28.11.2015  /  9:00

Piada e política: o humor ácido de Juca Chaves, o eterno Menestrel

||Créditos: Maria Antônia Anicetto
||Créditos: Maria Antônia Anicetto

Aos 77 anos, o menestrel – como prefere ser chamado – continua ácido e um tanto quanto amargo, principalmente com a política do país. Mas as piadas impublicáveis estão lá, boas como sempre

Por Fábio Dutra

Em um dos diversos vídeos que já publicou no YouTube, Juca Chaves explica aos incautos o que é menestrel, ofício que sempre reivindica quando perguntado sobre o que de fato faz. Piadista talvez fosse chulo, humorista talvez não abrangesse seus múltiplos talentos, artista talvez fosse muito geral. Ele prefere menestrel. Mas a verdade é que Juca poderia ser definido de qualquer um desses jeitos, sim. Ele se apresenta como Brad Pitt, para tirar sarro da baixa estatura e das feições que fogem do visual de galã. No ato já emenda duas ou três piadas impublicáveis e segue para a mesa sem tropeçar nos tantos trocadilhos. Estamos no Parigi, em São Paulo, reduto dos mais chics da cidade, mas Juca se sente à vontade – é, nos conta, frequentador do lugar. Ao contrário da ideia estereotipada de um artista desencanado, riponga que não dá valor às coisas materiais, ele gosta da boa vida. Nos anos 1960 e 1970, fazia propaganda de seus shows no rádio e na televisão com o hilário slogan “ajude o Juquinha a comprar o seu Jaguar”. Deu certo. Hoje, muitas décadas e alguns carrões depois, ele leva uma vida confortável ao lado da inseparável Yara, a sua Yarinha, sempre citada em qualquer conversa e que almoçará conosco, e as duas filhas, Maria Clara e Maria Morena, que adotou na Bahia e que hoje já têm 15 e 17 anos. Yara está elegante em trajes que poderiam levar um desconhecido a chutar que se tratasse de uma advogada ou de uma executiva. E Juca não faz por menos, empacotado em um paletó Hugo Boss claro, quase do tom de seus cabelos – entre o louro e o branco pleno.

Mal sentamos e já pergunto logo onde é afinal que ele mora – Juca Chaves é carioca, criado em São Paulo, filho de um judeu austríaco e de uma filha de judeus lituanos e há algumas décadas se mudou para a Bahia com grande alarde, para uma bela casa em Itapuã que reunia intelectuais e que levou muitos a acreditar que ele havia ficado rico e se aposentado, o que ele nega garantindo que jamais deixou de produzir. Tudo isso ficou para trás: ele vive em São Paulo, não vai à Bahia há dois anos, pelo menos – a casa está à venda e foi oferecida aos presentes em tom de brincadeira –, e a riqueza já não é a mesma de outrora. Ele explica que teve de devolver o teatro que mantinha, pois o aluguel era muito caro e com o “roubo da meia-entrada para estudantes” não era rentável, para não falar nos calotes que levou. Lugares fixos para se apresentar e garantir uma boa renda fixa também não tem sido fácil de conseguir, e quando aparecem não são o ideal, como o Bar Brahma, por exemplo. Recentemente, o menestrel chegou a anunciar que se apresentaria lá semanalmente,  mas a dificuldade em lotar a casa pelo preço que o interessava e as limitações do ambiente, barulhento e sem camarins, impediram que o projeto tivesse voo longo. Juca também nos conta que tem um Cadillac anos 1990 na garagem que acumula R$ 90 mil em dívidas de IPVA. Mas nada a ver com crise: “Não dá para pagar impostos para esse governo, são abusivos e não temos nada em troca, é só roubo. Não posso usar o carro, o que é chato, mas também não dou dinheiro pra eles”. “Eles” é o Partido dos Trabalhadores (PT), que fique claro. Em seguida, Juca comenta que o carro deve valorizar nos próximos anos e pode render bom negócio.

 

||Créditos: Maria Antônia Anicetto
||Créditos: Maria Antônia Anicetto

METRALHADORA

Somos seis pessoas na mesa, já que, além dos três da reportagem, do artista e de sua musa, também nos acompanha a assessora de imprensa, Daniela Schwery, que filma toda a conversa para o projeto “passeando por São Paulo” que o menestrel mantém no YouTube. Juca toma água com gás, diferentemente de Yara, que preferiu uma taça de vinho branco para acompanhar o steak tartare da entrada. O assunto política segue quente. Apesar de ter se notabilizado pela sátira (uma de suas piadas mais famosas se deu na abertura de seu circo Sdruws, com show de grande sucesso que manteve no Rio de Janeiro ao lado de uma favela, quando disse à plateia repleta de figurões, governador e prefeito entre eles: “Chamei o pessoal da vizinhança para explicar que a plateia era feita de gente importante no país e que eu queria saber como ficaria o negócio do roubo. Eles agradeceram, mas disseram que já tinham se precavido e chamado a polícia”), ele hoje fala de política com certa raiva. A piada é de 50 anos atrás, mas mesmo assim ele sustenta que roubo igual ao do PT jamais tinha ocorrido. Ao mesmo tempo, garante, houve o empobrecimento da cultura nacional, o público está vulgar e há pouco espaço para arte sofisticada como a sua. “Tem gente que vai a show pra dar risada de palavrão, coisa escrachada. São poucos os humoristas mais elevados”, argumenta. Danilo Gentili, que o convidou a participar de seu programa recentemente, seria uma das poucas exceções. De qualquer maneira, ainda que o sucesso e a grana não sejam os mesmos do tempo em que o Brasil era melhor, segundo ele, a popularidade não se esvaiu, não. Ele compôs recentemente a canção “Adeus em Ritmo de Lava Jato”, que virou hino da turma do Fora Dilma! e termina com o verso “adeus, PT, saudações”, trocadilho com o clássico encerramento de telegramas que, sem nenhuma modéstia, diz ser genial.

