Publicidade

por Paula Bonelli para revista PODER

Luiz Lindbergh Farias Filho estava no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, pronto para embarcar para Brasília no fim da tarde daquela fatídica segunda-feira, dia 17 de junho, em que os protestos, com milhares de jovens nas ruas, se espalharam por todo o país. Ao contrário de Charles Lindbergh, piloto americano que inspirou seu nome e ficou famoso em 1929 quando cruzou o Atlântico pela primeira vez em um avião, Lindbergh Farias perdeu seu voo.

Ao ver as cenas de violência e a confusão no centro do Rio, o senador petista e pré-candidato ao governo fluminense tentou falar com o filho Luiz, de 17 anos, que estava na manifestação. Como não conseguiu, voltou desesperado para casa. À noite, o jovem surgiu são e salvo no apartamento da família, no Leblon. Farias liderou o movimento “cara-pintada” que culminou no impeachment de Fernando Collor de Mello, em 1992, invadiu o Ministério da Educação, em Brasília, várias vezes e a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro para protestar contra as privatizações. Hoje, ele reconhece que mudou: “Engraçado: fiz tanta passeata na rua. Aí, você vira pai e fica preocupado”. O cara-pintada tem 43 anos.

O senador recebeu PODER para acompanhá-lo em seu dia de trabalho no Congresso Nacional e logo foi mostrando, orgulhoso, a foto do filho no celular com o rosto pintado de verde e amarelo. Aquela terça-feira, pós-levante dos jovens, foi um dia em que todos os maiores gabinetes levaram um sacode das ruas. A torre de babel habitual do Congresso de Brasília transformou-se em um caldeirão ainda mais fervente de pressões, estresse e cotoveladas políticas. Parlamentares, como Lindbergh, desesperados em busca de voz e de poder, acreditavam que tinham a melhor ideia e a melhor articulação para impô-la.

Lindbergh acabara de presidir a sessão da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, em que, articulado com o governo, incluiu na pauta o projeto de lei do deputado Carlos Zarattini (PT-SP) de desoneração da tarifa do transporte público por meio do abatimento de impostos sobre diesel, bens e equipamentos e a redução da alíquota de contribuição sobre a folha de salários de 2% para 0,5%. Era a solução do dia para reduzir o preço das passagens de ônibus e remediar os conflitos nas ruas. Relator do projeto no Senado, Lindbergh viu a onda se formar lá no fundo e sentiu que iria surfar nela. Por isso, deu entrevistas sem parar. Quando se deu conta, já eram 13h30. Gritou no corredor para a assessora, que tentava há tempos se comunicar com ele: “Vou para o hotel tomar um banho!”, diz, passando antes pelo plenário para marcar presença na sessão. Na saída, um pastor se engancha em seu braço. Ele repete insistentemente: “Passa no gabinete à tarde”. E se livra. Consegue, finalmente, chegar no carro, uma SUV Toyota Hilux prata que o espera na porta do Senado. A ideia é correr até o hotel Royal Tulip Brasília Alvorada, tomar o segundo banho do dia e estar de volta às 14h para presidir a audiência pública com o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini.

 

MOTO-CONTÍNUO
Segundo banho do dia? E o almoço? “Banho é mais importante. Para dar uma levantada. Eu saí de casa faz nove horas”, justifica Lindinho, apelido que Lindbergh Farias recebeu pela beleza física e a atenção à boa forma. Ele é triatleta. “Preciso convencer o Guido Mantega”, diz, ainda, fascinado com a proposta do preço das passagens. Pede para João, o motorista que faz as vezes de secretário, ligar para marcar audiência com o ministro da Fazenda. Primeiro, Tombini e depois, Mantega. Que dia!

O telefone toca. É o marqueteiro/conselheiro Valdemir Garreta: “O melhor lugar para dar a pesquisa é na coluna do Ilimar Franco”, diz o pré-candidato. Desliga e explica: “Saiu uma pesquisa de intenção de votos ao governo do Rio que deu Anthony Garotinho com 23%, eu com 21%, Pezão com 8%, Cesar Maia com 12%, Crivella com 10%. Tá muito bom. O Garotinho tem uma rejeição muito grande e eu tenho uma taxa de desconhecimento grande no Rio. Impressionante!”, sorri, confiante.

