22.04.2020  /  14:47

Ney Matogrosso explica por que não se manifesta politicamente nos palcos

Ney Matogrosso || Créditos: Reprodução

Aos 78 anos, Ney Matogrosso está passando o período de isolamento social na sua fazenda, em Saquarema, no Rio de Janeiro, depois de cancelar uma agenda repleta de shows que iam até o mês de junho, inicialmente. Com repertório sempre atual, ele fala sobre como o público acredita que as suas músicas, mesmo antigas, ainda são consideradas atuais e abordam a questão política brasileira: “Quando faço shows parece que as minhas músicas estão falando de momentos recentes. Então eu penso: será que tenho bola de cristal? As minhas músicas foram ficando cada vez mais atuais”, disse em entrevista ao canal “Papo de Música”, do Youtube.

Ele ainda contou sobre o seu posicionamento quando a plateia faz alguma manifestação em relação aos governantes: “Durante um show no Circo Voador, o pessoal gritava ‘Fora Temer’, e eu também acreditava nisso, mas não acho que eu, estando no palco, deva gritar essas coisas. Se querem gritar, eu calo a boca e deixo. Quando há alguma manifestação contra o Bolsonaro, também fico na minha. É um direito das pessoas, mas não acho que seja da minha competência chegar no palco e começar a dizer: “Fora Temer”, “Fora Bolsonaro”. Fora do palco eu digo o que penso, mas não é lá que vou fazer isso”, explicou Ney sobre as manifestações.

Ainda sobre política, Ney Matogrosso foi bastante direto quando o assunto foi sexualidade: “Não podemos permitir que o Estado legisle a nossa cama. O Estado vai cuidar do que ele tem que fazer. Nem Estado, nem Igreja nenhuma pode decidir a minha vida particular. Podem decidir leis, mas não como eu vivo. E acho que as pessoas precisam ter essa consciência”, disse.

Ney é um dos nomes mais importantes da música brasileira. Tanto no “Secos & Molhados”, como em carreira solo, o artista se expressa com irreverência e marcou principalmente os anos 70, 80 e 90. “Sempre achei que seria artista, desde criança. Quando era pequeno, morava em Padre Miguel (Rio de Janeiro) e lá tinha um parque de diversões que fazia programa de calouros para crianças, e eu cantava. Mas não tinha intenção de ser cantor. Eu desenhava muito bem, queria ser pintor, mas meu pai vetou. Depois, achei que seria ator de teatro. Até fiz alguns trabalhos, mas não fiquei conhecido. Isso foi às vésperas de começar no ‘Secos & Molhados’, então logo virei cantor”, explicou no programa.

Nascido no Mato Grosso, o cantor falou também sobre o seu orgulho de ser latino e como incorporou influências brasileiras, e do centro-oeste, em suas canções. “Sempre tive muito nítido que eu sou um artista latino-americano. Coloquei isso para dentro do meu trabalho… o Brasil nunca se considerou América Latina. O ideal do Brasil era a América do Norte. E ainda é. Mas nunca foi o meu. Sempre cantei em espanhol e tinha músicas que falavam sobre esse assunto. E eu faço isso porque gosto de ser essa coisa misturada da América Latina”, conta.