Para amenizar o papo pesado depois que o humorista discorreu sobre os alegados roubos de Lula, o absurdo de o político ter dado condições a todos de comprar carros – “Tem de ter é transporte público decente. Se todo mundo tiver carro, não dá pra andar” –, atacar as ciclovias implantadas pelo prefeito Fernando Haddad – “Tem de fazer em alguns lugares, em parques – São Paulo quase não tem parques! –, não na cidade toda atrapalhando a vida” – e garantir que competente mesmo foi Paulo Maluf – “Basta perguntar para qualquer chofer de praça. Eles é que conhecem a cidade” –, passamos a falar de cuidados com a saúde. Juca Chaves está mais do que conservado para os 77 anos que enverga, mas diz não malhar. Judoca, credita ao esporte a boa forma – e a habilidade para cair com maestria, algo valoroso depois de certa idade. Ele também praticou aikidô durante anos, o que lhe valeu para reagir a algumas tentativas de assalto – o que jura, diante de uma irritada Yara, jamais fará novamente. Além disso, cuida da alimentação, já que é diabético. O almoço, por conta disso, iniciou-se antes do meio-dia para que ele não ficasse muito tempo sem se alimentar, explica Yara, que a toda hora diz frases no imperativo para o marido, como ao proibi-lo de tocar nas batatinhas portuguesas “muito gordurosas” do couvert. Não é só a diabetes: Juca reclama que sua saúde sempre foi muito frágil e que já passou por muitas cirurgias. Na última, preocupado, teria perguntado ao médico se voltaria a andar, no que o doutor respondeu, de pronto: “Claro! Você vai andar até muito mais, já que terá de vender o carro”. Risos generalizados.

||Créditos: Maria Antônia Anicetto
||Créditos: Maria Antônia Anicetto

PIADISTA

Já estamos comendo – Juca enfrenta um filé de robalo com molho de tomates frescos e purê de batatas –, mas ainda não conseguimos parar de rir. Apesar de falar sério sobre carreira, política, família e tudo mais, Juca sempre interrompe a conversa com algum trocadilho, ou mesmo para contar alguma piada de que tenha lembrado. O clima é ameno e a reportagem chama os garçons para perguntar se algum deles tem algo a perguntar ao convidado. Eles lembram de algumas piadas do menestrel, expressam admiração, mas não têm qualquer pergunta a fazer. Ele de fato parece atrair plateias que esperam dele as histórias absurdas e as ácidas e inesperadas críticas, mas que não têm uma expectativa fixa sobre o personagem. Yara pede um tiramisu para dividir com o amado e vai embora assim que termina de comer a sobremesa. A assessora vai junto, mas o humorista faz questão de ficar. Pedimos a primeira de muitas rodadas de café e a impressão é de que o show acabou de começar. Todos riem muito das histórias e das piadas, nenhuma delas passível de ser reproduzida aqui. Impublicáveis, literalmente. Ele volta a falar de política: “Eu cantei em cima do trio elétrico no dia 15 de março (deste ano) e tinha pelo menos 1,5 milhão de pessoas na avenida Paulista. Os jornais disseram 150 mil porque estão com o governo. A imprensa é um caso sério. Por dinheiro é capaz de tudo, até de dizer a verdade”, diz. E também entra mais a fundo no tema família: “Ser pai de adolescente não é fácil, a mais velha está bem rebelde”, desabafa. Ele morre de medo da violência e não permite que as filhas frequentem “baladas”, incentivando-as a trazer os amigos em casa. Diz que a nova geração é 100% digital e não lê nada, que isso é um sinal dos tempos. “Mas no Brasil é ainda pior!”, e segue divagando sua antioswaldiana tese de que somos menos civilizados do que países como França ou Estados Unidos. E de que somos incapazes de assimilar o que há de mais sofisticado: “Brasileiro hoje vai a Paris porque está na moda, mas não para desfrutar do melhor da cultura parisiense e, sim, pra ficar tomando cafezinho”, acredita. Ele vai embora depois de mais de quatro horas de conversa. Não sem antes convidar os repórteres para irem a algum dos encontros que promove em sua casa e reúne diversos artistas. Ary Toledo, ótimo de piada “fora do show”, por exemplo, é assíduo. Despedidas e agradecimentos feitos, ele segue seu caminho. Menestrel, para o leitor curioso, é um “poeta medieval, cantor e plebeu, a serviço de nobres, reis e trovadores”, na definição do próprio exemplar moderno.

CHAVESBERG?

As piadas com judeus (incluído aí o próprio nariz) são recorrentes nas histórias de Juca Chaves, que, apesar de não ser religioso, é interessado nas tradições judaicas e sempre reivindica as origens. Mas de onde então surgiu esse sobrenome? É simples: o pai, judeu austríaco, tinha um nome bastante complicado que a burocracia brasileira decidiu simplificar no processo de naturalização, e Czaczkes tornou-se o similar – e popular – Chaves. A mãe, brasileira filha de lituanos, contribuiu com o primeiro nome, Jurandyr, “o que veio trazido pela luz do céu”. Em outubro de 1938, no Rio de Janeiro, nascia uma estrela.