Murilébora ou Benicella? Débora Falabella e Murilo Benício para a Revista J.P

 

Débora Falabella e Murilo Benício | Foto: Maurício Nahas

O casal vive aquela fase do relacionamento em que parece indissociável. Muito conectados, eles mostram por que têm dado certo na ficção e na vida real.

Por Paulo Sampaio para a revista J.P de novembro
Fotos: Maurício Nahas

Com Débora Falabella e Murilo Benício, a conversa tende a ser séria. Talento consagrado na TV, Débora, 37 anos, diz que levou para o trabalho industrial a “noção do coletivo” que adquiriu em sua formação teatral. “O ator que não vem do teatro chega na televisão sem muita ideia de grupo, então na hora em que está fazendo a cena, muitas vezes ele nem sabe o que é troca.” Há 11 anos, ela toca um grupo de teatro que flerta com o experimental e com o “atípico”, e isso inclui a “formação de plateia” como “função social”. Entre outras iniciativas, o Grupo 3, integrado por ela e mais duas atrizes, costuma chamar o público para participar dos ensaios das peças. A atriz se refere a essa parte de seu trabalho como “artesanal”. “A gente não faz espetáculos pensando em retorno imediato. A gente quer levar o público a pensar.”

Já Murilo Benício, 44 anos, também astro de TV, é um ator de muitas ideias. Faz o tipo cultivado, que mergulha no personagem e estuda os projetos a fundo. Em sua estreia na direção de cinema, por exemplo, com “O Beijo no Asfalto”, baseado na obra de Nelson Rodrigues, ele apresenta algo diferentão. Conta a história da história que está contando. Metalinguagem, sabe? Algo na linha de Ricardo III – Um Ensaio, de Al Pacino, no qual os atores entrevistam pessoas nas ruas e discutem a melhor maneira de interpretar Shakespeare. No romance de Nelson Rodrigues, um homem é atropelado por um ônibus e, em sua agonia, como último desejo, pede ao bancário recém-casado que o socorre que lhe dê um beijo na boca. A cena é flagrada por um repórter policial que a explora indefinidamente. Filmado em preto e branco, o “Beijo” de Murilo Benício mostra “o processo dos atores” desde o primeiro contato com o texto até o produto final. A história do bancário Arandir (Lázaro Ramos) é mesclada com cenas dos bastidores das filmagens, imagens dos camarins, e tem Fernanda Montenegro no centro de uma leitura do texto, encomendado por ela ao dramaturgo há mais de 60 anos.

“Quis mostrar Nelson em uma linguagem simples, com a minha leitura, mas sem modificar nadinha do texto”, explica o diretor, que não atua no filme. Além de Ricardo III, a obra “tem alguma coisa de Synecdoche New York” (Philip Seymour Hoffman faz um diretor de teatro underground e meio sequelado que, de tão comprometido com a verdade na montagem de um espetáculo, começa a misturar realidade e ficção). Cauteloso, Murilo Benício rejeita a expressão “ousado”; prefere chamar seu projeto de “autoral”. No filme, Débora é Selminha, mulher de Arandir. Contando com a série “Nada Será Como Antes”, onde também rola uma metalinguagem, é a quarta vez que o casal trabalha junto. Em “O Clone” (Glória Perez, 2001), ela era filha dele; em “Avenida Brasil” (João Emanuel Carneiro, 2012), Débora fazia Nina e enfeitiçou Tufão/Benício, diga-se, aliás, os dois ao mesmo tempo. Tufão levou uma bota, mas Benício, não. Como no filme (Beijo), ficção e realidade se mesclaram; em algum momento daqueles 179 capítulos, os intérpretes se envolveram em um romance – que permaneceu secreto durante um bom tempo. “Somos muito discretos, tem gente que até hoje não sabe que nós estamos juntos”, diz Débora.

Débora Falabella e Murilo Benício | Foto: Maurício Nahas

Humilhação pública

A conexão entre os dois é tamanha que, se fosse em Hollywood, já teriam inventado para eles um nickname estilo Murilébora, ou Benicella. Benício cogitou chegar depois de Débora ao estúdio onde se fizeram estas fotos, para encontrá-la já maquiada e vestida, mas os dois acabaram aparecendo juntos. Ele veio do Rio, onde mora, e pernoitou no apartamento da mulher, em São Paulo, onde ela mora. Eles passam a maior parte do tempo a quase 500 km um do outro. Talvez esteja aí a explicação de um casamento tão longevo (pelo menos para os padrões de Benício, que costuma se envolver de forma, digamos, metalinguística, com as heroínas com quem contracena). “Eu devo voltar a morar no Rio no ano que vem”, planeja Débora.

