Ex-símbolo sexual, Lady Francisco abre o jogo para a revista J.P

Lady Francisco e a cadela Estrela, que ela achou no lixão

Ela nunca teve um orgasmo, sofreu dois estupros e está há 28 anos sem transar.

Por Paulo Sampaio para revista Joyce Pascowitch de setembro

Quase 60 anos atrás, no dia em que foi provar o vestido de noiva, em Belo Horizonte, a jovem Lady Chuquer Volla Borelli Francisco de Bourbon aprendeu com sua costureira a fingir um orgasmo. “Ela me ensinou tão bem que eu passei o resto da vida fingindo. Nunca tive prazer no sexo.” Do tipo que alterna ressentimento e comicidade no discurso, a atriz Lady Francisco, que completa 80 anos em janeiro, acaba levando o interlocutor a rir de suas desgraças. E são muitas, ela mesma afirma. No dia do casamento, o futuro símbolo sexual ainda era virgem e “tão pateta” que nem imaginava que o noivo tinha outra família. “Um oficial de Justiça apareceu pouco antes para dizer que ele já era casado.” A cerimônia na igreja foi cancelada, mas o casal passou a viver junto. O noivo revelou-se um parceiro muito ruim de cama e, por isso, os ensinamentos da costureira se mostraram bastante úteis. Ela conta que foi “extremamente infeliz” no relacionamento e afirma que, se não fosse pelos dois filhos, Oscar Victor e Andrea, hoje na casa dos 50 anos, ela nem se lembraria do pai deles – que era engenheiro e trabalhava na Coca-Cola.

Ao reduzir o nomão nobiliárquico para a forma “artística”, Lady quis homenagear o pai, José Francisco, por quem tinha muita admiração. O primeiro nome dela foi escolhido por ele, que enxergou na recém-nascida algo de esnobe. Descendente de espanhóis, italianos e sírios, seu Zezé – cujo “Francisco” era uma tradução qualquer de um nome árabe – trabalhava como mascate, vendendo de porta em porta, até que abriu a Casa do Guri, de artigos infantis, e ficou rico, muito rico – e influente. Em seu casarão de “20 cômodos” no tradicional bairro Floresta, de BH, a família recebia políticos graúdos, o prefeito, o governador e senadores da República para concorridos cocktails dançantes. Até Juscelino Kubitschek era íntimo de seu Zezé. Nessas ocasiões, o comerciante fazia questão que as filhas se apresentassem impecáveis e que as reconhecessem como as moças mais elegantes da cidade. Lady, que sofreu bullying da própria mãe, era considerada a mais feia das três irmãs: “Ela só tem pernas e olhos”, costumava dizer dona Mathilde. Na época, o comportamento elétrico da garota, que tinha também desmaios atribuídos a uma alegada mediunidade, levou os pais a consultarem um psiquiatra. “Hoje sei que aquilo que me aplicavam era choque elétrico.”

MISS PERNAS

Na conversa com a atriz, percebe-se que a pecha de patinho feio produziu nela uma necessidade obsessiva de provar que era atraente, da qual foi refém pela vida toda. Antes de se casar, e passar a ser apenas dona de casa, já tinha sido aeromoça, radialista e se sagrado Miss Olhos, Miss Pernas, Miss Busto, Miss Ferroviária. Depois, se tornou uma atriz muito famosa em Belo Horizonte. Para quem estudou no lendário Colégio Sacré-Coeur de Marie e quase se tornou noviça, era um upgrade e tanto. “Eu era a tal em Belo Horizonte, a rainha da TV. Não tinha a Hebe Camargo em São Paulo? Pois eu participei da ‘infância’ da televisão em Beagá, fui uma das que a inauguraram a TV no Brasil. O (Assis) Chateaubriand era amigo do meu pai, frequentava nossa casa.”