Enquanto a reportagem espera no saguão, Lindbergh toma um banho de 15 minutos e volta para o carro fazendo o nó da gravata com o chefe de gabinete de Alexandre Tombini ligando no celular. “Em cinco minutos estou lá”, responde. “Acelera, João!”, fala para o motorista, enquanto dá aulas para a oposição tucana. “É uma sessão importante com o Tombini porque vamos falar de inflação, juros e programação monetária. Acho que a oposição está desarticulada porque é um bom lugar para eles irem bater bumbo na inflação. Mas está havendo um almoço dos senadores do PSDB com  Fernando Henrique Cardoso”, comenta. Em cinco minutos, a Hilux encosta no Senado. Muito barulho por nada. A sessão foi vazia, poucos senadores, poucos questionamentos. Tombini esquivou-se fácil e rapidamente. Lindbergh, tampouco, fez perguntas ao presidente do BC.

Sessão terminada, Lindbergh se recolhe durante 20 minutos. “Está despachando”, diz o assessor. Ressurge esbaforido de seu gabinete do Senado. Finalmente, vai comer o almoço natureba, à base de arroz integral.

TROCA-TROCA
Como o pai Luiz, que é médico, Lindbergh fez medicina, mas só durante três anos. Com 16 anos entrou para a Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Depois, mudou para direito, curso mais compatível com as exigências do movimento estudantil. Também não concluiu. O pai também foi da UNE, vice-presidente em 1959, de esquerda, naturalmente: “Com o golpe militar de 64, ele foi para a França. Tinha uma biblioteca enorme. Depois, voltou para a Paraíba. Eu, com 14 anos, era o garoto politizado, sabe qual é? Aquele esquerdinha (risos). Gostava de Trotsky, Lenin… gostava de todos esses. Primeiro, de Che Guevara. Tinha uma coisa romântica com o Guevara, o médico que dedica a vida à causa do povo. É uma coisa muito bacana esse espírito da juventude de se entregar ao sonho de mudar o mundo. O Guevara era esse sonho”. Quando foi eleito secretário-geral da UNE, em 1991, o pai de Lindbergh estava na França. “Ele ficou desesperado, porque eu me mudei para São Paulo, onde ficava a sede. Foi para lá, tentar me convencer que aquilo era  maluquice. Eu olhei para ele e disse: ‘Mas você não fez isso também?’”, lembra. Na época, Lindbergh trancou o curso de direito e foi morar no Brás, bairro da zona leste paulistana. “Em uma república, que eles chamavam de ‘aparelho’, com o ex-ministro Orlando Silva e mais dez pessoas.”

Depois de presidir a UNE e liderar o movimento caras-pintadas, Lindbergh escolheu o Rio para seguir com a carreira política. Foi eleito deputado federal, em 1994, pelo PCdoB. Depois, rompeu com os comunistas e passou para os trotskistas do PSTU. Não conseguiu se reeleger porque a legenda não atingiu o coeficiente eleitoral. Rompeu com o PSTU. Em 2002, a convite de Lula, entrou no PT e foi eleito deputado federal. Elegeu-se prefeito de Nova Iguaçu, uma das principais cidades da Baixada Fluminense, em 2004 e 2008. Em 2010, chegou ao Senado como campeão de votos no estado. “O Rio abraça todo mundo que é de fora, não tem preconceito. Elegeram um paraibano para representar o estado. Mas o Rio tem isso. Elegeu o Brizola. Um negócio que me incomodava é que o PT era forte só na zona sul do Rio – e a Baixada Fluminense é onde moram 4 milhões de pessoas, os trabalhadores. Então, tive vontade de fazer esse trabalho. E também teve um cálculo político de criar raízes no meio do povo da cidade. Acho que fiz um movimento certo.”

