shopping de luxo para o fim de 2018. Diz que está arrependida. No ano anterior, tinha trabalhado durante dezembro numa loja de artigos esportivos. “Tirei R$ 8.500. Este ano, não chegou a R$ 3 mil”, ela lamenta. “Ainda bem que em loja de rico eles nem esperam que a gente sorria. Ia ser difícil sorrir sem vender nada.”