A carreira no Rio, e na TV Globo, veio depois que ela deixou o marido – e a profissão “do lar”. Seguiu-se um período muito difícil, em que foi preciso recomeçar do zero, já que seu Zezé havia perdido quase toda a fortuna no jogo. “Eu tive de entregar cada casa que ele passou para o meu nome, uma por uma, para pagar as dívidas.” A família ficou praticamente na miséria. Lady mudou-se sozinha para o Rio decidida a vencer na carreira artística. Foi morar na rua Xavier da Silveira, em Copacabana, onde dividia um beliche com uma garota de programa. Passava os dias na porta da TV Tupi, na Urca, tentando uma oportunidade. Então, foi assaltada na rua e ficou sem dinheiro para pagar o quarto. Despejada, dormiu e comeu por quase uma semana na barraca de uma família de pernambucanos na praia de Copacabana – sem deixar de frequentar a porta da TV.

SEXY MA NON TREPPO

Um dia, a chamaram para inteirar o júri do programa de Flávio Cavalcanti. Já estreou cheia de decotes e fendas. O curioso é que, quanto mais o símbolo sexual se impunha, mais Lady se distanciava daquilo que se esperava dela na cama. Um clássico. A mulher não dava conta do personagem que criou para si. Ao mesmo tempo em que lembra com orgulho que já era uma senhora entrada nos 40 quando foi eleita modelo de boneca inflável pelos mineradores de Serra Pelada, num concurso de uma revista da editora Bloch, ela afirma que não faz sexo há 28 anos: “Eu ficava nua no palco numa boa. No quarto, com os homens, tinha a maior dificuldade. Descobri que nunca fui muito de sexo”.

Apesar de ter trabalhado 25 anos na Globo, jamais teve salário de estrela. Ganhava como “funcionária”, não como contratada ou por obra fechada (novela). “Quando fui mandada embora, depois de todo aquele tempo, me pagaram R$ 10 mil.” Foi demitida pela temida Marluce Dias da Silva, que então ocupava o lugar que tinha sido de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Marluce acabou, ela mesma, demitida da emissora em 2002. “Tomei horror aquela mulher”, diz Lady, sem rodeios. Entre os personagens mais marcantes da atriz na emissora estão Rose, da primeira versão de Pecado Capital (1975, Janete Clair); Eleonora, de Marron Glacé (1979, Cassiano Gabus Mendes); e Gisela, de Louco Amor (1983, Gilberto Braga). Em sua 25ª novela na Globo, Geração Brasil, atualmente no ar, ela interpreta a fofoqueira Marlene, um papel distante léguas dos protagonistas. Ainda assim, Lady diz que vai saltitante de alegria para a emissora, que fica a cerca de 35 km de sua cobertura no bucólico Parque Eduardo Guinle, Laranjeiras. Faz questão de dizer que o apartamento é seu único bem e que foi comprado a duras penas com o dinheiro de um espetáculo que apresentou em Portugal. “Não entendo ator que fica resmungando enquanto espera para gravar. Já que está ali, tem de ser bom, né? Eu adoro trabalhar.”

NOVAS PROPOSTAS

Durante a longa passagem pela Globo, mesmo quando estava no ar ou fazendo teatro, a “funcionária” permanecia dura. “Hoje, quando vejo a fortuna que essas meninas faturam, percebo que nunca soube ganhar dinheiro, era uma boba.” Lady Francisco alimentava-se, basicamente, de elogios ao seu sex appeal. Nos anos 1970, participou de mais de 20 filmes com títulos como O Roubo das Calcinhas, O Preço do Prazer e Viúvas Precisam de Consolo. Em diversas comédias na TV, teatro e cinema, repetia o papel da “tolinha gostosa” e sofria preconceito dos próprios colegas. Atores que se consideravam especialmente “shakespearianos” não queriam ser colocados no mesmo balaio que ela. “Teve atriz que me mandou ficar quieta, dizendo que o resto do elenco é que tinha de aparecer. Eu estava ali para fazer o que eles mandassem.” Em outra ocasião, quando contracenava com um comediante e levou o público a cair na gargalhada, ouviu dele: “Quem está aqui para fazer rir sou eu, não você. Então, fica na sua!”.

À medida que se expunha como “boazuda” – e ela se empenhava cada vez mais, sem medo de parecer vulgar – atraía telefonemas de gente interessada em pagar pelo que, imaginava-se, oferecia. “As cafetinas ligavam para a minha casa diariamente fazendo propostas. Um dia, resolvi aceitar.” Ela não conta o nome do cliente, diz apenas que era político e muito conhecido. Ao chegar ao local marcado – uma garçonnière, como eram chamados os apartamentos que os poderosos mantinham para esses encontros –, ela lembra de ter sido tomada por um forte constrangimento. “Disse a ele que nunca tinha feito aquilo, pedi que fosse com calma, passamos umas duas horas conversando, não aconteceu nada, só uns beijinhos. Ficamos amigos, ele me mandou até presente depois.”

