29.04.2020  /  12:06

Para Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação, sociedade perdeu a bússola: “A falta de ética está carimbada na extrema direita”

Renato Janine Ribeiro || Créditos: Reprodução

Além de uma pandemia sanitária e da iminente recessão econômica, o ano do coronavírus ficará marcado por uma crise informacional. Se o movimento anticientífico já não soava como novo, ganhou facetas relevantes na visão de Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação no governo Dilma Rousseff e professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

“Informação não gera conhecimento. As pessoas têm sido informadas sobre o risco da pandemia, a quantidade de informação é abundante, mas é uma informação que não gera consciência, um conhecimento que não afeta a ação das pessoas. Vide a atuação do presidente da república e a falsa projeção saúde versus economia”, diz Ribeiro em entrevista para PODER, que ressalta a queda nos índices de apoio ao isolamento social amplo como resultado.

“Outro ponto crucial a se observar é a perda de bussola por parte da sociedade. A história costuma dar sinais, apontar direções, mas este é um daqueles episódios únicos em que o rumo é absolutamente ignorado”, explica, antes de lembrar circunstâncias semelhantes quando da queda das Torres Gêmeas, em Nova York, em 2001, e na crise econômica internacional de 2008. “São situações que vão contra todas as previsões. Por isso é tão importante ouvir as autoridades neste momento, as científicas.” A ênfase em ‘científicas’ serve para o ex-ministro evidenciar sua postura crítica a Jair Bolsonaro, que recusou a existência da pandemia, minimizou constantemente a sua gravidade e tem, seguidas vezes, ido contra a recomendações da Organização Mundial de Saúde – “os líderes mundiais em geral são muito fracos, não há um estadista sequer, mas o presidente do Brasil é hors concours.”

A descrença de Ribeiro é semelhante quando o professor, um estudioso da ética, discorre sobre uma eventual evolução humana diante da crise provocada pelo coronavírus. Segundo ele, a balança com o melhor e o pior do ser humano em tempos de Covid-19 está desequilibrada. “É interessante notar gestos de solidariedade, de cuidado com o outro. Mas as primeiras reações foram xenófobas. Veja que coisa louca: a União Europeia se formou derrubando fronteiras, mas hoje quase todas as fronteiras internacionais dentro da Europa foram restabelecidas em um movimento que denota descaso extremo com relação ao outro. A questão ética suporia solidariedade, mas o que nós vimos foi uma disputa mundial por… papel higiênico! É inacreditável. Isso sem falar daqueles que buzinam em frente aos hospitais e dos que impedem a passagem de ambulâncias nas ruas”, observa. “O curioso é que a falta de ética está muito carimbada na extrema direita.”

Para o ex-ministro da Educação, enquanto o mundo está afundado em um enorme estado de emergência, falsos conceitos têm sito apresentados, sobretudo por parte dos governantes, como alternativas reais de combate à crise. “A questão saúde versus economia é uma falsa projeção. Deveríamos entender que, numa situação dessa, a prioridade é salvar vidas, cuidar da saúde das pessoas. Isso é mais importante que todo o resto. É claro que, se nós pararmos tudo, depois de um tempo a economia vai cobrar seu preço e poderá faltar comida e etc”, alerta. Contudo ele ressalta que o Brasil tem condições de enfrentar a crise econômica, teria caixa. “O que falta é cabeça.”

“Essa é uma situação gravíssima. De duas semanas para cá um traço do presidente ficou evidente: é um sujeito de um ciúme desmedido. Ele derrubou o [Luiz Henrique] Mandetta e o [Sergio] Moro, dois ministros de Estado, por ciúme, porque passaram na frente dele. É sem razão, um quadro sem nexo.”

Outra falsa questão importante levantada por Renato Janine Ribeiro reside na possibilidade de escolha, por parte de profissionais da saúde, quando o sistema eventualmente colapsar e os médicos tiverem que decidir entre quais pacientes vivem ou morrem. “Me choca como essa questão é colocada como óbvia. A ‘escolha de Sofia’, ou fazer uma simplificação ética das coisas, não deveria existir.”