Na linha de frente do combate à Covid-19, profissionais de saúde buscam auxílio para enfrentar transtornos psicológicos

02.10.2020  /  12:05

Na linha de frente do combate à Covid-19, médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde buscam auxílio para enfrentar o medo, a ansiedade e o estresse pós-traumático, transtornos vividos por veteranos de guerra que também estiveram em contato direto com a morte

por Nina Rahe

Enfermeiros com medo de morrer, médicos pedindo ajuda, técnicos administrativos de hospitais com quadro de ansiedade: temos. Durante a pandemia, a saúde mental dos responsáveis por cuidar dos doentes de Covid-19 esteve em risco. Em uma semana de agosto, o Hospital das Clínicas, de São Paulo, recebeu cerca de 400 pedidos de auxílio em linha telefônica exclusiva para atender os próprios profissionais. “A maior parte das ligações era de enfermeiros, muitos deles com receio de morrer. Havia uma preocupação com os colegas que iam adoecendo, isso era uma fonte de estresse porque poderia ser ele o próximo”, diz o psiquiatra Euripedes Constantino Miguel, professor titular do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. Ainda no dia 26 de março, quando o Brasil registrava menos de 3 mil casos de Covid-19 e 77 mortes decorrentes da doença, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) estreava uma plataforma on-line com 160 enfermeiros de saúde mental para ouvir os colegas da linha de frente. “Os profissionais de enfermagem já têm problemas emocionais por conta da intensidade do trabalho e do baixo salário e sabíamos que a pandemia só agravaria esse quadro”, diz Dorisdaia Humerez, coordenadora da Comissão Nacional de Saúde Mental do Cofen.

O serviço, que conta com cinco linhas de atendimento disponíveis 24 horas, foi pensado para oferecer apoio emocional a qualquer momento do dia – até o fim de agosto, o total de chamadas ultrapassava 6 mil. “Achamos que só um enfermeiro entende o que significa ser enfermeiro”, diz Dorisdaia. O motivo das ligações vem mudando. Começou com a preocupação com o contágio e agora ganham força questões como a solidão e o sentimento de que a profissão passou a ser estigmatizada.

“Se os profissionais de saúde começam a somatizar, ter sintomas físicos ou respostas emocionais desproporcionais como ansiedade, tristeza, irritabilidade, desinteresse, é preciso vencer as resistências que eles têm de procurar ajuda. Investimos para que eles reconheçam neles mesmos aquilo que reconhecem nos pacientes”, diz o psiquiatra Valentim Gentil Filho, um dos mais renomados da especialidade do Brasil, e que chefiou o Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.

A enfermeira Mariluce Ribeiro, de 49 anos, por exemplo, precisou lidar com recados nada gentis dos vizinhos, com direito a pedidos de plantão dentro da UTI porque era mais seguro do que ir para o local de descanso”, diz Mariluce, que recorreu às chamadas telefônicas do Cofen para superar o luto por um colega de trabalho e o medo de perder sua filha. Suas crises de ansiedade culminaram numa licença médica de 60 dias.

Essa situação, na qual cuidadores e pacientes dividem as mesmas angústias, também afetou Dorisdaia, que, pela primeira vez em mais de 30 anos na área da saúde mental, viu-se diante da tarefa de não abrir portas e janelas, enquanto administrava um sentimento de culpa por ter levado o vírus para casa e contaminado sua filha. Ainda que não estivesse atendendo casos ligados à Covid-19, já que é intensivista do setor pediátrico e neonatal, a pandemia a afetou diretamente por conta do despreparo do hospital em que trabalha. Com a necessidade de ampliação dos leitos, os profissionais perderam sua sala de descanso e tiveram de se aglomerar em um pequeno corredor para ter acesso a camas. “Cheguei a ficar 12 horas de não associar o luto dos outros ao próprio, já que seu marido, médico, faleceu em junho, vítima da doença. “Já não estou mais fazendo essa ligação, mas no início foi difícil ouvir os relatos sem relacionar a dor dos outros com a minha.”

A técnica de enfermagem Ester Celina dos Santos, que atuava na ortopedia do Hospital da Santa Casa, em Juiz de Fora, tampouco imaginava as situações que iria vivenciar quando se voluntariou para atuar na CTI destinada ao tratamento de Covid-19. Entre os casos que mais a impressionaram estão os de pacientes que chegaram bem, mas apresentaram piora súbita. “Deitava na minha cama e revia as cenas que tinha vivido no dia. Escutava o barulho do respirador, o aparelho apitando, e tinha a sensação de que precisava correr para atender alguém”, diz a técnica, que desde o início da pandemia não vê os pais, ainda que morem no mesmo bairro. “Me sentia frustrada, impotente, achando que poderia ter feito algo melhor, mas estava de mãos atadas”, completa. Ela procurou o projeto TelePSI, uma iniciativa do Ministério da Saúde em parceria com o Hospital das Clínicas de Porto Alegre, depois de passar o dia com um paciente que morreu inesperadamente e sem contato com a família. O programa oferece desde maio atendimento psicológico e psiquiátrico – até 27 de agosto foram 887 teleconsultas.

Reviver as situações do hospital por meio de memórias recorrentes ou pesadelos é comum entre os profissionais de saúde que tiveram contato com muitos óbitos, explica a terapeuta Amanda Borges Fortes, do TelePSI. “Esta é uma vivência única e ninguém passou por uma situação parecida até hoje. Agora, se pensarmos em diagnóstico, muitos apresentam transtornos do estresse pós-traumático, que é o que acomete os veteranos de guerra que estiveram em contato direto com a morte.”

Dentre os pacientes que a psicóloga atendeu, ela relata o caso de uma enfermeira que desenvolveu fobia ao uso de máscaras e profissionais com quadros de desidratação porque deixavam de tomar água para não ir ao banheiro, já que alguns hospitais contraindicavam a retirada da roupa de proteção. “Outro acometimento comum é o burnout, quando a demanda extrema de trabalho leva a prejuízos de atenção, foco e concentração”, diz Amanda. “Mas o principal estressor é estar ajudando pessoas que estão entre a vida e a morte.”

O médico Alessandro Falchemback, além de dobrar sua carga horária no Hospital Cassems, em Campo Grande (MS), viu-se obrigado a tomar decisões em decorrência da falta de leitos ou equipamentos. Um dos dias mais difíceis foi quando, na ausência de ventilador mecânico, ele precisou utilizar um respirador de transporte por seis horas para não deixar um paciente idoso morrer.

O hospital, que tinha psicólogos à disposição das famílias dos doentes, acabou estendendo o auxílio a seus próprios funcionários. “A sobrecarga não é apenas pela carga horária, mas também emocional”, diz Alessandro. Da sua parte, a terapia que frequentava antes mesmo da pandemia estourar o ajudou a não se martirizar por suas escolhas. “É um período que não dá para se questionar muito, tudo é muito novo. Você tem que tomar decisões sem perder tempo.”

De fato, muitos hospitais, como o Einstein e o Hospital das Clínicas de São Paulo, estabeleceram critérios clínicos, técnicos e éticos para que o peso das decisões dos profissionais da linha de frente não recaia sobre eles, que estão no olho do furacão.

O impacto a longo prazo desse cenário está sendo medido pelo Departamento e Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. Desde junho, eles recebem questionários quinzenais com respostas de 1.500 profissionais. A primeira leitura aponta níveis altos de ansiedade e depressão.