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Neurologista Fabiano Moulin garante que gratidão é uma forma de desanestesiar o cérebro. Como?

04.10.2020  /  9:00

neurologista Fabiano Moulin || Créditos: Divulgação

O neurologista Fabiano Moulin fala sobre a importância de reconhecer e gerenciar as emoções, e diz que gratidão é uma forma de desanestesiar o cérebro

por Luciana Franca

É preciso aprender a nomear as emoções para saber lidar com elas, afinal, a emoção é uma comunicação do corpo com o cérebro. É necessário identificá-las, mas, muitas vezes, preferimos deixar os sentimentos negativos debaixo do tapete. Na conversa com Fabiano Moulin, especialista em neurologia da cognição e do comportamento, ele afirma que a cultura é uma ferramenta essencial para desenvolver a inteligência socioemocional e que a gratidão é um exercício para desanestesiar o cérebro e reconhecer nossos privilégios.

J.P: Qual é o papel de um neurologista na área comportamental?

FABIANO MOULIN: Dentro da neurologia, há uma área em que estudamos cognição e comportamento, na qual as doenças são Alzheimer, Parkinson etc., mas foquei mais no normal e menos no adoecido. Isso acabou me possibilitando entender mais amplamente do que só resumir a doença, dá para falar de emoção, motivação. Na medicina, fala-se muito bem da doença, mas muito pouco da saúde. Felizmente, isso tem melhorado, conseguimos estudar e promover saúde. Aproveitei meu conhecimento em neurologia, em como o cérebro funciona, para motivar, engajar, mudar hábitos, entender as emoções.

J.P: Como a medicina promove saúde?

FM: Nem os pacientes estão sensíveis com essa visão da medicina como saúde, e não como doença. O nome nem deveria ser paciente, porque quando você busca saúde, você é agente, não é mais passivo. Temos tentado construir uma nova geração que procura os médicos igual vai em busca de um assessor financeiro: se quero envelhecer com dinheiro, então vou guardar todo dia; para envelhecer bem, guardo saúde todo dia para ter no futuro. Felizmente essa assessoria médica já existe.

J.P: Há segredo para envelhecer melhor?

FM: Não existe uma receita única. A primeira coisa é assumir que você pode fazer diferença nessa jornada e que o envelhecimento não é um acidente, não é por acaso. Por incrível que pareça, tem menos a ver com sua genética do que com sua rotina da vida toda. A ideia do envelhecimento saudável é como eu construo uma rotina que vai acumulando saúde para conseguir colher ao envelhecer. Isso é desde a barriga da nossa mãe, na verdade, da nossa avó. Tem uma questão chamada epigenética, que é a influência do ambiente sobre a leitura do DNA. Achávamos que o DNA era uma obrigação, se está escrito nas letrinhas do meu código genético que vou ter câncer, obrigatoriamente terei. Isso existe para poucos genes. Se eu tiver uma rotina do bem, impeço a ativação da grande maioria dos genes que dá câncer, Alzheimer, que aumenta o risco de Parkinson e vou envelhecer saudável até os 100 anos.

J.P: Quais são as ferramentas para construir essa rotina do bem?

FM: A primeira é a mentalidade, tem que sair do banco do passageiro da própria saúde, da própria mente, e assumir o do motorista. É preciso entender que você é fruto de suas microdecisões durante a vida inteira. As doenças não caem do céu, não são uma punição divina, são a somatória de predisposição genética e as bilhões de microdecisões que fazemos; do sorvete à salada de fruta, do sofá à academia, de aprender um novo idioma ou de ver Netflix.

J.P: Então está a nosso alcance?

FM: Para a grande maioria de nós, o campo de escolha é muito grande, existem algumas doenças genéticas neurológicas, psiquiátricas, que, infelizmente, não têm nenhuma escolha, mas isso é a minoria, equivale a 1% das doenças. Mais de 99% de chance de saúde está dentro da nossa cabeça, no sentido da maneira que eu entendo o mundo e da maneira como agir para construir ou desconstruir a minha saúde. Vamos inventando nossas certezas e acabamos nos restringindo e ficando presos em um círculo vicioso que nós mesmos criamos.

J.P: Isso tem a ver com a educação que recebemos quando crianças?

FM: Nossa educação é feita da cabeça para fora, aprendemos matemática, geografia, sociologia, mas ninguém nos ensina da cabeça para dentro. Mesmo a biologia, que fala da seleção natural do Darwin e do funcionamento da mitocôndria, não explica o que as emoções significam de verdade e elas não são algo metafísico, transcendental. Emoção é uma comunicação do corpo com o cérebro. Ao não permitir o entendimento dessa sincronia corpo e mente, impedimos estabilidade e flexibilidade, por exemplo, nestes momentos de crise. O que importa agora: o Teorema de Pitágoras ou um tanto de psicologia, filosofia e neurociência da emoção, da empatia, da flexibilidade? Isso tudo está à disposição.

J.P: Como conseguimos compreender melhor as emoções?

