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Por Julia Furrer para a Revista Joyce Pascowitch
Fotos André Penteado

Para quem esperava uma entrevista cheia de perguntas reflexivas sobre os temas que gostamos de pensar no fim do ano (leia-se a busca da tal felicidade, resoluções e o caminho para uma vida com menos angústias), uma das respostas mais emblemáticas de nosso entrevistado pode parecer, à primeira vista, um pouco desanimadora: “Sei lá, pergunta pro Contardo Calligaris [psicanalista e escritor]”. Mas a verdade é que o escritor Antonio Prata, 36 anos, é exatamente o que procurávamos para a edição: um olhar novo, de quem não tem respostas muito prontas e observa o cotidiano como um de nós. 

Filho do escritor Mario Prata e da jornalista Marta Góes, Antonio conquista leitores cada vez mais fiéis com sua coluna semanal na Folha de S.Paulo. Quando J.P chegou para entrevistá-lo, em um condomínio na Granja Viana, na Grande São Paulo, encontrou um sujeito tímido, de estatura baixa, com o cabelo até meio desajeitado, diferente do que alguns podem imaginar lendo suas crônicas. Trabalhando em casa – com vista para um jardim – ele leva dois dias para preparar cada texto e conta que, superperfeccionista, chegaria a uma semana se o deixassem.

Nascido em São Paulo, Antonio escreveu dez livros antes de ser contratado pela Rede Globo, no ano passado, como colaborador de João Emanuel Carneiro na novela Avenida Brasil. Para quem se divertiu com os diálogos bem-humorados do personagem Cadinho – alguém não? –, interpretado pelo ator Alexandre Borges, vale dizer que é ele um dos merecedores do crédito. Em 2013, Antonio teve outras grandes conquistas: Olivia, sua primeira filha com a também jornalista Julia Duailibi, e o livro Nu, de Botas (Cia. das Letras), com textos sobre a própria infância.

Para J.P, Antonio Prata fala sobre os excessos da internet, o valor do humor e o peso de um tempo tido como politicamente correto. Jura que o mundo está cada vez mais louco e acalma os angustiados de plantão: “Hoje tem essa exigência de que todo mundo apareça, essa falácia de que é fácil chegar lá. Não é verdade”.

J.P: Qual é a sua relação com a memória?
AP: Lembro-me bem de algumas histórias do passado, outras, só fragmentos. É claro que há várias coisas inventadas em Nu, de Botas, que achei que faziam sentido ali no contexto. Percebi que me lembrava de coisas que muita gente não se recorda durante um projeto institucional para a escola Viva, onde estudei quando criança, e onde passei dois meses assistindo aula junto com as turmas de 6 anos. Entre as memórias citadas no livro, a mais precisa era o telefone do Bozo (236-0873), que, na verdade, foi meu editor quem lembrou. O mais importante era tentar reconstruir minhas impressões daquele período.

J.P: O livro passa a impressão de que você teve uma infância saudável, sem tantas regras. Acha que sua filha terá uma criação diferente?
AP: Sim. Eram tempos menos controlados, não existia medo de pedófilo. Essa coisa de imaginar que qualquer um que se aproxima de uma criança vai querer fazer sexo com ela. As crianças ficavam meio soltas no mundo. Hoje tem pai, mãe, babá, professor, os mil cursos extracurriculares… Eles vivem quase em uma prisão domiciliar, uma liberdade vigiada.

J.P: E por que acha que isso aconteceu?
AP: O mundo mudou como um todo. A liberdade não existe mais. Ninguém se preocupava com colesterol nos anos 1970, nem com o sol. Não se tentava preservar a vida tanto assim. Era tudo mais nas coxas, em torno de alguns ideais e não da sua própria preservação. Hoje a criança nasce e as pessoas querem treiná-la para ser uma atleta da matemática. Sabe o que é Baby Einstein? Uma coisa idiota que fica tocando Beethoven com umas imagens coloridas para o bebê de dois meses assistir e, supostamente, ter o cérebro treinado. As pessoas estão muito loucas.

J.P: Em uma de suas crônicas você fala sobre um taxista que, após ter perdido a mulher, tenta achar uma foto dela sem maquiagem. Porém só encontra registros superproduzidos. Isso lembra a exposição das redes sociais. Como enxerga essa atual vaidade?
AP: A internet tem um lado maravilhoso que é a possibilidade de se criar uma rede. Se você é de Jaú, por exemplo, e procura sexo sadomasoquista, pode achar libertador descobrir que em Pirajuí existem outras pessoas na mesma. Mas a exposição nos deixa reféns da vaidade, faz com que todos percam a espontaneidade e as imagens sejam eventos de marketing pessoal. Há dois lados e é difícil dizer para qual a balança pende mais.

J.P: Você frequenta as redes sociais?
AP: Eu tenho Facebook, Twitter, Instagram, e vira e mexe interrompo algo que estou fazendo para dar uma espiada nas bobagens que estão por lá. É quase como a relação de um fumante com seu cigarro, sempre bate uma culpa de que poderia usar esse tempo para algo melhor.

J.P: A internet faz com que as pessoas falem coisas que não colocariam na vida real e com uma fúria desproporcional…
AP: As pessoas querem atenção e é mais fácil ganhá-la quebrando o vidro do que fazendo vitrine. O mundo que vivemos estimula isso. E é muito louco. Não sei porquê, mas ainda dá holofote falar mal da Preta Gil.

J.P: E você, é muito vaidoso com as coisas que posta?
AP: Também sou escravo desse espírito. Mas sei que a repercussão não significa muita coisa. Tem coisas que eu adoro e não fazem barulho, outras que não são tão boas e todo mundo compartilha. Mas claro que gosto quando as pessoas comentam e acham engraçado…

J.P: O humor é importante?
AP: Ele é uma espécie de covardia, um ressentimento não ressentido. É importante porque coloca em pauta temas que não seriam abordados de outra maneira.

J.P: Falta senso de humor nas pessoas em geral?
AP: Sim, porque o humor requer inteligência e conhecimento. É preciso ter um repertório mínimo para entender uma piada. E a maioria das pessoas é pouco alfabetizada e não sabe interpretar um texto.

J.P: Com a ironia é a mesma coisa…
AP: De vez em quando, nas minhas crônicas, crio obituários de pessoas que nunca existiram, com nomes tipo Sujismundo Franco, nascido em Quixeramobim, que compôs sinfonias para carrinhos de supermercado, e as pessoas não percebem que aquilo é um absurdo. Eu não acho que é um erro do texto, as pessoas é que não leem ficção. É como você ler um livro e falar: “Ah, até parece que a Julieta namorou um cara tipo esse Romeu aqui”, sem descobrir que é mentira.

J.P: E qual será o caminho para viver com menos angústias em 2014?
AP: Você precisa perguntar para o Contardo Calligaris (risos). Acho que é viver de um jeito mais simples. Ontem, meu pai e meu sogro estavam falando que o avô de um deles tinha um garimpo no Mato Grosso. Eu perguntei se ele era muito rico e ele disse que não sabia, porque naquela época não havia muitos bens de consumo e os ricos não tinham muito mais coisas que as pessoas da classe média. Não existia essa necessidade de esbanjamento, nem de aparecer. Hoje tem essa exigência de que todo mundo apareça, aconteça, essa falácia de que é fácil chegar lá. Just do it. Não é verdade. É uma em um milhão e o resto fica lá falando mal da Preta Gil.

 

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