05.07.2015  /  11:14

Os bastidores calientes das estrelas que marcaram época na Globo

||Créditos: Arquivo pessoal / Revista J.P
||Créditos: Reprodução / Revista J.P

Inaugurada em 1965, a Rede Globo precisou de rápidos cinco anos para se transformar em um fenômeno televisivo. Na década de 1970, já era uma fábrica fervilhante de fantasia, personalidades, glamour e, claro, polêmicas. De carona no aniversário de 50 anos da emissora, abrimos o baú e relembramos os escândalos e as estrelas que marcaram a história da TV brasileira – e dos brasileiros

Por Renato Fernandes para a Revista J.P

SANDRA BRÉA: A SUPERSTAR

First star da primeira novela em cores da emissora, Sandra Bréa estourou na mídia ao viver Telma, a filha do lendário Odorico Paraguaçu, na novela “O Bem-Amado”, em 1973. O sucesso foi estrondoso, e não demorou muito para escândalos fazerem parte de sua bem-sucedida carreira na emissora, comprometendo até mesmo seu talento: La Bréa começou a aparecer mais que seus personagens. Depois de se separar do engenheiro Eduardo Espínolla, Sandra passou a aparecer nas capas da revista Amiga em chamadas com namorados, noivos ou maridos novos. Uniões? Dezesseis no total, segundo ela.

Nudez também não foram poucas. Depois de seu primeiro nu para a revista “Status”, em 1975, outros vieram pelas sensíveis câmeras de Marisa Alvarez Lima e de Antonio Guerreiro, com o qual foi casada por dois anos. Em 1977, seu primeiro escândalo. Numa apresentação ao lado do apresentador Miele, em Tramandaí, uma praia do Rio Grande do Sul, às 4h30 da manhã, Sandra surgiu nua na sacada do hotel. Completamente alterada, desceu para o saguão, já vestida, e jogou um bule e uma cadeira nas pessoas com a ajuda do então companheiro Marcelo, filho do galã Carlos Alberto – “que também estava nu, na varanda”, conforme publicou o “Jornal do Brasil”.

Ronaldo Bôscoli dizia entre amigos que certa vez Sandra Bréa, apaixonada por um companheiro de trabalho – casado –, teria ido até a casa dele, perante sua esposa, vestindo apenas um casaco de pele aberto.

Em 1978, mais confusão ao filmar com Cláudio Cunha (falecido em abril) o filme “Sábado Alucinante”. Ela simplesmente deu um perdido no diretor e no elenco, que a esperou por horas. Estava em outro estado e chegou de jatinho, depois de uma tremenda bronca de Cunha. Durante a filmagem, Cunha chegou a ver uma série de barbitúricos na bolsa da atriz: Halcion, Valium e Rohypnol, além de maços de cigarros diários – que podiam chegar a quatro por dia.

Em seu último ensaio para a revista “Status”, em 1982, mais polêmica: La Bréa aparece de pernas abertas, com tudo à mostra. Coincidência ou não, logo depois a estrela mudou de emissora – foi para a Bandeirantes – e de marido também. Em 1985, voltou para a Globo, onde viveu sua última protagonista na primeira versão de “Ti Ti Ti”.

Em 1993, Sandra declarou ser portadora do vírus HIV. Depois de sete anos de luta, faleceu em maio de 2000. Ney Latorraca era um dos poucos amigos que ela amava receber em sua casa e já bastante délabrée, em Jacarepaguá. Star? Sempre.

Sandra Bréa ao lado de Antônio Guerreiro||Créditos: Reprodução/Revista J.P
Sandra Bréa ao lado de Antônio Guerreiro||Créditos: Reprodução/Revista J.P

NORMA BENGELL: A DIVA

O ano é 1978. A antológica novela “Dancin’ Days”, de Gilberto Braga, está com mais de uma dezena de capítulos rodados e prestes a entrar no ar. De repente, piti e dos grandes. A diva Norma Bengell, que havia pedido para seu nome aparecer como participação especial no elenco, soube por um amigo que ele apareceria em quarto lugar nas chamadas da novela. Norma, sempre intensa, também não concordava com a linha “machista” que o autor dera à personagem. Começou então a ligar insistentemente para Gilberto querendo discutir o papel.

“Enviei um recado que se o problema de crédito não fosse resolvido naquela noite, eu não gravaria mais. Daniel (Filho, diretor) não gostou e veio falar comigo. Disse que não aguentaria ataques de estrelismo. Irritei-me, e joguei longe o script, xingando o diretor”, conta na autobiografia, publicada após sua morte.

Quando foi entrevistado pela revista PODER, em 2008, a única pergunta que Daniel Filho gentilmente pediu para pular foi justamente sobre a atriz. E, resumo da ópera: Joana Fomm, que já estava no elenco da novela, teve de assumir Yolanda Pratini da noite para o dia. “Uma Yolanda merecidamente premiada”, como a própria Norma assume em seu livro, com certa dose de humildade.

