San Pedro Valley
Foto: Getty Images

Já ouviu falar do Vale do Silício mineiro?

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Por Paola Carvalho

O Silicon Valley, na Califórnia (EUA), ganhou esse nome nos anos 1970 em razão da concentração de indústrias eletrônicas na região e em homenagem ao Silício (Si), elemento químico encontrado em abundância por lá e que serve de matéria-prima básica para a produção de circuitos e chips. Ainda hoje é o endereço das gigantes da alta tecnologia do Ocidente, as big techs.

Em uma brincadeira com o termo, um grupo de empreendedores de Belo Horizonte, fundadores de startups, criaram o San Pedro Valley, quando se instalaram no bairro São Pedro e passaram a frequentar os mesmos bares dali, na vizinhança da badalada Savassi. Desse núcleo de novos amigos nasceram startups com capital aberto na Bolsa de Valores de São Paulo (B3), caso da Méliuz, e unicórnios (aquelas com avaliação de mercado superior a US$ 1 bilhão), a exemplo da Hotmart. Completando dez anos em 2021, esse ecossistema tem fôlego para ir ainda mais longe.

Consolidando-se como a principal comunidade de startups do país, o San Pedro Valley, ou apenas SPV, como é chamado por alguns integrantes, se movimenta de forma orgânica, não é uma instituição, não há presidente, muito menos uma hierarquia, todos são porta-vozes. Em sua plataforma aberta (sanpedrovalley.org) estão registradas 514 startups, 67 agências de fomentos, nove aceleradoras, cinco incubadoras, dois hackerspaces e 28 coworkings. O objetivo de quem participa é se conectar com as pessoas, identificar sinergias, trocar conhecimentos, experiências, divulgar vagas e, por que não, fazer negócios.

Matt Montenegro
Matt Montenegro, sócio da Pingback. Foto: Divulgação

“A gente brincou de criar a marca na tampinha de uma cerveja, nem imaginávamos que San Pedro Valley, mais do que um símbolo, se tornaria uma espécie de espírito, mentalidade, ou melhor, uma cultura passada por gerações”, lembra Matt Montenegro, 35 anos, na época fundador da Beved e hoje sócio da Pingback, uma plataforma para criadores de conteúdos independentes que acaba de receber um aporte de R$ 2 milhões pelo fundo americano Saasholic Fund, Hotmart e pelo Investidor Anjo Amure Pinho. Nesse caminho, ele teve a VidMonsters, uma plataforma de videomarketing, que também foi comprada pela própria Hotmart, colega do SPV.

Evolução de outras empresas, a Hotmart, de cursos on-line, nasceu junto com o San Pedro Valley em 2011, quando os fundadores apostaram as suas economias na divisão do aluguel de uma sala com outra startup, a Rock Content. Naquele ano, receberam um primeiro aporte de R$ 300 mil do Buscapé. Agora, acabaram de lançar o Hotmart Challenge, um fundo de R$ 2 milhões para acelerar startups de empreendedorismo, educação e tecnologia, como aconteceu com eles uma década atrás. “É uma forma de retribuir o apoio que recebemos e, ao mesmo tempo, continuar fomentando o ecossistema”, afirma João Pedro Resende, o JP, 39 anos, CEO da Hotmart.

A startup é hoje uma empresa global de tecnologia, líder em produtos digitais e avaliada em mais de US$ 1 bilhão. Tem escritórios em oito países, na América Latina, América do Norte e Europa. São cerca de 1,3 mil funcionários, mais de 420 mil produtos registrados e 29 milhões de usuários, entre produtores, afiliados e compradores. Na pandemia, a Hotmart viu o seu faturamento crescer mais de 160% e acaba de receber mais um aporte de US$ 130 milhões do fundo TCV com participação também da Alkeon Capital Management.

Para Resende, San Pedro Valley é sinônimo de uma comunidade que hoje abraça a cidade de Belo Horizonte inteira. “Acredito que ainda veremos muitas outras startups bem-sucedidas se originando na região, na medida em que o conhecimento se espalha entre os empreendedores do local, bem como as gerações anteriores começam a reinvestir nas gerações mais novas de startups”, diz.

