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Por Adriana Nazarian e Isabel de Barros para revista Joyce Pascowitch deste mês

“Menina menininha. O que ela vai comprar, eu não sei. Mas se ela quisesse comprar o meu amor, eu lhe daria de graça. Sobe e desce até cansar, depois vai pro Yara lanchar. Contando os babados e tomando o seu chá. Como eu queria ser o gato do lugar…”
Quem viveu a São Paulo dos anos 1960 e 1970 sabe perfeitamente do que se trata a música “Menina Gata Augusta” (1967), de Jorge Ben Jor. Quando o comércio no centro começava a ficar decadente e os shoppings eram inexistentes, flanar pela rua Augusta era o programa oficial dos jovens mais prafrentex da cidade. E, entre tantos estabelecimentos que se tornaram pontos de encontro na época, a casa de chá Yara marcou a história – e o coração – dos paulistanos cheios de pompa. Mas, afinal, o que fez do ponto, entre a rua Oscar Freire e a alameda Lorena, sinônimo de sucesso? Para muitos, o Yara virou hit da molecada porque ficava no melhor pedaço da Augusta e tinha um clima despretensioso. Como bem lembrou Ben Jor em sua música, era no Yara que os gatos e as garotas se encontravam no fim da tarde para bater papo, comer e, claro, flertar – sempre no maior clima família. Alguns nomes se tornaram lendas locais: Zé Roberto Deluca, Maria Cristina Lara Campos, o gatíssimo Bacurau, Calimério, Zonzoca, que lembrava o Alain Delon, e até Rita Lee, ninguém perdia uma tarde regada a chazinho. O fotógrafo Claudio Edinger lembra-se que “todo mundo fazia questão de ir”. A empresária Katy Borger, herdeira da Casa Tody, outro símbolo paulistano que este mês completa 60 anos, diz: “Naquela época, não era comum ir a restaurantes como hoje”, diz ela, que se recorda com nostalgia do bolo de árvore do Yara.

Assunção, Dante e Des Oiseaux 


Os rapazes mais “papo firme” sabiam que dar pinta no Yara era garantia de conhecer os brotos mais lindos da sociedade. E caprichavam no figurino: calça jeans Lee e camisa de fio escócia para circular. Nada de calhambeque: eles iam a pé ou, muitas vezes, a bordo de seu Karmann Ghia, Simca Tufão ou Berlineta Interlagos coletar o telefone das gatas. As meninas, não raro, apareciam de uniforme de escolas como Assunção, Dante Alighieri, Des Oiseaux, Madre Alix e Sacré-Coeur – tinha as que nem esperavam o sinal tocar e cabulavam aula para bater perna na Augusta. A habituée Pituca Alcântara e Silva se recorda do dia em que uma das freiras entrou em sua sala de aula no colégio Assunção atrás de uma de suas colegas. O motivo? Ela estava no Yara quando seu pai a procurou na escola. “Parece que ele chegou a entrar na casa de chá, revólver em punho, atrás dela”, diz Pituca.
Os bancões de courvin branco do Yara foram prova viva do tête-à-tête local: era uma tradição escrever os nomes dos pombinhos e até dos amigos que ali se sentavam. “Aquilo era um carinho, não era visto como agressão”, relembra a fotógrafa Vania Toledo, que tinha até uma mesa cativa no local – “a da lateral esquerda, perto da janela”. Entre o ice cream soda (sorvete de creme, groselha e soda), o croissant de misto-quente e a tortinha de maçã, casais deixavam claro que estiveram ali no verão de 1962. E até o garçom, um senhor rechonchudo e simpático, entrava na onda e costumava distribuir guardanapos com recados enamorados aos respectivos. “Ele era como um correio elegante”, recorda Vania.

COISA DE FAMÍLIA


A paixão da família Rothschild, fundadora do local, pela gastronomia era antiga. Tudo começou quando Ernesto Rothschild, que até então cuidava de outra empresa da família, a Brindes Pombo – quem não se lembra das famosas agendas? –, decidiu se aventurar em novas áreas e lançou o chá emagrecedor Vally. O nome foi escolhido para homenagear a matriarca do clã, Vally Calmon Rothschild. A família, então, inaugurou seu business na área de pâtisserie fabricando chocolates artesanais e marzipã. Os doces eram distribuídos nos cafés e restaurantes que possuíam – além do Yara, da Augusta, tinha a casa de chá Candy, no centro, a bombonnière Vally, também nos Jardins, e outro Yara, na avenida Santo Amaro. Depois de anos de sucesso, os Rothschild passaram a marca adiante e a história toda acabou se perdendo, influenciada pela decadência da rua Augusta. Charles Rothschild, neto de Ernesto, era muito jovem na época e se lembra pouco: “Os jovens sentavam em grupos e pediam uma bebida e vários canudos. Era o point”.

TAPETE VERMELHO


Os antigos habitués concordam em coro: o Yara era o fim perfeito de um dia de paquera na Augusta, que, em certas ocasiões, chegava a receber um tapete vermelho tamanho o glamour. O trecho quente, entre a rua Estados Unidos e a alameda Santos, era repleto de pontos considerados parada obrigatória. Entre subidas e descidas, a patota, munida de balas de cevada da Sönksen ou de balas de goma perfumadas da Kopenhagen, podia se reunir para ver um filme no Cine Paulista – e dali partir para o Yara. Um episódio marcante conta que o cinema foi destruído pelos jovens quando exibiu o filme Sementes da Violência, cujos créditos eram acompanhados por uma música nova, alucinante: “Rock Around the Clock”, por Bill Haley e seus Cometas. Era o tal do rock ‘n’ roll. Outra queridinha era a loja de discos Hi-Fi, na alameda Franca. Hélcio Serrano, figura lendária na indústria musical da época e dono da parada, trazia os discos que figuravam nas paradas da Billboard. A garotada, sedenta pelo som que vinha dos Estados Unidos, corria até lá para ouvir as novidades. “Os vendedores eram descolados e lindos, rolava a maior paquera”, diverte-se Carmen Vieira. O passeio ainda podia incluir um beirute com direito a chocolamour de sobremesa no Flamingo, e visitas a lojas, como a Old England, a Spinelli, com seus sapatos sob medida, a Tob’s com suas calças de veludo importadas tipo sensação e a perfumaria Rastro. Um clima quase provinciano que, infelizmente, virou história.

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