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DJ Marlboro
DJ Marlboro  || Créditos: Paulo Freitas

DJ Marlboro ainda é referência máxima no Brasil quando falamos de funk. Com um trabalho focado na consolidação e divulgação do ritmo desde a década de 1980, hoje ele comemora o crescimento mundial do estilo que ajudou a tornar referência musical brasileira. O Spotify, por exemplo, acaba de divulgar que, nos últimos 2 anos, o consumo de playlists do gênero cresceu 3.688% só no nosso país e no exterior esse número chegada a 3.421%. Que tal?

Glamurama bateu um papo dos bons com Marlboro, que contou como foi o início da carreira sem apoio nenhum, a conquista do território paulista, como o funk de São Paulo engoliu o carioca, o erro na interpretação dos “proibidões”, o sucesso de Anitta – que, segundo ele, pode ser a nova Shakira -, sobre sua consolidada carreira internacional = fará shows em Boston no dia 6 de julho e em Dubai no dia 19 do mesmo mês – e muito mais. Vem!

Era uma vez…

Sua história começou nos anos 1970, quando tocava funk, hip hop e rap americano em festas e boates cariocas como amador até que, na década seguinte, foi promovido a DJ residente. Neste período, auge da era disco, ganhou uma bateria eletrônica que viria a guiar sua carreira. Com a tecnologia em mãos e o propósito de “invadir” o asfalto, Marlboro começou a trabalhar em funks com letras em português. Foi a partir daí que surgiu a versão brasileira do ritmo, que cresceu e atingiu proporções inimagináveis naquela época. Ele pesquisou e ensaiou a fundo, já que seu primeiro funk não poderia dar errado. Então criou uma fórmula: letras irreverentes como o brasileiro gosta, cantadas como os rappers americanos que faziam sucesso por aqui. “Lancei com um amigo, o Norton, a música ‘Melô da Mulher Feira’, o marco zero do funk nacional”, conta ele.

Marlboro deu início a um longo processo de formação dos funkeiros cariocas por acreditar que “uma andorinha só não faz verão.” Atualmente se orgulha de ver seu funk tocando em desfile em Paris, como aconteceu na apresentação de Isabel Marant, em 2017, e Madonna colocando um de seus hits para as filhas cantarem, mas lamenta a forma como o funk carioca foi deixado um pouco de lado com a explosão da versão paulista.

“Precisava que o funk entrasse em São Paulo de qualquer jeito”
“São Paulo foi o último Estado do Brasil onde o funk entrou. Existia uma barreira para tornar o ritmo um movimento cultural. A minha ideia sempre foi incorporar a industrialização e o comportamento artístico da cidade ao funk. O Rio é muito criativo, de lá saíram o chorinho, bossa nova, samba, mas é mais ‘oba oba’. Faltava o profissionalismo paulista. Os MCs cariocas tinham vários celulares, casa própria na favela e carro importado. De repente perdiam tudo e não sabiam mais o que fazer. Alguns até se mataram por não ter como sustentar a família e a nova realidade.”

Projeto Ponte do Funk (Rio-SP)
“Nos anos 2000 as rádios de São Paulo afirmavam: ‘o funk nunca vai entrar aqui!’. Para quebrar esse estigma tive que forçar a barra. Toquei durante três anos na extinta Lov.e, no Centro. Neste período, uma quarta-feira por mês lotava um ônibus com funkeiros de várias comunidades do Rio e trazia para a boate paulistana. A ideia era levar para aquele espaço – sempre lotado – a alma do funk. Esse projeto, chamado Ponte do Funk, foi reconhecido por Gilberto Gil quando ele tomou posse como Ministro da Cultura do Brasil, em 2003. Com a ação consegui também integrar os funkeiros, quebrando uma barreira de que eles só poderiam ser amigos de pessoas da própria comunidade, porque sempre existiu a ideia errada de que todos eram liderados por bandidos de onde moravam.

Previsão Marlboriana: funk carioca pós boom do funk paulista
“Há cinco anos eu disse: se não melhorar a qualidade das letras e melodias do funk carioca, São Paulo vai dominar o mercado. Só faltaram me bater! (risos) A arrogância é o que mais cega as pessoas. Disse para muitos MCs que se mudassem seus comportamentos iriam dividir espaço com São Paulo, mas não me escutaram. E hoje eles sabem que eu avisei. Agora, os funkeiros do Rio me pedem conselhos e perguntam o que precisam fazer pra voltarem à cena. As músicas de São Paulo têm sucesso e qualidade, mas se parar para pensar (e eu fico arrepiado com isso), o som da turma do Rio é muito mais alegre. O funk de São Paulo é ótimo, só que mais sério e duro.”

Cenário atual do funk
“Hoje tem artistas do Rio e de outros Estados vindo para São Paulo, que se tornou uma vitrine do Brasil. O  Mc G15, por exemplo, é de Duque de Caxias e todo mundo acha que é paulistano. Funk é o que melhor representa a cultura brasileira porque mistura todos nossos elementos. Se você escuta funk na Bahia, acha que é axé!”

Luta contra a marginalização
“Quantas vidas mudaram por meio do funk? A música tirou muita gente da criminalidade. No Rio nem se fala. Uma pena que as autoridades não entendem até hoje a importância da ressocialização e como o funk pode gerar oportunidade para essa galera marginalizada e excluída. Quais as chances que um garoto da favela, de 18, 20 anos e sem uma boa educação, tem de ser alguém e manter sua cidadania? A música é salvação para eles, assim como o esporte. O filme ‘Cidade de Deus’ foi escrito por um cara que vivia da favela [Paulo Lins] e ganhou prêmio, foi aclamado.”

O surgimento do “proibidão”
“No início da história do funk, a galera da favela fazia funk pra conquistar o asfalto, em busca de aceitação. Foi assim que surgiram hits como ´’Rap do Salgueiro’, por exemplo. Quando houve a perseguição aos bailes do Rio, o funk voltou às origens e começou a fazer música para a própria favela. Foi aí que nasceram os ‘proibidões’.”

Relatadão
“O funk proibidão nada mais é que um relato dos funkeiros sobre a realidade que vivem, ou seja, um ‘relatadão’. As autoridades tinham que ser orientadas a entender o motivo dos meninos cantarem tais letras e usá-las como ferramenta para refletirem sobre o que está errado. Calar a boca desses garotos não vai mudar a realidade deles.”

Anitta 
Para o DJ, Anitta tem um futuro brilhante pela frente, e o fato de flertar com inúmeros ritmos, assim com faz Ludmilla, é um ponto positivo: “O funk não pode se limitar.” Mas o que deve acontecer com “Anira” nos próximos anos? “Ela é muito inteligente, esperta e sabe conduzir a carreira magistralmente, além de se orgulhar de ser funkeira e não esquecer suas raízes – o que é muito comum entre artistas do funk que partem para o pop e querem se desligar do pancadão por causa do preconceito. Anitta ligou um ‘foda-se’ para o preconceito. Ela tem representatividade e pode chegar onde chegou uma Shakira em escala internacional. Acredito que ela vai fazer as coisas certas para que isso aconteça.”

Apostas do funk
Malrboro apontou que quem deve “acontecer” no cenário do funk nos próximos meses é MC Rita, que gravou recentemente com MC Kekel a música “Amor de Verdade”(ouça abaixo). Segundo ele, a cantora tem um timbre parecido com o de Ludmilla. (Por Julia Moura e Fernanda Grilo)

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