20.08.2018  /  16:27

” O Brasil tem uma dívida com os negros”, fala Fernando Grostein, diretor de “Quebrando o Tabu”

Fernando Grostein || Créditos: Paulo Freitas

Vai ao ar nesta segunda-feira, pelo GNT, o segundo episódio da série “Quebrando o Tabu”, um projeto de Fernando Grostein e Guilherme Melles, que começou com um documentário, virou uma página no Facebook, cresceu para outras plataformas e chega agora à TV. Ao longo de dez episódios, a equipe viaja o Brasil e o mundo conversando com pessoas de origens e opiniões diferentes sobre temas espinhosos como privacidade, aborto e LGBTfobia, de maneira descontraída mas profunda.

Para saber mais sobre o projeto, que promete ampliar o debate das redes sociais sobre direitos humanos em um momento importante às vésperas das eleições, Glamurama bateu um papo com Fernando. O cineasta pontua os grandes problemas da sociedade atual, destacando a relevância da série, e fala também sobre outros projetos, com destaque para “Abe”, longa inspirado livremente em sua vida, estrelado por Noah Cameron Schnapp (de “Stranger Things), com previsão de estreia para 2019.

Cena do episódio de “Quebrando o Tabu” que tem como tema o aborto || Créditos: Divulgação/ Canal GNT

Glamurama: Qual a sensação de ver um projeto que nasceu um documentário, virou página no Facebook e cresceu para outras plataformas, chegar à TV?
Fernando Grostein: “É muito legal porque, até onde eu sei, não há registro de nenhum projeto no mundo que tenha percorrido essa trajetória. Começamos quebrando um tabu que foi trazer uma discussão sobre legalização das drogas, que não foi confundida com apologia. Hoje é normal, mas em 2008 era muito diferente. A Globo nos apoiou em uma vasta pesquisa sobre o tema, na sequência Richard Branson, dono da Virgin, me ligou para fazermos uma adaptação do doc para o mercado internacional. O filme foi exibido em 22 países, ganhou lançamento nas lojas da Apple em Nova York e em Londres. Foi tudo muito especial. Criamos uma pagina no Facebook e Guilherme Mellis, diretor do projeto junto comigo, teve a ideia genial de expandir para outros temas. Desde que criei o projeto, lá atrás, já tinha desenhado para que virasse série, mas confesso que fiquei muito feliz em ver o sonho que eu tinha há 10  anos crescendo e tomando esta proporção, justo em um momento em que o mundo está precisando empoderar as pessoas.”

Glamurama: Na série são discutidos temas da atualidade de maneira descontraída porém profunda, permitindo que opiniões divergentes sejam ouvidas. Qual foi o maior cuidado que vocês tomaram para chegar neste formato?
Fernando Grostein: “Às vezes há uma dificuldade em traduzir depoimentos de acadêmicos para o grande público. Tem até um conceito de Youtube que propõe oferecer conteúdo que seja pertinente de uma forma gostosa. Ao mesmo tempo é arriscado fazer simplificações em nome do entretenimento – isso a gente não fez. Gastamos um tempo enorme com o roteirista da série, Joaquim Salles, pensando como colocar pessoas com experiência nos assuntos na linguagem do documentário, que tem uma pegada de filme de suspense.”

Glamurama: Depois de uma imersão tão profunda em temas como privacidade, prostituição, desigualdade racial, aborto, LGBTfobia, controle de armas, polícia, democracia, mudanças climáticas e privatização, o que você conclui?
Fernando Grostein: “Concluo que diversos tabus estão conectados com um tema que sempre gosto de discutir nos meus filmes: o combate ao obscurantismo. O que esta por trás da fobia contra os LGBTs, por trás das mulheres que devem e podem ser livres para tomar suas próprias decisões sobre seu corpo, é o obscurantismo se manifestando. Ele tem que ser combatido com lucidez: informação de qualidade pra ‘jogar luz’ nos cantos escuros dos debates.”

