Nicete Bruno e Beth Gourlart
Nicete Bruno e Beth Gourlart

Beth Goulart estreia como escritora em livro que começou com mãe, Nicette Bruno: ‘Processo terapêutico’

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Nicette Bruno foi uma das atrizes mais bem conceituadas de sua geração, interpretando personagens icônicos em novelas como “A Vida da Gente”, além de ter marcado a infância de muitos com a série “O Sítio do Pica-pau Amarelo”, em que deu vida à Dona Benta. Em 2020, a artista contaminou-se com o coronavírus e morreu da doença em 20 de dezembro, apenas um mês antes da chegada das vacinas.

Na época, Nicette preparava um livro com a filha Beth Goulart, a segunda dos três que teve com o também ator, Paulo Goulart, morto em 2014. O título não poderia ser mais significativo: “Viver É Uma Arte: Transformando a Dor em Palavras”. Como não se considerava uma escritora, a atriz de 87 anos gravou áudios comentando sobre situações que ambas viveram. Inspirado em suas palestras, o intuito da obra é compartilhar o aprendizado que ambas carregaram.

Nélida Piñon e Fernanda Montenegro

Com homenagens à Beth e Nicette, nomes de peso como a autora Nélida Piñon e a atriz Fernanda Montenegro participam do prefácio e posfácio do livro, respectivamente. A relação das quatro se estreitou no último ano de vida da intérprete de Dona Benta.

Na época, Nélida, a quem Beth interpretou em um trabalho da TV Cultura, preparou um almoço em sua casa para mãe e filha. Feliz com o convite e a oportunidade de conversar com a autora, a atriz da novela “Marina” retribuiu o presente com um evento em sua casa.

“Nos aproximamos muito no processo de internação de mamãe. Também passei a me comunicar com a Fernanda Montenegro de uma forma muito mais intensa”, disse em entrevista ao GLMRM. Por conta dessa proximidade, convidou ambas para participarem de “Viver É Uma Arte: Transformando a Dor em Palavras”. As duas aceitaram a proposta imediatamente.

Processo terapêutico

“Viver É Uma Arte: Transformando a Dor em Palavras” é dividido em duas partes: antes e depois da morte da Nicette Bruno. Beth, que já interpretou a icônica escritora Clarice Lispector em uma peça que lhe rendeu o Prêmio Shell, em 2010, retrata no livro o momento em que retomou a escrita após a morte da sua mãe. “Minha mãe partiu! E agora? Como dói… Como vou continuar sem você?”, questiona.

“A escrita é um processo terapêutico. Você vai colocando, de alguma forma, o seu inconsciente. Ele vai limpando e curando as dores e as feridas através da arte”, desabafou Beth, ao revelar que criar a ajudou a superar a dor aguda pela morte da mãe. “Quando passa aquela fase, o que fica é a saudade”.

Foto: Eduardo Schaydegger

Covid-19 e morte de Nicette Bruno

A covid-19 levou Nicette em apenas 21 dias. “A nossa despedida não foi no hospital. Ela passou na minha casa antes de se internar porque eu queria dar um beijo nela, queria me despedir. Ela falava: ‘eu vou para o hospital, mas eu volto, viu?'”, contou Beth, que disse para a mãe ficar tranquila, pois estaria sempre ao seu lado, mesmo que apenas espiritualmente, disse a atriz ,que durante nossa entrevista foi às lágrimas e fez uma curta pausa para tomar um copo d’água.

“A nossa despedida não foi no hospital. Ela passou na minha casa antes de se internar porque eu queria dar um beijo nela, queria me despedir. Ela falava: ‘Eu vou ao hospital, mas eu volto, viu?'”

O impacto da notícia da morte de Nicette Bruno, ainda mais em meio à pandemia e impossibilitando o ritual de despedida, lançou Beth em um luto profundo. “Cheguei na casa dela e percebi que ela não estava mais no sofá onde ficava para assistir TV. Quando vi aquilo, desabei de chorar”, contou.

Ainda assim, Beth uniu forças para se recuperar e continuar com a vida. Além de retomar as gravações da novela “Gênesis”, da Record TV, que filmava na época, voltou a escrever o livro que idealizaram juntas.

Para Beth, Nicette estaria orgulhosa dela por estrear como autora. “Ela diria: ‘Que bom que você continuou, minha filha. Passei o bastão para você e, agora, é com você'”, comentou, com risadas saudosas pelo privilégio de ter recebido uma base forte de seus pais para alçar voos solo com coragem e sabedoria.

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