Machismo
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Masculinidade frágil: quem é o estudante de psicologia que faz sucesso nas redes ao falar sobre o tema?

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Maio de 2020. Pandemia do coronavírus. Naquele momento incerto as aulas pararam, não havia trabalho presencial e muito menos expectativas sobre o futuro. O estudante de psicologia João Luiz Marques decide usar seu “tempo livre” para falar com os 600 seguidores no Instagram sobre um tema pouco abordado por perfis da rede, muito menos pelos próprios homens: a masculinidade frágil. O tema não é muito comum no mundo por um simples motivo: atinge diretamente o privilégio dos homens.

Um ano e meio depois, João viu seu perfil alcançar 187 mil seguidores. Ele, que se define como escritor, palestrante e pesquisador da psicologia das masculinidades no @joaomarques.psi, em que debate e reflete sobre assuntos como masculinidade plurais (machismo, masculinidade tóxica, masculinidade frágil) como um compromisso ético.

“Masculinidade frágil explica como a masculinidade na verdade é um castelo de cartas muito bem elaborado e com muitos detalhes, mas facilmente derrubado com um sopro. A masculinidade é uma performance, assim como a feminilidade. Ninguém nasce com o ideal de macho no DNA, mas a sociedade torna os meninos protótipos de homens alfa, e nem todos conseguirão atingir esse grau”.

João Luiz Marques, escritor, palestrante e pesquisador da psicologia das masculinidades

“Não usar rosa, não falar palavras difíceis para não parecer gay, ter cachorro ao invés de gatos, não beber bebidas doces”, resume. João lembra que a fragilidade masculina está nos pequenos rótulos do dia a dia. “A fragilidade, na verdade, está nessa ‘performance’. Porque ela é alicerçada em coisas completamente pequenas como ser forte, não adoecer, aguentar todo e qualquer tipo de agressão, física e emocional, sem chorar. Esses pontos de prova de masculinidade é o que causam sofrimento a esse homem”, ressalta. Em última instância, a masculinidade tem medo de ser ligada, de alguma forma, à feminilidade, com qualquer traço que leve este homem a ser parecido com uma mulher. “A vulnerabilidade e outras questões que atribuímos às mulheres e aos LGBTQIAP+ são o terror dos homens porque, acima de tudo, há o pensamento de superioridade em relação a essas pessoas”, aponta.

Se por um lado, o medo de ser ridicularizado pelos amigos por usar roupa rosa ou parecer “afeminado demais” é só a ponta do iceberg, do outro está a grande problemática: a masculinidade frágil (que resulta na masculinidade tóxica), nasceu do machismo que, por sua vez, é produto do patriarcado que representa toda a estrutura de poder que constitui não só esses papéis, mas os privilégios que vem a partir do homem no centro de mundo.

Para ele, a masculinidade tóxica é um problema de saúde pública e precisa ser tratada desta maneira porque violenta e mata mulheres e LGBTQIAP+ diariamente, que, em termos atuais, são chamados de feminicídio e homofobia. “É preciso que os homens comecem a se implicar com o problema que eles mesmos criaram e perpetuam diariamente. É essencial que comecem a se responsabilizar pelo machismo e pelos efeitos do patriarcado.”

E é aí que chegamos à questão crucial: por que, como sociedade, não conseguimos ver que o machismo é prejudicial aos homens assim como para as mulheres? Porque ele traz privilégios. João lembra que “ser homem em uma sociedade machista que centraliza, dá vantagem e referencia inclusive a humanidade aos ‘homens’, pode e é bem confortável, mesmo tendo recortes de raça e classe, ainda há em algum grau certos benefícios em comparação a outras vivências”.

Se questionar sobre algo que te traz benefícios todos os dias é um movimento muito significativo, que necessita de empatia e de um olhar para si que poucos homens podem dizer que têm, já que o machismo reduz essas duas qualidades a quase zero. Para começar a mudar essa realidade, precisamos combater pensamentos errôneos como acreditar que o machismo é “algo natural”, que nasce com os homens, ou que é “algo de outro tempo, que todos devemos entender”.

“Jamais fique em silêncio ou dê aquela meia risada sem graça ao ouvir um comentário machista de um homem do seu circulo”

João Luiz Marques, escritor, palestrante e pesquisador da psicologia das masculinidades

“Costumeiramente, homens acham que feminismo é sobre ser mulher, simplesmente. Isso porque acham o feminismo é o contrario de machismo, e que o machismo já nasce com o homem. O que faz muitos pensarem que o movimento é contra eles, quando, na verdade, é um movimento para uma sociedade mais justa para as mulheres”, lembra, acrescentando que esses pensamentos são um amontoado de “péssimas interpretações da realidade”.

É preciso trabalhar a desconstrução da masculinidade, entendendo que as masculinidades são plurais. Ou seja, não existe apenas uma forma de ser homem, mas várias, entendendo principalmente que o que consideramos feminino não é algo negativo ou ruim. “Para isso, é preciso entender que a masculinidade tóxica é um problema, e esse é um enorme desafio”, lembra João, que em suas postagens sobre o tema percebe dois entendimentos de seus seguidores: os que ficam profundamente incomodados e os que entendem o problema e procuram melhorar.

“Infelizmente, não alcanço a pessoa que nega o que eu escrevo automaticamente porque ela toma uma posição de defesa. Não é um ataque e sim uma ajuda. Torço para que os relutantes se permitam refletir sobre si, mas nem todos têm consciência de que o machismo não é algo natural, o problema é mais profundo do que imaginamos”

João Luiz Marques

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