Glamurama: Qual dos temas da primeira temporada você considera mais urgente? Por que?
Fernando Grostein: “Desigualdade social. O Brasil tem uma dívida com os negros. As pessoas não têm consciência do que significa o quartinho de 5 metros quadrados da empregada. Meus amigos de banco adoram bater no peito e falar em meritocracia, mas não param para pensar no dinheiro que tiveram para investir em estudos, viagens e cultura, enquanto grande parte dos jovens afrodescendentes não tiveram acesso a estudo de qualidade, um lar estruturado e etc. Sabemos muito bem que se eu ou você formos parados com maconha pela polícia teremos um tratamento diferenciado por sermos brancos. Médicos negros, quantos temos? São nestas coisas que a sociedade precisa parar e pensar. É um tema muito difícil porque tem pessoas só enxergam o que elas querem. Frases como ‘eu não sou racista, tenho até amigo negro’, ou quando o negro vai em um restaurante nos Jardins e recebe olhares, ainda acontecem com frequência. As pessoas tem dificuldade de enxergar o racismo que está dentro delas.”

Glamurama: Qual o grande câncer da sociedade atual?
Fernando Grostein: “Obscurantismo. Estamos vivendo uma escalada de autoridade, uma época estranha em nosso desafio é fazer com que as pessoas se informem e tomem suas decisões com base na informação e na luz, e não em ódio e mentiras.”

Glamurama: Como estender os debates à vida, entre os amigos e familiares, sem criar conflitos?
Fernando Grostein: “Acho que quanto mais a gente for capaz de discutir temas difíceis, mais a gente cresce como ser humano. E para isso é importante ter a capacidade de entender que cada pessoa vive em um determinado contexto, que permite que ela enxergue algumas coisas e não outras. Quando você debate mais preocupado em crescer do que entrar em um braço de ferro, faz uma coisa que é enriquecedora e divertida.”

Glamurama: De que forma você acredita que a série pode ajudar a nutrir o debate por uma sociedade mais justa?
Fernando Grostein: “A série combina opiniões de pessoas com experiencias práticas no tema, como mulheres que abortaram e policiais, com a de grandes especialistas como o economista Armínio Fraga, e de importantes pensadores como Gilberto Gil e a ativista Djamila Ribeiro. Acho que essa mistura de pessoas contribui para qualificar o debate.”

Glamurama: Você gostaria de levar a série para a TV aberta? Você tentou fazer isso?
Fernando Grostein: “Seria um enorme prazer se isso acontecer um dia, mas ainda não há nada à vista.”

Glamurama: Você sempre foi um cara aberto para falar sobre tabus?
Fernando Grostein: “Não. Convivendo com alguns amigos queridos que tiveram a generosidade de trocar opiniões comigo fui ficando mais à vontade para discutir, me abrir, enxergar tabus e as coisas de outros ângulos. Por exemplo, lembro quando tinha uma opinião totalmente contrária sobre a legalização da maconha, até que li o livro ‘O Fim da Guerra – A Maconha e a Criação de um Novo Sistema para Lidar com as Drogas’, de Denis Russo Burgierman, e mudei totalmente a minha cabeça. Quando comecei a frequentar presídios pra filmar e fazer trabalho social, aprendi imensamente com os detentos. Quando comecei a namorar meu namorado, o Fernando, ele me mostrou o quanto é importante eu me posicionar abertamente como gay, o quanto isso contribui para que as pessoas vejam que não há problema nenhum nisso. Recebo muitas mensagens, muitas mesmo, de jovens dizendo que o fato de eu ter me posicionado ajudou eles a saírem do armário, mães dizendo que depois que me posicionei ficaram mais seguras em apoiar e aceitar os filhos homossexuais.”

Fernando Grostein com o namorado, Fernando Siqueira || Créditos: Reprodução Instagram

Glamurama: O que é uma pessoa careta para você? O que essa pessoa perde em ser assim?
Fernando Grostein: “Acho que careta todo mundo pode ser. Tem gente que não gosta de festas, de beber álcool, se arriscar, não tenho nada contra isso. O que acho um equivoco são pessoas fechadas, que vivem fechadas em seu condomínio mental, e não têm coragem de aprender e trocar com o diferente.”

