08.09.2018  /  9:00

Othon Bastos interpreta Tancredo: “Se ele fosse vivo, o Aécio não teria chegado a esse ponto”

Othon Bastos como Tancredo Neves em “O Paciente” || Créditos: Reprodução

Quem conheceu diz que Othon Bastos parece ter incorporado Tancredo Neves de tão parecido que está com ele em “O Paciente”, filme de Sergio Rezende sobre o último mês de vida do presidente que não tomou posse, que estreia semana que vem. “Ah, incorporado, não… [risos] Mas tem um pensador que diz que o poeta é um medium que incorpora a si mesmo. O poeta vive vestido de palavras, e o ator de emoções. É por aí. O que esse homem sofreu, gente… Essa angustia toda, o coração sangrando”, disse Othon ao Glamurama. O ator comentou ainda sobre o legado de Aécio Neves, respondeu se é da turma que está fazendo as malas para abandonar o país e ainda contou onde estava quando toda essa crise histórica envolvendo a (não) posse de Tancredo aconteceu. Vem ler a entrevista completa! (por Michelle Licory)

Othon Bastos como Tancredo Neves em “O Paciente” || Créditos: Reprodução

“No filme é a verdade o tempo inteiro”

O longa mostra a agonia de Tancredo, precisando se submeter a uma cirurgia atrás da outra quando deveria estar assumindo o governo no Brasil pós-ditadura, depois de eleito por voto indireto. E não deixa barato para o Sarney, que era vice e acabou ficando com o lugar de Tancredo: fala em vários momentos de uma rejeição tanto do povo quanto dos próprios militares à figura do maranhense. “No filme é a verdade o tempo inteiro, não tem nada escondido, camuflado”.

“As pessoas iam pra porta do hospital rezar”

“Eu tirei do bolo da vida do Tancredo essa fatia que foram os 36 dias que ele passou no hospital [até morrer, em 21 de abril de 1985]. Vivi não um ser político, mas um ser humano que sofreu desesperadamente, querendo tornar o Brasil essa coisa enorme que ele imaginava, essa democracia fantástica. E sendo impedido por uma doença, que ele escondia no começo. Um homem que conseguiu o objetivo dele [ser eleito], mas entra no hospital na véspera da posse, com todo mundo festejando, os chefes de estado de fora chegando pra ver o recomeço da democracia no país e esse homem vai perdendo isso… Demorou demais para se tratar, quis dar essa esperança maravilhosa para o Brasil. Esse homem era uma esperança. Quem lembra da época, sabe. As pessoas iam pra porta do hospital rezar, gritar ‘Tancredo, viva!’ Mas ele não resistiu… Foram 36 dias, aos 75 anos, sete cirurgias. Não dava pra aguentar”.

Othon Bastos como Tancredo Neves em “O Paciente” || Créditos: Reprodução

“Vivemos anos inglórios”

Na época, onde estava Othon? “Estreando uma comédia no teatro aqui no Rio. Estranhamos que a plateia estava meio desatenta, preocupada. No fina da peça, a gente soube que ele tinha sido internado. Ficou aquele pânico… ‘Os militares vão deixar o Sarney assumir?’ Eles aceitavam o Tancredo, mas não gostavam do Sarney. Era missa, promessa, tudo pra que ele sobrevivesse. Mas não era o destino dele… Começaram os boatos, as mentiras… ‘Ah, levou um tiro saindo da igreja, envenenaram, deram injeção pra ele morrer… As ‘fake news’ da época. Passaram os cinco anos do Sarney, vivemos anos inglórios, até o país mudar, crescer… E o meu medo é que esses anos inglórios voltem”.

“Se o Tancredo fosse vivo, o Aécio não teria chegado a esse ponto”

Se Tancredo tivesse sido empossado, será que as coisas teriam sido diferentes mesmo? “Ninguém sabe se as coisas seriam diferentes, mas ele estava com muitos compromissos. E era uma pessoa delicada, inteligente, tinha um raciocínio rápido… Saberia como lidar, tinha uma firmeza de convicção”. Acha que Tancredo se orgulharia do legado do seu neto Aécio Neves? “Desse legado? Claro que não. Ali foi por outro caminho… E acho que se o Tancredo fosse vivo, o Aécio não teria chegado a esse ponto, não”.

“Acho que vai ser muito difícil por enquanto”

Qual a expectativa do ator para as próximas eleições? “Hoje existe muita incerteza. Não sabemos o que vai acontecer e há um radicalismo total e absoluto dos dois lados, esquerda e direita. Estou pensando no centro, centro-direita, centro-esquerda, centro-centro… Sei lá… Inventam tantos nomes e siglas… O importante é que o Brasil cresça, que seja um país humano, que acredite em quem está governando. Acho que vai ser muito difícil por enquanto. Ainda vai levar muito tempo pra isso…”

“Se morrer, é melhor pegar sua malinha e sair do país”

Não tem esperança? “Esperança não pode morrer nunca. Se morrer, é melhor pegar sua malinha e sair do país. Eu não sairia. Não saí na época da ditadura, vou sair agora? Com tanta experiência de vida? Temos que enfrentar. Minha vida é aqui, minha família é daqui, meu trabalho também. Tenho que ficar. O que posso fazer é peça e filme que ajudem a provocar uma modificação na cabeça das pessoas. Tem que mudar esse pensamento, olhar com olhos de razão, não de desespero”. E na hora do voto… “Chega no final do caminho, são várias direções e temos que escolher uma. Mesmo que esteja errado, siga seu caminho e deixe pegadas para que os outros aprendam com isso”.