16.05.2019  /  18:25

Onde estão nossas referências? Onde mirar? Em que mundo eu quero viver?

Piazza Navona em Roma // Crédito: Joyce Pascowitch

Tenho pensado muito nos exemplos que a gente tenta seguir, nos sonhos que a gente tem, na vontade de encontrar algo mais, algo além do que a gente é, do que a gente tem. Penso onde mirar, onde me espelhar. Por exemplo: São Paulo que poderia ser Nova York. Ah, como seria bom morar em Paris. E Londres, tem coisa melhor? Sim, essas cidades sempre foram referencias de um mundo melhor, mais justo, mais seguro, com mais oportunidades. Mas será que hoje em dia é isso que conta? Vale esse raciocínio? Talvez não mais. E é aí que mora a questão. Onde estão nossas referências? Onde mirar? Em que mundo eu quero viver? Confesso que Nova York não mais me seduz, assim como Paris, na verdade, nunca fez muito minha cabeça. Sim, amo Londres com tudo o que a cidade representa, mas será que hoje em dia esse continua sendo o caminho para uma vida mais plena, com mais conteúdo, mais feliz? Que faça mais sentido?

Temo que não. O mundo mudou, o homem mudou. Mas afinal, o que a gente quer? Acabei de voltar de uma semana em Roma. Escolhi o destino para uma semana de férias porque não estava interessada em ir a museus, galerias de arte, teatro, cinema. Até topava ir a algum concerto, mas não era esse o foco. Eu queria apenas ser feliz. Sentir coisas que não sinto normalmente, nem quando faço outras viagens incríveis. Mas sabe o que rolou? Uma coisa muito maior: fui assolada, invadida por uma onda de beleza, de exuberância, de volúpia. Um grande prazer tomou conta de mim, invadiu meus sentidos. Todos os dias, quando andava a pé pela cidade e via aqueles monumentos de Bernini, aquelas fontes, as ruínas do que foi um dia o mais poderoso império, me sentia cercada pelo belo, pelo iluminado, envolvida por uma onda dionisíaca. Que sensação afinal era essa? Por que isso aconteceu, esse tipo de “atropelamento”?

Porque eu me permiti. Porque eu fui atrás, em busca. Não queria mais informação, mas sim emoção. Acho que é justamente isso o que a gente precisa nos dias de hoje. Eu queria sentir, e não pensar ou racionalizar: apenas sentir. Enquanto as grandes nações correm em busca de poder e domínio, eu fico com o prazer. Com o dionisíaco. Para mim, o caminho é por aí, mesmo porque a outra via a gente já viu que não está levando a grande coisa. Não é mais esse tipo de referências ultrapassadas que a gente quer. Isso não vai nos levar a lugar algum. Eu prefiro ser arrebatada. Arrancada da mesmice. Ir na contramão: É lá que está o pote de ouro. O meu, eu já achei.

JOYCE PASCOWITCH