Norma tinha tudo para ser uma grande estrela internacional, mas seu temperamento a impediu, como explica o autor e escritor Antonio Bivar: “Ela era vulcânica tanto no palco como fora dele. Seu passado de vedete muito contribuiu para sua formação com temperamento imprevisível. Sua rebeldia às vezes resultava em antiprofissionalismo”, conclui.

Já idosa, teve um problema de saúde e foi acolhida pela emissora. Durante anos, teve um personagem sem importância no humorístico “Toma Lá, Dá Cá”. A atriz faleceu em outubro de 2013.

Norma Bengell perdeu o papel em "Dancin' Days" para Joana Fomm em 1978. O motivo? Um ataque de estrelismo; abaixo, a atriz em capas de revistas antigas||Créditos: Reprodução/Revista J.P
Norma Bengell perdeu o papel em “Dancin’ Days” para Joana Fomm em 1978. O motivo? Um ataque de estrelismo; ao lado, a atriz em capas de revistas antigas||Créditos: Reprodução/Revista J.P

DJENANE MACHADO: A VEDETE

Quem vê uma senhora caminhando calmamente ao lado de uma dama de companhia pelo Bairro Peixoto, em Copacabana, provavelmente não se dá conta de que se trata de Djenane Machado, um dos grandes nomes da década de 1970 da Rede Globo.

Em 1973, sua personagem Bebel bombava na primeira versão de “A Grande Família”. Sua participação durou dois anos, e a fama não lhe fez bem: começou a chegar atrasada nas gravações e, um dia, segundo consta, não surgiu para gravar. Foi então substituída às pressas por Maria Cristina Nunes. Resultado: ficou dois anos na geladeira.

Foi a pedido de seu pai – o grande produtor do showbiz Machado – feito direto a Boni, que ela voltou à emissora para participar, em 1976, de “Estúpido Cupido”, no papel de Glorinha. Djenane mandou bem, mas os problemas com drogas e álcool já era um fato em sua vida. “Apesar da nova chance, continuava bebendo e usando anfetaminas”, já declarou.

Intensa, sempre foi e nunca escondeu: “Se pudesse escolher, estaria sempre no clímax. Quando me canso parto para outra até formar um novo ciclo de clímax e cansaço”, declarou ao jornalista Renato Sérgio, para a revista “Fatos e Fotos”.

Sobre o amor chegou a dizer: “Quem acredita no amor e o vive intensamente está sempre sofrendo ou vibrando também”. Foi casada duas vezes – com Paulo Pinho e Reinaldo Curi, que morreu de Aids. Excelente filha, cuidou dos pais até o fim, e ainda encarou a morte do irmão José Carlos.

Hoje vive do aluguel de dois imóveis que seus pais deixaram e saiu de cena. Sempre que encontra colegas da classe na praça do bairro em que mora é simpática, tem fala mansa, afável, e nunca descartou voltar. “Não existe essa coisa de ‘já era’. Muitas se reciclam muito bem e ela pode surpreender a qualquer hora. Djenane é estrela”, conclui Ney Latorraca.

Entre as personagens mais memoráveis de Djenane Machado estão Bebel, em "A Grande Família", e Glorinha, em "Estúpido Cupido". Como um furacão, ela estampava controversas capas de revistas na década de 70||Créditos: Reprodução/Revista J.P
Entre as personagens mais memoráveis de Djenane Machado estão Bebel, em “A Grande Família”, e Glorinha, em “Estúpido Cupido”. Como um furacão, ela estampava controversas capas de revistas na década de 70||Créditos: Reprodução/Revista J.P

LEILA CRAVO: A STARLET

Muita gente pode não se lembrar, mas essa distinta senhora de cabelo chanel que hoje caminha pelo bairro da Urca foi uma das grandes apostas da Rede Globo no início dos anos 1970. Nessa época, chegou a apresentar o Fantástico, além de participar de algumas novelas, como “Corrida de Ouro”, de 1974. Porém, os escândalos em que a então jovem se envolveu foram suficientes para colocar em declínio uma promissora carreira.

Os nomes Leila Cravo e motel Vip’s viraram quase sinônimos. Foi ali, em plena avenida Niemeyer, que seu corpo foi encontrado na noite de 11 de novembro de 1975, depois de sofrer uma queda de 17 metros. Onze dias de coma, calúnias, fraturas em todo o rosto e várias versões. Uns acreditavam em suicídio, outros falavam em estupro.

Leila até tentou uma volta. A emissora a escalou para “Te Contei?”, mas nada foi como antes. Chegou a participar de peças como “Very, Very Sexy”, apresentada em São João de Meriti, fez um ensaio seminu para a revista “Homem”, já com uma bem-sucedida operação plástica. Mas, em 4 de junho de 1983, um outro fato a fez sair de cena de vez: foi presa às 7 da manhã com um vidrinho que continha 8 gramas de cocaína, debaixo da mesa em que estava no restaurante Mamma Mia, na rua Prado Junior – uma das menos quistas no bairro de Copacabana. Leila ainda lançou um livro, “Passagem Secreta”, que teve boas críticas. Depois dos escândalos, mudou-se para o interior do Paraná com sua filha, que teve após o acidente. Lá viveu décadas e hoje está de volta à Urca, no bairro em que foi criada. Recentemente, teve uma foto publicada no blog da colunista Hildegard Angel, em que, surpreendentemente, seu semblante não apresentava marcas de tristeza, nem amargura.

