Gilda Midani
Gilda Midani || Créditos: Murilo Meirelles/Revista J.P

Revista J.P fez um Xis-Tudo com Gilda Midani. Ao bate-papo!

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Gilda Midani ||  Créditos:  Murilo Meirelles/Revista J.P
Gilda Midani || Créditos: Murilo Meirelles/Revista J.P

 Por Paulo Sampio para a revista J.P de outubro

Ela conhece Deus e o mundo, mas prefere estar perto dos monstros sagrados. Tarso, Gerald, Caetano, Elton John, os nomes vão surgindo naturalmente na conversa com Gilda Midani.  Multimídia de formação,  ela é fotógrafa, produtora, estilista, empresária e,  agora, aprende a tocar sanfona.

Faltava alguma coisa no currículo da fotógrafa, produtora de moda, figurinista, estilista, empresária e amiga de todo mundo Gilda Midani. Ela viajou o mundo inteiro, morou em Nova York e em Paris, acumulou em seu histórico afetivo relacionamentos com – entre outros monstros sagrados – o jornalista Tarso de Castro, o diretor Gerald Thomas e o produtor musical André Midani. Ainda é mãe de João Vicente de Castro, 32 anos,  comediante hype que namora celebridades como Cléo Pires e Sabrina Sato. Agora, Gilda resolveu aprender a tocar sanfona.

O interesse surgiu em Nova York, em uma festa oferecida pela host da pop-up que sua marca de roupa promove na cidade: “A Lisa Fox é uma australiana rica, muito bem relacionada. Na festa, tinha um sujeito chamado Paul Cantelon, fera em Liszt, tocando acordeão. Era acompanhado por uma cantora irlandesa maravilhosa [Cantelon é fundador da banda alternativa Wild Colonials (Los Angeles, 1992), junto com a vocalista Angela McCluskey]. Lá pelas tantas, depois de algum Dom Pérignon, peguei a sanfoninha e comecei a tocar. Fui apreciadíssima”. De volta ao Brasil, Gilda se consultou com o compositor Marcelo Jeneci, cujo pai era afinador de instrumentos musicais, e ele a ajudou a encomendar uma sanfona. “É toda fabricada na Alemanha”, explica ela. “Faz um som quando abre, outro quando fecha. Eu não sei dizer a diferença. Vou marcar as aulas.” Jeneci foi indicação de Arnaldo Antunes.

Na conversa com Gilda Midani, as referências nunca são menos do que mitos. Então, saem frases do tipo: “Eu estava em Londres fotografando o Elton John, quando conheci o Tuca [Moraes, diretor de fotografia, neto de Vinicius de Moraes], pai da Ana (Souza Dantas, filha de Gilda)”; ou: “A Paula e o Caetano me ajudaram muito com o João Vicente, quando o Tarso morreu. O Caetano é padrinho dele”. Ela conta que ficou em pânico quando o baiano a chamou para fotografar a capa do disco Velô, de 1984, porque achou que era muita areia para o seu caminhãozinho. Mas acabou resolvendo tudo na base da polaroide. E aproveitou o encerramento da temporada do show para fazer uma exposição das fotos. Gilda garante que sua aproximação de nomes consagrados não é intencional, só acontece porque gosta de “gente que tem algo a dizer”. Por coincidência, essa gente integra o grupo dos bombados de difícil acesso – nada de famosos pop (exceção feita a Sabrina Sato, que ela considera uma pessoa encantadora, com quem João Vicente tinha muito a aprender sobre o mundo dos paparazzi & celebridades).

Em uma foto de revista, Gilda aparece muito cool em sua casa de madeira e vidro, plantada no alto da Gávea, no Rio, na companhia de Mariana Ximenes, Bebel Gilberto, Marc Jacobs e o ex-namorado brasileiro dele. De vez em quando, ela agrega um personagem vintage ao seu histórico afetivo, como é o caso de Maria Bethânia, sua mais recente admiradora.  A cantora a chamou para assinar o figurino do show Agradecer e Abraçar, com base nas cores de seus orixás, iansã e oxum, vermelho e dourado. Desde então, elas se aproximaram muito. “Nada que eu fiz antes me deu tanto prazer, me deixou tão feliz. Considero o trabalho mais importante da minha vida.”