Seu estilo é de líder popular, como o de Lula, não de um líder estudantil típico. Sem bravatas, só promessas, a não ser quando o assunto é o governo de Sérgio Cabral, o governador que ameaça detonar a aliança de seu partido com a base de apoio a Dilma, se Lindbergh sair candidato. “O Cabral teve relação de parceria com Lula e Dilma por muito tempo. Não pode chegar agora e colocar nesses termos. Não gosto dessa postura, não é democrático. Se eu puder dizer algo para o PMDB do Rio, eu digo ‘nos deixe em paz’. Sigam o caminho de vocês.” Lula o proibiu de falar mal de Cabral, mas Lindbergh garante que o ex-presidente deu sinal verde e apoia sua campanha a governador pelo PT – sem repetir o que fez na última eleição quando o obrigou a não sair candidato ao governo do estado.

Mesmo com os peemedebistas do Rio jurando de pé junto que vai acontecer, Lindbergh acredita que sua candidatura não romperá a aliança porque a Vice-Presidência deve ser mantida nas mãos de Michel Temer. Não se abala, dando o mote da campanha: “Acho que houve uma concentração de investimentos muito grande na Barra da Tijuca e na zona sul (no governo de Cabral). Acredito que isso criou um sentimento de Rio dividido. As pessoas estão reclamando muito”. Segundo ele, com metade dos R$ 8,5 bilhões destinados ao metrô de Ipanema para a Barra da Tijuca é possível transformar todos os trens da SuperVia que passam no subúrbio em metrô de superfície. “A meu ver, essas manifestações em São Paulo e no Rio estão associadas às dificuldades do povo na região metropolitana”, completa.

Fala durante mais 40 minutos sobre vários assuntos. Entre eles, os 15 inquéritos do Ministério Público (fase preliminar) que estão no Supremo investigando sua gestão em Nova Iguaçu, nega todas as irregularidades, diz que enfrentou um esquema poderoso de coronel na baixada, lamenta que a vida de político seja tão dura e conta que vai disputar a eleição oferecendo seu sigilo fiscal e bancário para todo mundo. Desafia seus adversários a fazer o mesmo. Atendeu à rádio Jovem Pan e explicou ao vivo, mais uma vez, o projeto de redução de tarifa. No meio disso tudo, ainda atende a uma ligação da ministra Ideli Salvatti para articular o projeto com o governo. Depois, ele para, afunda na cadeira e confessa: “Eu estou tão ruim. Bateu um cansaço agora…”. A assessora avisa que abriu o painel de votação no Senado. A adrenalina volta, ele se levanta e sai correndo em direção ao plenário. Vai votar. Votar em quê? Qual é o tema? “Eu não sei.” Depois da sessão, se reúne com Guido Mantega e o deputado federal Carlos Zarattini. O ministro diz que o governo federal se antecipou e já fez desonerações e que não há mais espaço para outras. A perda fiscal para a União com o projeto seria da ordem de R$ 4 bilhões.

No dia seguinte, a presidente Dilma e Lula, aflitos com o levante dos jovens, convenceram Fernando Haddad a arcar com custos da redução da passagem, desfalcando ainda mais os cofres da prefeitura de São Paulo. Geraldo Alckmin também arcou com esse ônus. Pelo jeito, os heróis de Lindbergh atropelaram o projeto que ainda está tramitando.

NOVA LEVA
Cinco jovens com muitos votos e disposição para a política

Amanda Gurgel, 32 anos, vereadora, PSTU do Rio Grande do Norte

Militante do movimento estudantil e representante dos estudantes de letras na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Amanda, que é professora da rede pública de Natal, entrou para o mundo da política de um jeito não convencional, em 2011. Na ocasião, participou de uma sessão na Assembleia Legislativa regional e fez um discurso sobre a precariedade do ensino público no estado. O vídeo, que teve enorme repercussão nas mídias sociais, deu a Amanda e ao PSTU – partido do qual é filiada desde 2010 – oportunidade de expor as insatisfações dos profissionais do ensino. “Não pude me insentar e dizer que não faria parte, pois as pessoas me cobravam uma posição”, diz. Amanda é uma das principais defensoras do projeto que prevê que 10% do PIB nacional sejam destinados à educação. Também participa da elaboração do projeto de lei Passe Livre e de outro na Câmara Municipal para limitar o número de alunos por sala de aula nas escolas públicas.