Em 1975, Leila Cravo sofreu um acidente que teria sido um divisor de águas em sua carreira||Créditos: Reprodução/Revista J.P
Em 1975, Leila Cravo sofreu um acidente que teria sido um divisor de águas em sua carreira||Créditos: Reprodução/Revista J.P

MÁRCIA PORTO: A MODELO

Em meados dos anos 1980, a modelo e atriz Márcia Porto era capa de revistas como “Ele & Ela” e “Fatos e Fotos”. Belíssima, foi a única que fez a top Rose Di Primo titubear. Em 1984, a carreira de Márcia só ascendia: atuou na novela “Voltei pra Você”, foi personagem fixa no “Chico Anysio Show”, participou do programa “Caso Verdade”.

Em 1985, ela foi a sensação do Carnaval. Veio de Eva pela Beija-Flor, ao lado do mais belo Adão: Paulo César Grande. Ovacionada na Sapucaí, nunca imaginaria que em poucos meses um acidente iria tirá-la da fama, do glamour e dos holofotes da Globo. Em 15 de setembro do mesmo ano, ela atravessou, a 70 km/h, o pacato cruzamento das ruas Xavier da Silveira com Leopoldo Miguez, colidindo com o carro de um comerciário. Não pagou os prejuízos de Cz$ 10 mil, conforme condenação judicial, e também não compareceu a qualquer audiência. Ficou comprovado que Márcia dirigia imprudentemente e, condenada, precisaria dormir na prisão por dois anos – podendo trabalhar fora dela. Márcia foi para os Estados Unidos, onde dificilmente cumpriria a sentença.

Hoje ninguém tem mais notícias dela. Mas há rumores que seja casada e bem-sucedida. Há quem diga ainda que ela não estaria vivendo bem distante do glamour de outrora…

Márcia Porto foi tipo sensação em 1985, mas no mesmo ano também teve um grave contratempo||Créditos: Reprodução/Revista J.P
Márcia Porto foi tipo sensação em 1985, mas no mesmo ano também teve um grave contratempo||Créditos: Reprodução/Revista J.P

VERA FISCHER: A DEUSA

Membro de uma família tradicional de Blumenau – de herança, recebeu um quarteirão de casarões –, escândalos logo começaram a surgir na imprensa quando Vera Fischer se separou do ator Perry Salles e se uniu a Felipe Camargo. O casal, que viveu uma paixão avassaladora durante as gravações da novela “Mandala”, protagonizou cenas de agressividade em público e em casa, uma cobertura no Alto Leblon onde Vera vive até hoje.

Cabeça feita sempre foi: “Não julgue os outros para não ser julgado” é seu ditado de vida. Internações por dependência química, muitas. Talento inquestionável, desde que subiu nos palcos ao lado do então marido Perry Salles na peça “Negócios de Estado”, no Teatro Hilton, sempre fez bonito. Antes disso, teve de encarar as pornochanchadas, muitas.

Foi parar no cinema pelas mãos do ator e produtor David Cardoso. “Fui eu quem a descobri. Fiquei fascinado pela miss – sim, Vera foi Miss Brasil 1969 – e a convidei para ir a São Paulo falar com o diretor. Eu era o galã da hora. Foi contratada. Nunca deu problema. Texto decorado e pontual. Foi a mulher mais bonita e sensual com quem trabalhei”, conclui o ator.

Com Perry, teve a filha Rafaela. Com Camargo, Gabriel. É supermãe assumida. Mas os escândalos renderiam páginas e páginas. Chegou a perder a guarda do filho Gabriel, foi cortada de novela da qual era a estrela pelos excessos de atraso e, diz a lenda, se recusou a beijar Tarcísio Meira na boca – por achá-lo velho.

Fato ou não, sempre foi excelente esposa para Perry. Para ele, montou e o dirigiu em 2007 o espetáculo “Confidências”. Foram parceiros até o fim, quando ele faleceu em junho de 2009.

Posou nua, de pernas abertas e nada depilada, para a edição de aniversário da “Playboy”. Em 2014, mais escândalo: saiu carregada do tradicional camarote Rio, Samba e Carnaval e nem conseguiu entrar na Sapucaí. Atiraram pedras? Nada! Apareceu mais do que qualquer estrela que estava lá. No Facebook, foi defendida: “Vera é Deusa, ela pode tudo!”. E como pode.

cine-verafischer (1)
Vera Fischer viu sua vida pessoal virar notícia quando começou um conturbado relacionamento com Felipe Camargo. Atualmente, ainda protagoniza polêmicas, mas acaba defendida por fãs fervorosos || Créditos: Reprodução TV Globo/Juliana Rezende