03.03.2017  /  11:33

Para Carlinhos Brown, letra de baixo calão “dilui como a cerveja no xixi”

Carlinhos Brown
Carlinhos Brown durante show em seu trio elétrico no Carnaval de Salvador 2017 || Créditos: Fernando Torres

Uma das figuras mais emblemáticas do cenário musical baiano, Carlinhos Brown bateu um papo com o Glamurama em meio ao Carnaval de Salvador. Entre os assuntos abordados, o melhor da essência baiana, o programa “The Voice Kids”, da Globo, onde atua como jurado, hits passageiros, protestos em seus shows e mais. Confira! (Por Julia Moura)

Glamurama: O que o resto do mundo tem a aprender com o povo baiano?
Carlinhos Brown: “O que o povo baiano tem a ensinar pro resto do mundo é a convivência. Nós convivemos baseados numa mistura étnica que realmente promove o que mais está faltando no mundo: coesão. Mas o que não quer dizer que não estejamos ameaçados, porque desde quando países e etnias são admirados por nós, se expõem através das novas mídias a ponto de um não entender o outro. Sem fronteira, né, na linguagem do poeta e do passarinho, que é voar sem que ninguém lhe barre. Isso nos afeta, é claro que pode nos influenciar. A convivência e a coesão fazem parte do quesito mais importante humano pra nós: a miscigenação e o sincretismo.”
Glamurama: O que mais te emociona em Salvador? 
Carlinhos Brown: “A liderança matriarcal que sempre, e todo o sempre, demonstra uma manutenção estética desde a culinária ao vestir e ao comportamento. E eu admiro muito essas senhoras que cuidam de seus filhos, que cuidam de sua família e têm na fé uma condução espontânea de cuidar do outro, de cuidar de alguém. Isso é realmente emocionante: o fato de alguém que você não conhece estar preocupado com qualquer tipo de sentimento ou dor que você esteja passando num determinado momento, buscando uma forma de amenizá-lo.”

Glamurama: Sobre o The Voice Kids, o que os adultos têm que aprender com as crianças?
Carlinhos Brown:
“Todos nós adultos e não apenas os cantores, aprendemos sim com as crianças. Mas no caso desse programa, o que os adultos precisam aprender com elas é a compreensão de que não há melhores do que nós, mas sim pessoas que têm uma disciplina maior e que se preparam melhor para se apresentar melhor. Outro fato é que as crianças não têm vícios, enquanto os adultos já vêm carregados de vícios do que já ouviram e de cantores que admiram. As crianças não. Elas tão entregues à possibilidade de cantar. Por isso elas entoam uma melodia ali, muitas vezes pensam a letra de outra forma, põe ritmo que transforma qualquer música já conhecida em novidade pros ouvidos.”

Glamurama: E o contrário?
Carlinhos Brown:
“O que as as crianças precisam aprendem com os adultos é a perseverança de que nós nunca podemos desistir, por mais que o mundo já tenha nos apontado no mundo profissional sucessos e insucessos. Os adultos continuam tentando porque acreditam bastante no que estão fazendo, sobretudo em seu dom, em seu talento – no caso nosso, no talento musical. Nunca é tarde para recomeçar e aprender.”

Glamurama: Este é um ano importante pra música. São 50 anos da Tropicália e 25 do Timbalada. O que você acha que tem sido produzido atualmente musicalmente falando?
Carlinhos Brown:
“Eu acho que o Brasil cresceu muito e se apurou muito em técnicas vocais e isso deu uma segurança junto à beleza do povo brasileiro de que isso basta pra ser artista. A música tem esquecido bastante a poesia e, por que não dizer, a melodia também, porque está apoiada em um ritmo que se consolidou e torna-se fácil fazer um hit. Por sua vez, a cada dia, esses hits ficam descartáveis. É uma forma de fazer música, mas eu acho que para um país onde todo mundo vai pra internet e fica buscando e fica questionando a educação, cabe sobretudo a universitários, pessoas de um grau de inteligência enorme, buscar uma forma de melhorar suas letras. A música de baixo calão não promove a família. Ela promove a festa, mas também dilui como a cerveja no xixi e não é o que acho que a cultura precisa ou o que nós queremos. Nós precisamos nos informar melhor e não ter medo dos sentimentos. Vejo muitas vezes apelando pra o que nós chamamos de estetização da figura feminina, de conceitos culturais e históricos, e ao mesmo tempo banalizando o sensual e erotizando tudo. E o erotismo na música pode parecer um filme pornô em looping em que em algum momento você passa a não sentir nada.”


Glamurama: O que você acha quando a plateia usa eu show pra protestar por algo?
Carlinhos Brown:
“Todo concerto é uma voz pra todos. A voz do concerto não é apenas do artista, é da plateia. O concerto dá voz a vários sentimentos e segmentos. Quando alguém utiliza seu show para protestar, é que ela tem confiança no artista e certeza de que ali vai ser ouvido.”