A paisagem de Piracanga
A paisagem de Piracanga || Créditos: Divulgação

Piracanga zen: o novo destino de férias de quem procura algo a mais

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Cenas de Piracanga || Créditos: Divulgação
Cena de Piracanga || Créditos: Divulgação

Piracanga é o destino da vez para quem procura algo a mais. E não se preocupe se você nunca ouviu falar de lá, J.P abre tudo aqui e agora

Por Maria Clara Drummond para a revista J.P

A imersão é radical. Mas o feedback de aprovação é quase unânime: entusiastas de vários cantos do mundo e estrelados brasileiros abrem mão do conforto mundano a fim de atingir o autoconhecimento em Piracanga. Passar uma temporada, pequena ou grande, pouco importa, na ecovila e centro holístico que fica a uma hora de Itacaré, no sul da Bahia, é encarar uma verdadeira mudança de vida. Todos prontos?

É proibido usar xampu e pasta de dente. O substituto é uma espécie de chá no cabelo, que funciona de maneira razoável, sem maiores traumas. Difícil mesmo é abrir mão da sensação de boca lavada com hortelã para usar um pó de tonalidade amarronzada, com canela, para escovar os dentes. Só estão liberados os produtos de higiene biodegradáveis, para não sujar a água da ecovila. Os quartos podem ser individuais, duplos, triplos ou coletivos, com dez camas, mas é bom preparar-se para ter como possíveis roommates morcegos, tarântulas e outros bichos. As camas com mosqueteiras protegem os mais medrosos, e nunca houve nenhum caso de problema sério envolvendo essas companhias. Nem pense em levar secadores de cabelo, ferros de passar e notebooks: a energia solar é escassa. O sinal telefônico não pega, mas no restaurante há uma rede de wi-fi que funciona bem. “Como existem muitas restrições, Piracanga exige uma entrega humana para o espaço. Por isso, quem chega lá mal, pode não aguentar e ir embora mais cedo”, diz o chef e empreendedor social David Hertz, que há quatro anos tem uma propriedade na ecovila.

A paisagem de Piracanga || Créditos: Divulgação
A paisagem de Piracanga || Créditos: Divulgação

Piracanga fica num terreno longo e estreito e pega uma pequena faixa do mar. Comporta, além da ecovila na qual moram 200 pessoas do mundo inteiro, a pousada com 28 quartos e um dormitório, a Universidade Viva Inkiri, para jovens entre 18 e 28 anos, com palestras, meditação, vivências e especialização em alguma área, a Escola Inkiri, no qual as crianças têm sua autonomia respeitada, tomam decisões e têm experiências de aprendizagem a partir de princípios espirituais, um centro cultural, um laboratório, onde são feitos os produtos de higiene biodegradáveis, e uma escola de música.

Apesar do hype a sua volta, o clima é 100% hippie, e não exatamente hippie chic. Sim, a comida vegana é deliciosa, de modo que nem os mais adeptos da junk food vão sentir fome – o chef responsável pelo restaurante, Thales Leocádio, já ministrou cursos sobre alimentação natural na Alemanha, Itália e Portugal. Mas, depois de comer, todos precisam lavar os próprios pratos e talheres na pia comunitária perto da cozinha. Há casos de hóspedes que, mal-acostumados, reclamam, ao chegar nos últimos minutos do café da manhã, que o pão acabou. A resposta? Você não está num resort.

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Cenas de Piracanga || Créditos: Divulgação

Espiritualidade

São dezenas de terapias holísticas como massagens, reiki e cura xamânica, mas a maioria dos frequentadores vai em busca dos cursos de duração de dez dias, como o de leitura de aura, especialidade do local. Foi a fundadora de Piracanga, a portuguesa Angelina Ataíde, que trouxe a modalidade para o Brasil. A atriz Lívia de Bueno já visitou o centro holístico três vezes e fez o curso: “Meu objetivo não era ler aura, e sim me conhecer mais profundamente. Sinto que nunca trabalhei tanto a amorosidade e a compaixão quanto naqueles dias”. Para ela, lá não é um lugar para ir a passeio. “A energia é muito forte, acho importante quem quiser visitar, fazer algum curso para ter pessoas ajudando a entender o processo todo.”

Durante os cursos, mais intensidade. Em alguns casos, a refeição é preparada separadamente do restante dos hóspedes, de modo que há dias em que a alimentação é feita de sucos, e, no dia seguinte, jejum completo. É comum as pessoas sentirem enjoos e vomitarem durante a estadia. Por lá, isso é considerado um bom sinal, já que significa que existe uma limpeza (física ou espiritual) ocorrendo no organismo.

Há duas coisas que se nota ao chegar em Piracanga. A primeira é que as pessoas são realmente mais amorosas que o comum, e de uma forma verdadeira, diferente de certa espiritualidade fake da cidade grande. Outra é que há uma quantidade razoável de garotas de cabeça raspada. Não há nenhuma indicação para isso, mas o questionamento comum entre elas é: por que tentar parecer bonita por fora, quando se é um poço de insegurança por dentro? Melhor seria encontrar a beleza interior, que por sua vez exala para fora.

“O que mais me chama a atenção aqui é que é um lugar onde há muita consciência. Todos estão se trabalhando. Ao mesmo tempo que existe uma atenção especial sobre cada gesto e o tratamento em direção ao outro, é um lugar onde está todo mundo olhando para si mesmo e aprendendo sobre sua essência, e creio que isso seja realmente algo raro”, conta a artista visual Anna Costa e Silva, que estava lá pela terceira vez. David Hertz enxerga mais ou menos os mesmos atrativos: “Creio que o ponto alto é que há muita gente querendo se reinventar, viver mais o presente, se conectar consigo mesmo e repensar as relações com o outro e com a natureza. O resultado é um lugar que emana muito amor”.

A horta de Piracanga || Créditos: Divulgação
A horta de Piracanga || Créditos: Divulgação

Sonho meu

Como não poderia deixar de ser, Piracanga começou de uma maneira mística. Angelina Ataíde morava em Portugal e comandava um centro holístico no qual era professora de reiki e leitura de aura. Um belo dia, teve um sonho: nadava em uma água cristalina e era levada por golfinhos para um lugar onde havia um rio, o mar e uma floresta com coqueiros. Ao chegar à terra firme, sentiu uma sensação fortíssima de êxtase; e aí o sonho terminou. Na época, estudava com um xamã, que disse que ela encontraria esse lugar, nele viveria e realizaria todos os seus sonhos. Quando, 20 anos depois, numa viagem para Itacaré, em busca de recomeçar a vida a partir do zero, foi levada por um nativo para conhecer um terreno considerado mágico, soube imediatamente que era o lugar do sonho e se derramou em lágrimas.

Volta ao centro

Ao ver os cursos oferecidos no espaço, um deles chama atenção por ser convencional: as aulas de surfe com Wilson, que mora há dez anos na ecovila. No caso, o surfe, como tudo em Piracanga, é apenas um canal para se atingir algo além. Trata-se de uma mistura sui generis entre surfe e meditação, em que se faz, por exemplo, uma série de exercícios dentro do rio que simulam a volta ao ventre materno, que é absolutamente transformador. Aprender a ficar em pé em cima da prancha enquanto se ouve as palavras cheias de sabedoria do professor é, definitivamente, um dos pontos altos da viagem. Uma entrega total à natureza-mãe.