Gilda Midani || Créditos: Murilo Meirelles/Revista J.P
Gilda Midani || Créditos: Murilo Meirelles/Revista J.P

Pijama Disfarçado

Há cerca de dez anos, Gilda tornou-se empresária em uma marca de roupas que leva seu nome. Ela cria as peças, escolhe os tecidos e as padronagens. Deixa claro que, no processo, não faz nada de caso pensado para atrair consumidores compulsivos. E aí, de novo, aparece o marketing do “para poucos”.  “Procuro não me deixar contaminar por essa vulgarização dos valores, essa perda de consistência. Priorizo a qualidade, não a ostentação. Muitas das minhas roupas são pijamas disfarçados. Dentro delas, a pessoa se sente como se estivesse em casa.” Então, vem alguém e diz que roupa de ficar em casa não pode custar tão caro. A média de uma camiseta é R$ 500. Ela diz que pode, sim, desde que (a camiseta) não seja igual a tudo que já existe: “Não acompanho tendência e, por isso, minhas criações não perdem valor. Tem gente que tem uma peça Gilda Midani há uma década. Nunca suportei nada que fosse previsível. Comprei uma sanfona!”. O lançamento do verão 2016 foi com um forró em seu novo espaço, instalado no gabinete de arte do arquiteto Duilio Sartori, no Jardim Botânico do Rio, um lugar fora do eixo comercial óbvio (Ipanema-Leblon-Fashion Mall). A maior parte da coleção foi elaborada com algodão sustentável. As modelagens são amplas, soltas, e misturam alfaiataria com paetês, batiques feitos com cera de abelha e grafismos com um pé no expressionismo abstrato.

O ateliê fica em uma rua sossegada do Horto Florestal carioca. A mesa do escritório é grande, rústica e cercada de objetos curiosos. Uma tesoura e um martelo antigos (“adoro ferramenta velha”); uma pluma num balde com sálvia (“excelente para limpar o ambiente”); um frasco de aminoácidos; uma garrafa com álcool (“passo em tudo”); araras com roupas de coleções passadas e referências para as próximas; croquis e desenhos colados em  todas as paredes. Para dimensionar sua paixão pela moda, Gilda conta que, quando era pequena e sua irmã aeromoça viajava para Los Angeles, ela nunca pedia que trouxesse brinquedo. “Eu queria pijama de pezinho. A Disney foi o primeiro lugar em que eu me senti à vontade, porque podia vestir o que quisesse sem que as pessoas ficassem reparando. Voltei descalça, com uma camiseta tie-dye, colares hippies e uma peruca black power.”

Os funcionários do ateliê a idolatram. A responsável pelo marketing, Giovanna Bins, 25 anos, ex-namorada de José, “filho da Flora” (mulher de Gilberto Gil), afirma que Gilda é “muito cuidadosa e perfeccionista”. “O clima aqui é de liberdade, a opinião de todo mundo conta”, diz ela, que acompanha a entrevista. A estilista Mariana Villa-Lobos, 25, filha do cantor Dado Villa-Lobos, relembra que tinha feito faculdade de moda e estava desencantada até que recebeu o convite de Gilda para trabalhar: “Encontrei um conceito de moda que tinha a ver com o que eu acreditava. O processo é delicado, autoral, todo mundo vê de longe que a roupa é dela”.  A filha de Gilda, que é designer, considera o universo da moda “intragável”.  “É preciso um estômago que eu não tenho. Mas minha mãe tem. O Yohji Yamamoto tem”, diz Ana. Ela conta que, quando tinha 16 anos, achava as roupas da mãe “horrorosas”. “Oito anos depois, ela deve sentir saudade daquela época, porque agora eu roubo tudo para usar. É dificílimo encontrar uma marca que não me dê coceira só de olhar. Aí chega ela fazendo as coisas mais lindas e – detalhe – é minha mãe!”  Ana é assistente da  artista plástica Rita Wainer e tem projetos de pesquisa sobre dança em comunidades do Rio.