Glamurama: Apesar de você ser um cara que atua mais nos bastidores, o que, por mais que seja uma figura pública, ainda lhe garante uma certa privacidade, é irmão de um dos apresentadores mais famosos do país, uma figura pública que acaba te colocando no foco da mídia de celebs também. O que você acha dessa superexposição nos tempos atuais?
Fernando Grostein: “Hoje em dia, com meu canal no Youtube e matérias que escrevo, isso tem mudado. Acho que cada vez mais todo mundo sabe de tudo, e o melhor a fazer é ser uma boa pessoa, o resto é consequência.”

Glamurama: Você toma alguns cuidados para garantir sua privacidade em seu dia a dia?
Fernando Grostein:
“Não, nenhum cuidado.”

Glamurama: Você e Luciano têm algum projeto juntos?
Fernando Grostein: “Já fizemos alguns projetos, recentemente ele produziu o filme que rodei em Nova York no final do ano passado, ‘Abe’, com Noah Schnapp, de ‘Stranger Things’, e Seu Jorge. Fomos parceiros também no longa ‘Na Quebrada’ e já dirigi alguns comerciais estrelados por ele.”

Glamurama: ‘Quebrando o Tabu’ ainda pode derivar outros projetos? 
Fernando Grostein: “A segunda temporada está em fase de desenvolvimento – inclusive aceitamos sugestões de temas – e temos planos de outras coisas que ainda não podemos falar, desculpe.”

Glamurama: Para um diretor, qual a relevância de ser premiado em festivais como Cannes (Fernando já ganhou prêmios em Cannes por campanhas publicitárias e pela série ‘Carcereiros’)?
Fernando Grostein: “O maior prêmio que podemos ter é sentir orgulho do trabalho que a gente fez. O resto não tem a mesma relevância.”

Glamurama: Além da série, você está com outros projetos em andamento?
Fernando Grostein:“Além da segunda temporada de ‘Quebrando Tabu’, estou finalizando o filme “Abe” e o documentário ‘Encarcerados’, que dirigi com Pedro Bial e Claudia Calabi. Ele deu origem à serie e ao livro ‘Carcereiros’.”

Glamurama: Fale um pouco do documentário “Encarcerados”. Como foi? Já tem data de estreia? 
Fernando Grostein: “Filmamos em oito prisões de São Paulo para entender um pouco sobre a realidade dos agentes penitenciários e, através deles, o sistema. Foi um processo muito enriquecedor, aprendi muito com os agentes e com os detentos. Ainda não tem data de estreia.”

Glamurama: E sobre o filme “Abe”? 
Fernando Grostein: “‘Abe’ é livremente inspirado na minha vida e conta a história de um menino de 12 anos do Brooklyn, Nova York que decide cozinhar para unir sua família, que é metade palestina, metade israelense. Seu Jorge é um chef de cozinha que está em turnê em Nova York e acaba sendo mentor do Abe. Uma coisa interessante sobre o filme é que a fotografia dele é assinada por Blasco Giurato, italiano que foi diretor de fotografia de ‘Cinema Paradiso’ (1988). A estreia está prevista para 2019.”

Glamurama: Em quais aspectos ele é inspirado em sua vida?
Fernando Grostein: “Sou de origem judia e católica, uma pessoa que acabou convivendo com realidades diferentes e isso é uma das coisas que me constitui. Gosto de falar com pessoas de esquerda e direita, ter amigos da periferia e de classes favorecidas, não gosto de me fechar dentro de um quadrado. Gosto de caminhar entre vários quadrados.”

Glamurama: Em ano de eleição, você pretende se posicionar politicamente?
Fernando Grostein: “Sou suprapartidário, não defendo partidos e políticos… Defendo causas, porque a dinâmica da vida partidária envolve disputa de poder e nisso se perdem as reais necessidades. Cada um no seu galho, o meu é estar do lado das causas.” (Por Julia Moura)