27.09.2020  /  9:00

Prestes a dar à luz sua primeira filha, Rara, a artista carioca Mana Bernardes compartilha sua visão como ativista, mulher e gestante à J.P

Mana Bernardes || Créditos: Lucio Kuriyama/divulgação

Prestes a dar à luz sua primeira filha, Rara, a artista carioca Mana Bernardes compartilha uma narrativa sobre sua visão como ativista, mulher e gestante neste momento tão particular e pelo qual passa o mundo

Por Carol Sganzerla

Grávida de Rara, a artista Mana Bernardes vem gerindo outros trabalhos com a mesma potência feminina. Começou a escrever o segundo volume de Ritos do Nascer ao Parir e prepara Toda Coragem É uma Escrita, sua primeira exposição individual, uma retrospectiva de 20 anos de trabalho, prevista para novembro de 2021, no Rio de Janeiro. Mana dedica-se também ao F.A.D.H.A.S, projeto que fundou e por meio do qual arrecada alimentos orgânicos para 200 famílias, além da campanha que ajudou a criar para amplificar a voz e a dor de Mirtes Renata Souza, mãe do menino Miguel que morreu ao cair de um prédio no Recife.

Não tinha outra solução por Mana Bernares

Origem
Doença
Drama
Dança
Cicatriz
Corte
Traço
Palavra arranhada
Papel amassado
Direito de vida
Vocabulário

Meu nome é Mana. Sou mulher, artista transdisciplinar e brasileira. Estou com 38 anos, grávida da Rara e constantemente ensinada a ser assumida.
Quando pequena, tive dúvidas entre seis profissões.
Rute-mãe me falou: “Seja artista, sendo artista você pode ser tudo”.
E assumi isso.

Aos 13, tive a barriga rasgada e aberta, não tinha outra solução.
Era operar ou morrer.

Antes disso, foram dois anos de hospitais. Nada de escola, nem amiguinhos, nem ninho, nem liberdade de corpo em crescimento e curvas nascendo.
Na verdade, vivi diarreias, sangramentos, dores.
Uma doença autoimune chamada Crohn atropelando meu corpo.
Mas tive o encanto de querer estar viva e é sobre isso que vim falar.

Sobre nutrir o desejo de viver.
O privilégio de não ser mais uma pessoa morta.
Disso ser maior que a dor.
Maior que a doença.
Que o corte, que a faca, que a tripa.
Desde o momento em que soube que poderia morrer, me fiz viva.

Aos 12, sabia que ter saúde era pouco.
Idealizei ser gostosa, transar, andar nua numa praia.
Mergulhar numa cachoeira por tempo de pedra quente e água fria.
Rebolo para me assumir como mulher com sentidos significados.

Minha cicatriz me conferiu atuar na dor do mundo.
No fundo e na superfície, esse corte que recebi é uma profunda ponte que faço com a ferida aberta que o mundo tem.

Como designer regenerativa, convido a todes a olharem e a fazerem um minuto de silêncio a essa ferida aberta que a Terra ou o mundo, como quiserem chamar, se encontra hoje.
Até hoje estou tecendo e costurando minha barriga que foi aberta.
Costuro com meus garranchos cheios de desejo por vida e sentido.

Costuro no escrever de livros ou poemas manuscritos em papéis e louças.
Costuro fios de conexão para levar comida da terra a mães da favela.

Costuro para que Mirtes Renata tenha sua fala estampada e aberta, para que possamos nos tocar.
Para que possamos trocar desenvolvimento por envolvimento. Passei um tempo com meu ativismo feito e pouco assumido.

Agora reconheço a arte como lugar de ativismo dito.
Não tinha outra solução.
Fazemos em coletivo uma campanha atrás da outra e, hoje, entre esses caminhos, sou parte integrante dos coletivos de apoio a Mirtes.

Na pandemia e gestante tudo passou a ser um despencamento sobre minha sensibilidade que me fez agir 100 vezes mais do que sempre agi.

Obrigada Rara, nossa filha.
Como você tem sido incrível e parceira.
Como é por você também que escrevo, com minhas letras, as falas da Mirtes repetidas tantas vezes até que todo o vocabulário dela amplie dentro de mim uma série de valores sobre ser mãe e ter amor numa sociedade injusta.
Por isso estou com Mirtes por justiça por Miguel.

Rara, valeu.
Sua mãe fez o F.A.D.H.A.S. assumidamente para que artes, direitos humanos, afetos e sustentabilidades possam estar dentro do currículo escolar do Grupo Creche Escola Comunitária Tia Maura na comunidade Pedra Bonita.
E estamos, meu amor, atuando em coletivo neste projeto com 200 crianças das redondezas e quem sabe já já podemos atuar em mais escolas, fazer disso um sistema brasileiro.

Rara, você é centro nutritivo do meu afeto pelo mundo.
Ter você aqui neste ventre é harmonizar o destino.
Mesmo que harmonizar seja um exercício e não uma pedra fixa.

Essa dança é nossa como mãe e filha e com seu pai como família.
Como já foi com sua avó e comigo e com todos os ritos do livro Ritos do Nascer ao Parir, que escrevi enquanto me empenhava pra conseguir de todas as formas que você chegasse ao meu ventre e agora você vai nascer.

O dia que você faz 40 semanas de intrauterina é dia 8 de novembro, dia em que fui parida. Pode ser que você venha antes ou depois.

Estamos juntas nesta pandemia.
Você está sendo formada com sua mãe.
Atuando muito para vivermos de forma sensivelmente firme neste mundo bambo.