Gilda Midani || Créditos: Murilo Meirelles/Revista J.P
Gilda Midani || Créditos: Murilo Meirelles/Revista J.P

Elis, Tom e Gal

Em 2002, aos 42 anos, Gilda Barbosa da Silva se casou com o produtor musical André Midani, então com 70, e adotou seu sobrenome. Um dos mais respeitados executivos da indústria fonográfica dos anos 1950 aos 1990, Midani foi presidente das gravadoras Odeon, Polygram e Warner, produziu discos de Elis Regina, Caetano Veloso, Gal Costa, Chico Buarque, Tom Jobim e muitos outros. Atribui-se a ele o lançamento da bossa nova. Gilda o conheceu em um camarote de Carnaval, no Rio, quando estava grávida de 9 meses de Ana. Nada aconteceu, mas ela conta que o manteve em sua mira. Eles se tornaram amigos, Midani virou conselheiro dela até que, na véspera do  Réveillon de 2001, ele fez uma feijoada em casa e a convidou. Ela chegou tarde, rolou um olho no olho, ele disse que precisavam resolver aquela história. Gilda não queria colocar a amizade a perder. Midani garantiu que assumia a responsabilidade. Pouco tempo depois, os dois estavam morando juntos. E assim estão até hoje.

Muito pilhada,  Gilda mexe os dedos das mãos o tempo todo, como se estivesse dedilhando um violão (ou uma sanfona?). “Sou louca por essa cor”, diz ela, apontando para um detalhe num tom de verde cítrico. “É uma das que mais me acalmam a alma.” Conta que sofre de DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção) e que já tentou se tratar com Ritalina, “mas Deus me livre e guarde, aquilo tira a doçura da vida”. Dorme bem? “Graças ao Stilnox”, diz, rindo. Quando um radiestesista fez a mesma pergunta, ela respondeu que sim, chega a dormir 14 horas seguidas. “Ele explicou que não estava falando de ‘colapso’ (risos).” Gilda chegou a se submeter ao teste do sono, mas fugiu: “Eles me colocaram em uma sala toda fechada, em uma cama alta, cheia de eletrodos e eu disse:  ‘Assim eu não vou dormir nunca!’. Arranquei aquilo tudo e fui embora escondida”.

Em outros tempos, ela experimentou “de tudo”, no que diz  respeito a drogas. Assim: “Era tão natural!”. Não tanto que ela não soubesse a hora de parar: “Meu instinto de preservação é fortíssimo. Sabia quando começava a fazer mais mal do que bem. E sempre tive um lugar para voltar”. Apesar de ser  adolescente em meados dos anos 1970, ela viveu bem o desbunde, já que sempre frequentou os “mais velhos” – basta ver a faixa etária média de seus parceiros.

Órfã de mãe aos 12 anos,  caçula de quatro irmãos, ela conta que precisou “inventar realidades” para sobreviver. Diz que, na criação dos filhos, deixou-os livres (Tarso de Castro escreveu um texto sobre a experiência de ser pai solteiro, quando Gilda o deixou com João Vicente para ir viver na Europa). “Fui criada dentro de muita convenção, e isso não me trouxe nada. Não é da minha natureza. Meus filhos foram criados soltos, e deu certo. Vejo tanta gente seguindo bula e dá tudo errado.” Ana , a filha, diz: “Minha mãe deu pra gente o que acreditava ser a coisa mais importante para um filho: engatinhar entre gente interessante, rica de cabeça e assunto”. João Vicente não respondeu ao e-mail da reportagem, explicou que estava “muito ocupado”. Gilda diz que não conseguiria se privar das experiências que teve na vida.  Conta que pratica muito o que chama de “exercício do trampolim”. “Na dúvida, pula!”, diz, enquanto a tatuagem de um kamikaze grita no ombro dela.

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