FM: Uma maneira é ter pais que estejam abertos ao diálogo emocional. Por exemplo: seu filho faz uma birra no shopping e o que você faz? Pune. Você não valida a emoção dele, não ajuda a nomear, e faz o que fizeram conosco, afunda a emoção negativa debaixo do tapete e deixa quieto. Qual seria uma resposta difícil, mas necessária, para a birra: abaixar- se na altura do filho, olhar no olho e falar: “Mamãe entende que você está cansado, que está com sono, a gente vai para casa. Quer vir no colo? Esse brinquedo eu não vou comprar agora porque não trouxe dinheiro para isso”. Pode ser que dê certo, pode ser que não. Mas você dá a oportunidade de a criança olhar para dentro e essa habilidade ela carrega para a vida. O que fazemos quando o filho, neto ou sobrinho está feliz? Dizemos: “Que lindo você está, feliz, vem dar um abraço”. Validei, nomeie e gerenciei a emoção. Aí não entendemos por que só gostamos de falar do positivo e temos dificuldade de falar do negativo. É preciso nomear essas emoções. Filmes fantásticos, outros idiomas, viagens e literatura nos ajudam com isso. As artes são tão fundamentais porque são elas que vão ampliar e construir a nossa consciência. Precisamos da ciência para nos nortear, mas não basta, é o cinema, a música, que nos enchem agora, a gente precisa da cultura para construir esse cérebro rico do ponto de vista emocional.

J.P: Como a cultura aumenta nossa inteligência socioemocional?

FM: Temos na cultura uma fonte eterna dessa capacidade de ver o mundo por outros olhos, que sempre amplia a inteligência emocional, de se aprofundar nas definições e na conceituação de cada emoção, de cada sofrimento, de cada coisa gostosa e positiva. Na meditação, na atenção plena, você exercita a capacidade de percepção das emoções, não as julga, simplesmente as percebe e assim tem a tranquilidade de gerenciá-las. Se não percebo que estou irritado, vou deixar a irritação me guiar; se percebo, posso ter controle sobre isso. Uma vez que eu valido a emoção, nomeando-a de forma adequada e gerenciando-a, é um princípio. Mas precisa praticar, como qualquer inteligência, ninguém vai ser um craque do futebol jogando videogame em casa, é por isso que essa interação com o mundo é essencial.

J.P: Deveríamos aprender isso desde cedo, não?

FM: Infelizmente, por alguma estrutura patológica da educação, não estou falando só da educação da escola e sim da sociedade como um todo, esquecemos esse conhecimento do homem porque hoje você estuda para passar no vestibular, para entrar numa empresa, para alguma meta. Perdemos a ideia de que a educação é para formar pessoas, cidadãos. Há dois extremos que não funcionam: um é o aluno completamente passivo sentado na sala de aula e outro é presumir de forma muito ilusória que um aluno vai deduzir a lei da gravidade brincando num parque. A gente precisa de um tutor e de um guia, mas precisamos de uma criança mais ativa e participante do ensino. Todo aprendizado necessita de quatro bases, a neurociência sabe muito bem disso: atenção; engajamento ativo, que é motivação, curiosidade; feedback de erro, que fazemos muito mal, mas é um trampolim fantástico; e períodos de consolidação, que é o lazer, sono, distração.

J.P: Como estimular e engajar o aluno neste momento de aulas on-line?

FM: Não dá, é desumano. É surreal a expectativa que a escola tem de fazer uma criança ficar seis horas sentada na frente de uma tela com todas as desatenções possíveis que uma tela tem, que estar em casa tem. Como neurologista, minha sugestão é que pare com aula on-line, pare o ano, recomece no ano que vem porque isso é uma sobrecarga para a mãe, é uma sobrecarga absurda para a criança, não é assim que funciona o aprendizado. É muita ignorância das escolas e muita pressão sobre a família exigir que aquele modelo já defasado da sala de aula seja exportado para a tela e obrigar que a criança, que já estava desatenta em sala normal, aprenda. Talvez valha mostrar um PowerPoint, tarefas que incluam a casa, ver um vídeo com os pais e discutir juntos…

J.P: Por que temos dificuldade do feedback negativo?

FM: É uma questão cultural, não é intrínseca do cérebro. O próprio nome, em português, é crítica, que já tem uma conotação negativa. Mas o problema é que a gente não sabe fazer. Existem muitos treinamentos, técnicas, mas tem duas coisas fundamentais para o feedback: o tempo e a qualidade. Precisa conversar sobre a atitude inadequada de alguém de preferência no dia em que ocorre, em um ambiente neutro e não na frente dos outros, ouvir a perspectiva da pessoa, apontar seus pontos positivos, ser muito específico ao que não foi adequado e elaborar uma estratégia conjunta. O mais importante é a pessoa perceber que eu me importo com ela e não com o erro. Ter essa habilidade facilita o relacionamento pessoal até em uma conversa sobre o que não está bom no sexo com o marido, com o namorado.

J.P: Você costuma falar também sobre gratidão. Como ela funciona em nossa mente?

FM: O cérebro trabalha com expectativa do mundo. Ele demoraria muito para esperar o mundo me inundar de informações e depois processar, então antecipa isso. Para tudo o que encaixa exatamente naquilo que o cérebro antecipa, não é liberado nenhum hormônio, nenhum neurotransmissor do prazer, como a dopamina. O banal nada mais é do que a satisfação da expectativa do cérebro. A gratidão é o exercício de desanestesiar nosso cérebro para que possamos perceber a realidade com toda sua complexidade. É óbvio que tem muita gente morrendo, muitas coisas ruins acontecendo, mas essa não é toda a realidade, há coisas boas acontecendo também. Não é ser um bobo alegre que não enxerga nada além do feliz, é desanestesiar o cérebro para que a gente consiga entender que tudo pode ser um privilégio se você olhar dessa maneira.