13.06.2019  /  12:37

Pioneira no jornalismo esportivo, Mariana Becker fala com Glamurama sobre o machismo na profissão e vida longe do Brasil

Mariana Becker // Divulgação

Mariana Becker é empoderada desde sempre. Aos 15 anos, a repórter esportiva da Globo começou a frequentar campeonatos de surfe e escrever sobre o assunto. Não à toa, as suas primeiras matérias foram sobre as mulheres no esporte. E todo esse pensamento é fruto da educação dada por seus pais: ela tem um irmão e três irmãs: “Meu pai fazia meu irmão levantar da mesa e lavar a louça como qualquer uma de nós”, lembra.

Aos 48 anos e mais de 10 anos fora do Brasil – atualmente ela mora em Mônaco -, ainda mantêm vivos os costumes de sua terra natal, Porto Alegre. Em entrevista ao Glamurama direto da Califórnia, o sotaque da jornalista não nega as raízes gaúchas. Sobre isso, ela brinca: “Eu continuo com o sotaque, guria. Na verdade, está cada vez mais forte”, brinca.

Pioneira no jornalismo esportivo, Mariana ainda é uma das poucas mulheres a cobrir os Grandes Prêmios de Fórmula 1, mas revela o quanto o mercado está mudando: “Atualmente temos mostrado mais a nossa voz e também estamos com mais coragem, não só para praticar esportes, mas para cobri-los”. Glamurama te convida a conhecer a Mariana Becker além da telinha no papo abaixo. (por Jaquelini Cornachioni)

Glamurama: Como é inspirar as mulheres a enfrentarem o machismo e ultrapassarem barreiras?
Mariana Becker: Acho super legal, o pioneirismo me estimula. Ser a primeira mulher a cobrir a Fórmula 1 e querer inovar nas minhas coberturas. Cobri o Rally dos Sertões e mostrei como era a sensação de competir quando participei da prova. Já nas regatas, quando você olha a competição de fora, parece tranquilo, mas dentro da vela é uma loucura. Em uma cobertura que fiz, tive a sorte de ter um barco só de mulheres e consegui gravar dentro. É uma honra encorajar as pessoas e mostrar que é possível.

Glamurama: Em algum momento chegou a ser assediada em ambiente de trabalho? Como reagiu?
Mariana Becker: O assédio acontece sim, mas muitas vezes de maneira velada, o que te impede de ter alguma reação exata. Na Fórmula 1 e no surfe não são tão frequentes. Mas no dia a dia é claro que já passei e passo por isso. Um exemplo é quando estou viajando a trabalho e fico hospedada em um hotel com muitos homens. Fico sempre esperta e com aquele medo de ser seguida. De qualquer forma, o cumprimento das leis nos dá mais proteção. Ainda não garantem equiparação de salário, mas o assédio diminuiu bastante.

Glamurama: Você já cobriu Circuito Mundial de Surfe, Fórmula 1, Olimpíada… Como é trabalhar em um meio predominantemente masculino?
Mariana Becker: Cobri isso e muito mais! Posso dizer com propriedade que hoje tem muito mais mulher trabalhando e fazendo esportes de maneira heroicamente profissional. E digo heroicamente porque patrocínio era, e ainda é, algo difícil. Antigamente as mulheres conseguiam patrocínio porque, além de boas, eram bonitas. Se as empresas não gostavam da sua aparência, azar. Aos poucos começamos a achar um jeito de lidar com essa situação. O machismo sempre existiu e sempre vai existir. Não vou negar que tive o apoio de muitos homens que foram bem legais comigo, mas também sofri.

Glamurama: Você é praticamente a única mulher a cobrir a Fórmula 1…
Mariana Becker: Sim, têm poucas mulheres, mas têm. Atualmente, temos mostrado mais a nossa voz e estamos com mais coragem, não só para praticar esportes, mas para cobrir pequenos e grandes campeonatos. Fico muito feliz com isso e principalmente por ter sido a pioneira nesse quesito.