CORAÇÃO EM FRANGALHOS

Junto com a persona do símbolo sexual, Lady gosta (até hoje) de vender a da moça ingênua, falando, inclusive, com vozinha de criança. Isso, segundo ela, gerou um mal-entendido que seria a causa de alguns episódios pesados que teve de enfrentar na vida. Certa vez, acreditando no diretor de TV que a chamou para um teste, ela acabou sendo “sexualmente abusada”. “Nunca me esqueço da situação. Foi numa casa com uma entrada lateral. Só quando me vi dentro do quarto com ele, entendi do que se tratava. E aí, o que eu ia fazer? Gritar?” Ela se recusa a dizer o nome do tal diretor, mas afirma que “ele existe até hoje”. “Fica tranquilo. Se ele se for antes de mim, você vai saber quem é com certeza. Eu vou estar no velório, vestida a rigor.” Em um segundo evento, ainda mais pavoroso, ela foi estuprada por quatro homens na Barra da Tijuca, quando desembarcava de um táxi para gravar um comercial. “O porteiro de um prédio da região me enrolou num cobertor e me ajudou a sair dali.” Um mês depois, Lady, que ainda era anônima, descobriu que estava grávida. Abortou “com o coração em frangalhos”.

PAIXÃO SECRETA

Inegavelmente solitária, Lady Francisco afirma que nunca mais se casou – nem namorou. Seus melhores amigos são os animais, por quem se declara “violentamente apaixonada”. Tem dois cachorros, dois urubus e uma maritaca. Na verdade, diz, gosta de bichos e “bichas”. Costuma receber em casa amigos gays, a quem ela chama de “meninos”; sai com eles para dançar e os conforta em suas desilusões amorosas. Repete o bordão da diva solitária. “Toda mulher tem de ter um amigo gay.”

Ainda incrédula, J.P resolve dar uma última investida para ver se arranca da entrevistada o nome de algum homem que tenha despertado minimamente seu coraçãozinho empedernido. Ela então revela, com cara de menina travessa, que guardou a “bomba” para o final. Diz que sentiu algo bem próximo do encantamento pelo dramaturgo Dias Gomes, autor de obras-primas como Roque Santeiro (1975). “Nunca contei isso a ninguém”, diz ela. “Conheci o Dias na Globo, fazendo a primeira versão de Roque Santeiro (que foi censurada). Um dia ele me ligou, a gente ficou no maior papo, eu, claro, ouvindo mais que falando. Era um gênio, falava de tudo, um tom de voz adorável. Eu fui me acostumando com esses encontros virtuais, que duraram bastante.” Em toda essa correspondência, o autor e a atriz mantiveram o que Lady chama de “pacto de sangue”: “Ninguém poderia saber, nem seu maior amigo, nem minha família. Fui muito amiga dele, num momento difícil”.

Na época, a dramaturga Janete Clair, mulher de Dias, que lutava contra um câncer, morreu. Lady o confortou, depois se afastou, “para deixar o luto passar”. “Nosso reencontro real aconteceu em São Paulo, no hotel Maksoud Plaza.” Aos poucos, e, segundo ela, por outras razões, “uma hora o telefone emudeceu, ele sumiu”. Passados alguns anos, Dias Gomes contou que tinha conhecido uma moça e se casado. “O Dias foi um brinde na minha vida e nosso maior segredo!”

O interessante de conversar com uma atriz percorrida como Lady Francisco é que as agruras dela não se resumem a namoricos desfeitos na internet ou fugas de paparazzi no Baixo Leblon. Experiente dentro e fora da TV, ela agora gostaria de fazer o papel de uma megera. “Daquelas bem más”, diz, arregalando os olhos com inequívoca expressão de víbora – mas sem deixar de levantar ligeiramente o vestido – hiperdecotado – e mostrar as pernas. Só para não perder o hábito.

[galeria]1332301[/galeria]

Sair da versão mobile