17.01.2018  /  9:00

Paquistanesas famosas aderem ao #MeToo para revelar abusos sexuais que sofreram

A estilista Maheen Khan, uma das mulheres que aderiram ao movimento hollywoodiano no Paquistão || Créditos: Getty Images

Se alguém tinha dúvidas sobre o poder de influência da #MeToo, basta dizer que a hashtag criada pela ativista social Tarana Burke e popularizada em outubro por atrizes de Hollywood em razão do escândalo sexual envolvendo Harvey Weinstein já chegou ao Paquistão, um dos países mais conservadores do mundo. Nos últimos dias, pelo menos três mulheres famosas de lá a usaram nas redes sociais para revelar casos de assédio e abuso sexual dos quais foram vítimas e, com isso, colocar o tema na pauta de discussão nacional.

A primeira delas foi a atriz Nadia Jamil, que já atuou em produções de Bollywood e hoje mora na Inglaterra. No Twitter, ela contou que foi abusada pela primeira vez pelo Qari Sahab (um tipo de orador oficial do Alcorão) da vila onde foi criada. “Também sofri violência sexual do meu motorista e de um membro muito bem educado de uma família da elite, que hoje é casado e mora em Londres”, ela postou no microblog. “Minha família queria que eu tivesse mantido o silêncio, mas a vergonha NÃO É MINHA! Nunca foi”.

A atriz paquistanesa Nadia Jamil

Em seguida, foi a vez da modelo e produtora de eventos Frieha Altaf, que revelou ter sofrido seu primeiro abuso aos 6 anos, sobre o qual nunca falou. “Hoje aos 34 anos, finalmente percebi como isso impactou minha vida. A única vergonha é ficar em SILÊNCIO”, tuitou. Já a estilista Maheen Khan, uma das mais famosas do Paquistão, chocou seus seguidores ao relatar que sofreu abusos contínuos do líder religioso que deveria lhe ensinar a ler o Alcorão. “Me solidarizo com as crianças sujeitas a esses atos doentios perpetrados por estes que se dizem guardiões da nossa religião”, desabafou ela.

Questões relativas a crimes sexuais, que raramente são discutidas no país do sul da Ásia, estão em alta por lá desde o estupro seguido de assassinato da menina Zaina Ansari, de 7 anos, que aconteceu há algumas semanas, pelas mãos de um suposto serial killer. A tragédia chocou os paquistaneses que, embalados pelo clima que domina o noticiário sobre Hollywood desde o ano passado, começaram a questionar certas tradições consideradas machistas pelo mundo ocidental que até então eram amplamente aceitas por lá. (Por Anderson Antunes)