Ela parece mais vulnerável a provocações que Murilo. Abordagens de assuntos delicados para atores de TV, como danos (para o ego) da exposição massiva, ou da fama, são encaminhadas por ela ao setor de reflexões profundas. A atriz diz que “existe um acreditar (por parte do público) em uma vida que talvez vá além do trabalho do ator; nosso trabalho é chegar, viver um personagem e ir embora”. “Só que há um entorno (audiência), e a gente sempre está sujeita a elogios, mas também à humilhação pública”, acredita. Com isso, Débora meio que justifica o comportamento eventualmente prepotente do ator: “Para não dar tanto valor a tudo o que dizem, você tem de se achar importante. Existe essa coisa de ir ficando inflado mesmo”.

Murilo é mais, por assim dizer, autossustentável. Ele costuma reciclar o elogio (não cogita a “humilhação pública”). “Às vezes você não acorda chateado? Não se achando tão bem? Aí você pensa no carinho dessas pessoas e fica melhor…Agora mesmo, eu estava há um tempão sem aparecer na TV, aí muita gente perguntava se eu não ia voltar. Isso é ótimo de ouvir, sinal de que gostam do seu trabalho.” Ele explica que, mesmo que um ator ouça várias vezes por dia coisas como: “brilhante interpretação” ou “você é muito mais bonito pessoalmente” – como não acontece, por exemplo, a engenheiros ou advogados –, isso não favorece necessariamente a construção de uma autoimagem deformada. Para ele, porém, é preciso usar o elogio com moderação: “Tem gente que pega esse ‘você é ótimo’ e leva às últimas consequências. Continua acreditando naquilo, mesmo no dia em que acorda ótimo. Aí, é demais. Acho que tem a ver com maturidade”.

Apesar de todo o amadurecimento, ele diz que Débora é mais corajosa quando se trata de assistir às próprias cenas na TV. “Eu sou muito covarde”, afirma. Por sua vez, ela considera “importante (assistir) para corrigir o que não ficou legal”. “Às vezes, você acha que a cena saiu de um jeito, mas não ficou exatamente como imaginou.” Posando para esta sessão de fotos, que tinha como referência “Hollywood antigo”, Murilo não pareceu tão covarde assim. Foi várias vezes ao monitor checar o resultado. Aparentemente, curtiu.

Love, love, love
O entusiasmo com que Débora e Murilo falam de seus projetos não é do tipo ruidoso. Está mais para o contido, elaborado, prudente. Ela ensaia para estrear no ano que vem o espetáculo “Love, Love, Love”, do inglês Mike Bartlett. “O texto mostra o que aconteceu com os filhos dos jovens dos anos 1970. Fala de duas gerações. Um casal que se conheceu naquela época aparece 20 anos depois, com as crianças já adolescentes e, mais tarde, com elas adultas, meio que vindo para acertar as contas com eles.” A obra de Bartlett desperta em Débora uma forte empatia. É dele também o texto de “Contrações”, com o qual o Grupo 3 ficou três anos em cartaz. Trata, em suma, de assédio moral. “O Bartlett é um autor de teatro contemporâneo, que escreve sobre assuntos muito próximos da gente”, explica. Por sua vez, Murilo Benício estará em dois outros filmes inéditos (até o fechamento desta edição), antes da estreia do “Beijo”; a comédia “Divórcio 190”, de Pedro Amorim, e o suspense “O Animal Cordial”, de Gabriela Amaral Almeida.
A sessão de fotos se estende por mais de quatro horas, mas Débora e Murilo chegam ao fim na maior elegância. Posando a bordo de modelos Prada, Hugo Boss e Ricardo Almeida, os dois empoderados trocam carícias eventuais, mas nada ostensivas, o que reforça a impressão de que eles formam um casal de verdade – não apenas uma dupla.

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Aperte o play para o vídeo de making of do ensaio do casal para a Revista J.P

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