20.07.2019  /  9:00

No Brasil para apresentação de “Rigoletto”, a soprano Carla Cottini critica a falta de incentivo à arte: “É cavar a cova do país”

Carla Cottini || Créditos: Divulgação

A brasileira Carla Cottini está de volta ao Brasil para apresentar no Theatro Municipal de São Paulo uma das óperas mais importantes do romantismo italiano: ‘Rigoletto’, de Giuseppe Verdi. Com estreia neste sábado, direção cênica de Jorge Takla e direção musical do maestro Roberto Minczuk, a soprano de 32 anos assume o principal papel feminino da trama, o da personagem Gilda, filha única de Rigoletto que só tem permissão para sair de casa se for para ir à missa. O elenco também conta com a soprano russa Olga Pudova, os barítonos Fabián Veloz e Rodrigo Esteves, e os tenores Fernando Portari e Darío Schumunck. “Foi quando conheci Rigoletto que decidi que queria cantar ópera. Poder debutar na cidade onde nasci, com o primeiro diretor que acreditou no meu talento e com o meu companheiro de cena favorito, Rodrigo Esteves, é realmente um sonho se tornando realidade”, comemora Carla, que bateu um papo com o Glamurama sobre a desvalorização da arte no Brasil, saias-justas em cena e mais. À entrevista!

Glamurama: Você diz que quando conheceu ‘Rigoletto’ decidiu que queria cantar ópera. O que significa para você, além de fazer parte do elenco, se apresentar no Brasil?
Carla Cottini
: Gosto de ópera desde pequena, mas foi quando escutei ‘Rigoletto’ que entendi o que significava e o quanto queria fazer isso. Parece que tudo o que fiz foi para chegar até aqui, então significa muito… é o momento mais importante para mim. É a prova de que quem se dedica ao trabalho chega à realização de um sonho.

G: Qual seu momento favorito no espetáculo?
CC
:  Essa ópera tem uma música muito bonita e vários momentos maravilhosos. Um dos meus favoritos é quando o tenor se declara a Gilda, meu personagem, e fala: “Então vamos nos amar mulher celestial”. Acho essa música uma coisa de outro planeta. Ele está fingindo para seduzi-la, e brinco que também cairia nessa cantada. Outro momento é a cena final da ópera, quando morro… amo minha morte (rs), é de uma sensibilidade enorme, não tem como não ficar tocado.

Croqui digital do palco de “Rigoletto” // Divulgação

G: Você já passou por importantes casas de ópera do mundo, qual a diferença entre se apresentar fora e aqui no Brasil?
CC
: Sinceramente não existe nenhuma diferença. Uma coisa é fato: estar ensaiando e poder ficar na casa da minha família, que é toda de São Paulo, é maravilhoso. E, claro, a apresentação em si é uma delícia, com pessoas que a gente ama na plateia. Mas minha conexão com a obra é tão intensa que não importa onde estou.

 G: Acha que a ópera, assim como outros espetáculos líricos, têm público no Brasil?
CC
: Com certeza temos muito mais demanda do que oferta. Para ter uma ideia, são oito espetáculos de ‘Rigolleto’ na capital paulista e os ingressos já estão todos esgotados. O brasileiro é um povo que tem o coração muito aberto para arte, muito sensível para a música. Esta é uma arte que não foi bem divulgada por aqui, mas farei tudo o que estiver ao meu alcance para mudar esse cenário. Essa música mudou minha vida, é uma conexão metafísica.

G: Hoje você tem destaque no universo da música erudita, mas precisou sair do Brasil para alcançar essa visibilidade. Por que acha que as coisas ainda são assim por aqui?
CC
: No Brasil falta meio de estudo de música lírica. Na verdade falta educação como um todo. Para interpretar uma ópera é importante acessar outras culturas, conhecer a arte de outros lugares. Não tem como uma pessoa sem formação cantar em uma obra dessas, se conectar com o personagem. Infelizmente nossa educação é muito precária também no mundo artístico. Lá fora a música erudita é muito valorizada. Toda semana vou ao teatro e isso vai formando a gente. Sinto que aqui as pessoas não sabem nem por onde começar.

G: Você mora em Berlim atualmente. De modo geral, a arte é mais valorizada na Europa que por aqui…
CC: É um assunto delicado. Pelo atual governo a arte sem dúvida é desvalorizada. Falta apoio de figuras do poder, sim. Isso porque não sabem a importância que a arte tem. Essa é a diferença. Na Europa, os governos sabem o que significa conservar um teatro, uma biblioteca… sabem o quanto isso reflete na sociedade, como arte transforma as pessoas. Mas hoje no Brasil parece que as pessoas não entendem isso.

G: Qual a sua opinião sobre as atuais diretrizes de governo, que não dão grande apoio à arte e educação?
CC: Acho que a educação é claramente a coisa mais importante para qualquer lugar do mundo. O contato com a arte te engrandece de uma maneira muito profunda. Não incentivar a arte e a educação é cavar a própria cova do país.

G: Além da música clássica, quais outros estilos você curte ouvir?
CC
: Amo samba, bossa nova, música latina, tipo salsa e umas coisas mais antigas. Me conecto com muitos tipos de música. Quem me inspira muito é Maria Bethânia. Foi ela que me ensinou recitar o texto e, mesmo que eu cante em italiano, tento imaginar como seria Bethânia recitando aquilo em italiano, tento ‘roubar’ seu jeito de falar, que é tão claro e cheio de energia.

G: Já passou por alguma saia justa no palco?
CC
: Todos os dias! Desde estar no palco, estourar roupa e ter que sair de cena de lado para ninguém notar, até tropeçar e cair na frente na plateia. Isso sem contar quando a dificuldade vem da nossa própria mente, quando estamos no palco e começamos a duvidar de nós mesmos.

Em tempo: Além do dia 20 de julho, têm récitas nos dias 23, 24, 26, 27 e 30, sempre às 20h, e nos domingos (21 e 28) às 18h. (Por Morgana Bressiani)