Domingos Neto, 25 anos, deputado federal, PSB do Ceará

Filho do vice-governador, Domingos Filho, e da secretária de Turismo de Fortaleza, Patrícia Aguiar, em 2009 foi convidado pelo atual governador do Ceará, Cid Gomes, a juntar-se ao PSB. Aos 22 anos, Domingos Neto foi eleito o deputado mais jovem do estado, e também o mais votado, com mais de 240 mil votos. A partir daí, assumiu a presidência da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Juventude, na Câmara dos Deputados e da Comissão de Desenvolvimento Urbano (CDU), onde atua para viabilizar as obras da Copa do Mundo, sendo também o mais jovem da bancada. Este ano, tornou-se secretário municipal da Copa. Busca recursos e defende as cidades que enfrentam o problema da seca no Nordeste. Seu projeto futuro é ambicioso: pretende reverter verbas do fundo partidário para a formação política de jovens, como em uma escola.

Manuela D’Ávila, 32 anos, deputada federal, PCDOB do Rio Grande do Sul

Militante desde os 16 anos, Manuela, que é jornalista, filiou-se ao PCdoB em 2001. Entre 2002 e 2003, foi membro do Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e diretora nacional da União da Juventude Socialista (UJS). Em 2004, com apenas 23 anos, foi eleita a mais jovem vereadora de Porto Alegre e, em 2010, foi reeleita deputada federal pelo estado com quase meio milhão de votos. Atualmente, Manuela é lider da bancada do PCdoB em Brasília. Relatora de projetos como o da meia-entrada em Porto Alegre, a regulamentação dos novos estádios e dos estágios, a deputada também é responsável pelo Estatuto da Juventude, cujo projeto – que prevê carta de direitos e deveres a jovens entre 15 e 29 anos – deve ser aprovado ainda este ano pela Câmara. Ainda está em aprovação o projeto que prevê igualdade salarial entre homens e mulheres.

Bruna Furlan, 30 anos, deputada federal, PSDB de São Paulo

Bruna acompanha a carreira política do pai, Rubens Furlan(ex-prefeito de Barueri e deputado federal), desde pequena. Em 2009, a convite de José Serra, então governador do estado, filiou-se ao PSDB. Bacharel em direito e pós-graduada em gerenciamento de cidades, é diretora voluntária da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) de Osasco. Um dos projetos de lei de que tem mais orgulho é a criação do fundo patrimonial em universidades federais. Esses fundos fazem muito sucesso nos Estados Unidos e na Europa como forma de custear a educação e investimentos em ciência e tecnologia.

Gabriel Guimarães, 30 anos, deputado federal, PT de Minas Gerais

Filho do ex-deputado federal Virgílio Guimarães, fundador do PT no estado, Gabriel é militante do partido desde criança. Formado em direito, já trabalhou como advogado tributário e também no Ministério Público. Eleito aos 27 anos, foi considerado o deputado federal mais jovem de Minas. Hoje é também titular da Comissão de Minas e Energia. Incentiva as políticas públicas para jovens e o fortalecimento do Ministério Público. Como político, uma de suas principais pautas é a reforma tributária para simplificar o atual modelo tributário do país, um dos mais complexos do mundo. “É importante que isso seja feito de maneira sustentável para pôr um fim à guerra fiscal”, diz o jovem deputado. Gabriel atua também no desenvolvimento sustentável da mineração e de sua regulamentação, além de lutar pela melhoria das condições dos mineradores. (por Maira Giosa)

 

 

VOCÊ TAMBÉM PODE GOSTAR

Instagram

Twitter