Também completando dez anos está a Méliuz, empresa que oferece o sistema cashback, de gifts cards e outros serviços financeiros para marcas e lojas se conectarem com seus clientes finais. Primeira startup ligada a fundos de venture capital a listar suas ações na bolsa brasileira no primeiro trimestre deste ano, comemorou a movimentação de R$ 844 milhões em seu marketplace, alta de 93% em relação ao trimestre anterior. São mais de 800 empresas parceiras e 7,1 milhões de clientes ativos. A receita líquida em 2020, ano de pandemia, foi de R$ 125,4 milhões.

Antes do IPO, a Méliuz, assim como a Hotmart, acabou adquirindo uma startup da primeira geração do SPV, a Melhor Plano, site que oferece ferramentas de comparação de preços e serviços de telecomunicações e financeiros. Esses movimentos demonstram a sinergia entre os integrantes do ecossistema de inovação da capital mineira, não só entre startups como também junto a grandes corporações.

O hub de inovação Órbi Conecta, por exemplo, surgiu da união de empreendedores do SPV com Banco Inter, MRV e Localiza, em 2017. “O hub nasceu para conectar on-line e fisicamente pessoas e organizações que buscam relevância em tempos de intensas transformações. Atualmente, o Órbi atua em três frentes: formação de profissionais em habilidades digitais, transformação digital em corporações e programas de fomento ao ecossistema de startups brasileiro”, destaca Anna Martins, 30 anos, cofundadora e CEO do Órbi Conecta e mais um destaque no empreendedorismo digital mineiro.

Anna Martins, CEO da Orbi. Foto: Divulgação.

Na distribuição de startups pelo território nacional, Minas Gerais é o segundo estado que mais concentra essas jovens empresas de base tecnológica: são 782 delas em solo mineiro, sendo a maior parte em Belo Horizonte, mais especificamente no San Pedro Valley. O número integra o MinasTech, levantamento realizado pelo Distrito Dataminer, braço de inteligência de mercado da empresa de inovação aberta Distrito, com apoio da consultoria KPMG.

Do total de startups mapeadas, 85% foram fundadas nos últimos dez anos, sendo 394 (50%) delas desde 2016. Juntas, empregam cerca de 12,8 mil pessoas. Segundo o estudo, estão divididas em 34 setores. As healthtechs, como são chamadas aquelas voltadas para a área de saúde, são maioria (9,5% do total), e em seguida estão as fintechs (8,3%) e as adtechs (7,4%), que trazem soluções para os setores de finanças e marketing e comunicação, respectivamente.

O MinasTech Report apontou ainda as dez startups que mais se destacam no estado, todas instaladas em Belo Horizonte, e, de novo, a maior parte da chamada primeira geração do San Pedro Valley. Foram lembradas Méliuz, Sympla, Sambatech, Rock Content, Take, Hotmart, Siteware, Strider, Trybe e Sólides. Como parâmetros, foram levados em consideração o número de funcionários, faturamento presumido, investimentos captados e, ainda, métricas de redes sociais.

“O ecossistema de inovação de BH está em um processo importante de maturação. Passamos a fase da euforia e entramos no momento da consolidação e dos grandes casos de sucesso. Méliuz, Hotmart, Take, Buser, entre outras, alcançaram destaque no cenário brasileiro e internacional. Atraíram grandes investimentos e entraram em outra fase de maturidade, exposição e impacto”, avalia Filipe Braga Ivo, 37 anos, embaixador do Singularity University Belo Horizonte Chapter, uma espécie de unidade local de uma comunidade mundial criada pela universidade originada de uma parceria entre Google e Nasa, no Vale do Silício. E, claro, uma das forças do ecossistema de inovação da cidade.

Felipe Braga Ivo, Embaixador do Singularity University Belo Horizont Chapter. Foto: Divulgação

Para Ivo, a digitalização e a robotização de tudo, intensificadas pela pandemia, exigem mais do que nunca humanização. Comunidades como o San Pedro Valley extrapolam o universo digital e reforçam que negócios são feitos entre pessoas e são as pessoas que mudam um bairro, o mundo.

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