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Fresh start, ele disse. #f1 @charles_leclerc

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Glamurama: Tem acompanhado a Copa do Mundo Feminina? 
Mariana Becker: Por conta do trabalho não estou acompanhando da forma como gostaria, pois ele exige minha atenção até a hora de dormir. É quase como uma mini copa do mundo a cada final de semana, além de eu ter que entrar ao vivo na TV. Mas já cobri a seleção feminina e isso não faz muito tempo. A experiência foi bem impactante. Quando comecei a cobrir os jogos das meninas, descobri que muitas trabalhavam também como empregadas domésticas e davam o sangue pelo futebol. Naquele ano, elas ganharam prata, um ótimo resultado, mas a CBF simplesmente ignorou o título, nenhum reconhecimento. É vergonhoso, absurdo. Felizmente isso está mudando, mas ainda é preocupante. Eu sempre vejo comentários sobre a beleza das meninas, como se importasse mais do que tudo. As mulheres sempre são muito julgadas e cobradas.

Glamurama: Quando decidiu seguir o caminho do esporte dentro do jornalismo?
Mariana Becker: Sempre fiz esporte e vai ser assim a vida inteira. Quando era jovem, viajava sozinha para surfar. Gostava de ter o meu tempo e aproveitava para escrever. Mas tudo começou mesmo durante os campeonatos de surfe que acompanhava. Não competia, mas me recusava a ficar só olhando, então passei a fazer boletim para rádios e vendia matérias que desde o começo falavam sobre mulheres. Gostava muito de observar a força das meninas, mesmo sem saber sobre feminismo naquela época.

Glamurama: Falamos bastante de trabalho, mas o que você gosta de fazer no tempo livre?
Mariana Becker: Gosto de estar em movimento, então ando a cavalo, nado no mar ou faço trilha. Também amo escutar música, isso é algo que faço o tempo inteiro, principalmente na hora de escrever um texto importante. Tenho uma playlist para cada situação.

Glamurama: Como foi a educação de seus pais em relação ao machismo e feminismo?
Mariana Becker: Os meus pais têm um menino e quatro meninas e nunca houve diferença de tratamento e estímulo profissional. Meu pai fazia meu irmão levantar da mesa e lavar a louça como qualquer uma de nós. Ao mesmo tempo em que isso foi ótimo, quando comecei a trabalhar não estava preparada para lidar com o machismo porque não entendia aquela realidade. Levei um choque de realidade. Mas aprendi a insistir nos meus objetivos e criar uma espécie de casca para não me abalar tanto. Ninguém consegue nos parar.

Glamurama: Do que mais sente saudade do Brasil?
Mariana Becker: Sinto muita falta da ‘mistureba’ que é o Brasil. A mistura de raças, culturas, religiões… Em todos os lugares que você olha, tem algo diferente para ver e apreciar. Aqui na Europa é tudo muito a mesma coisa.

Glamurama: Não perdeu o sotaque gaúcho. Isso também acontece com os seus hábitos?
Mariana Becker: Eu continuo com o sotaque, guria. Na verdade, está cada vez mais forte e não é algo que eu vá perder. Não abro mão do meu chimarrão e também tenho todas as facas de churrasco. Faço questão de ter perto para sempre lembrar de onde vim.

Glamurama: Como é a sua rotina em Mônaco?
Mariana Becker: A minha rotina é não ter rotina.  Agora estou na Califórnia para comemorar 10 anos de casamento. Mas essa falta de rotina acontece desde que eu morava no Brasil. É que vivendo em outro país parece que tenho menos tempo para as coisas. Para ter noção, cubro mais da metade dos GPs pelo mundo e a Globo sempre me chama para trabalhos extras, como, por exemplo, quando teve o ataque terrorista na França. Na Fórmula 1, tenho uma certa rotina: vou para o aeroporto, trabalho até domingo e segunda volto pra casa. Na terça, estou morta. Mas, mesmo assim, lavo roupas e fico pronta para qualquer trabalho que precise fazer.

Glamurama: O que tem em Mônaco que você queria ver no Brasil?
Mariana Becker: Talvez seja clichê dizer isso, mas ter segurança para aproveitar mais a liberdade. Sair a hora que quiser, para onde quiser, sem medo. Também tem a questão da poluição, aqui o ar é mais limpo, respiramos melhor.

Glamurama: Pretende voltar para o Brasil em algum momento?
Mariana Becker: Essa ideia sempre está nos planos. Mas, gosto muito de conhecer vários países e viajar. Como estou sempre em um local diferente, vejo muitas pessoas, tenho contato com outras culturas. Amo investigar o mundo.