banhar
Reprodução/Unsplash

De quando entendi o que significava não se banhar duas vezes no mesmo rio

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Alguns devem se lembrar de mim, enquanto outros provavelmente são novos por aqui. A quem interessar possa, eu sou a Julia, e desde já considero importante dizer que precisei recomeçar. Eu poderia englobar um tanto de coisas particulares que recomecei, mas na verdade precisei recomeçar a vida de um modo geral após perder a pessoa mais especial que eu já conheci: o meu pai.

Me senti de novo uma criança descobrindo o mundo. Abdiquei de muitas coisas – e ainda acho que deveria ter abdicado de mais – em prol da minha saúde mental e da tentativa de reaprender como é o mundo sem o meu pai. Dentre as atividades abdicadas, estava escrever para a coluna.

Quando resolvi escrever novamente, depois de um ano longe dos meus textos, por algum motivo, ao pensar no tema do texto, aquela famosa frase do filósofo Heráclito ressoava em minha mente: “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”. Eu ainda não sabia porque, afinal eu sequer havia decidido o que iria escrever. Mas deixei a frase registrada num bloco de notas.

“Abdiquei de muitas coisas em prol da minha saúde mental e da tentativa de reaprender como é o mundo sem o meu pai”

Antes de começar a escrever, me peguei muitas vezes pensando “será que devo recomeçar?” “será que faz sentido recomeçar?”. Eu me julguei muito. Você, leitor, talvez não esteja entendendo por que tanto julgamento, mas eu explico.

Escrever sempre foi um hobby, sempre escrevi a partir da minha intuição, do meu (ainda imaturo) conhecimento sobre o mundo, e principalmente do que vinha no meu coração. Mas esse hobby estava dentro de um outro “hobby” – se posso assim dizer – que tenho desde que me entendo por gente: a comunicação. Como já contei em um texto anterior, fiz aula de teatro durante 10 anos, escolhi cursar publicidade (o hobby virou trabalho) e sempre tive gosto por compartilhar minha vida com os meus amigos próximos nas redes sociais. Após visitar o Vale do Silício, experiência que também já contei por aqui, descobri que amava não só compartilhar a minha vida, mas também conhecimento. Aprendi com o meu pai que conhecimento só é válido se repassado para frente, e foi isso que eu fiz naquela época, compartilhando não só com os amigos próximos, mas com todo o meu Instagram pela primeira vez.

Acontece que, após voltar do Vale do Silício, achei que não tinha nada de interessante para compartilhar, e parei. Tempos depois, a vontade de compartilhar bateu de novo no meu coração, e voltei a postar alguns conteúdos no meu Instagram, dentre eles a minha coluna no GLMRM. No final de 2020 eu estava em um ritmo desacelerado, mas assim que começou 2021 eu estava determinada a entregar tudo para os meus textos e meus conteúdos. Eis que, em pleno janeiro, me deparei com uma perda imensa que, como já disse, me fez voltar à estaca zero em quase tudo na minha vida. De forma que parei novamente. Parei de escrever para a coluna, e de criar qualquer tipo de conteúdo para o meu Instagram.

Trouxe todo esse cenário para explicar que tentar retomar a escrita, e talvez a criar conteúdos, me provocou o seguinte incômodo: estou fazendo o mesmo que já fiz anteriormente, estou começando depois de ter parado. E daí veio o julgamento que citei anteriormente.

“Descobri que pode ser bonito recomeçar, e mais bonito ainda não se julgar por isso”

Eis que, depois de muito repetir aquela frase na minha cabeça, concluí: não estou repetindo, estou recomeçando. E, todo recomeço é diferente do anterior. Afinal, vivemos novas experiências e ganhamos novas referências nesse meio tempo.

Por muitas vezes ao longo do último ano desejei que voltasse a ser quem era antes de tudo acontecer. O luto faz isso. Faz com que a gente queira voltar a ser quem éramos antes da perda, até descobrirmos que a perda faz parte de nós agora. Reconheço que sou uma nova Julia, com novas cicatrizes, e certamente isso não está nem perto de repetir algo do passado.

Descobri que pode ser bonito recomeçar, e mais bonito ainda não se julgar por isso. Abraço minha perda, abraço a Julia que consigo ser agora e abraço minha vontade de recomeçar.

Então, de uma forma talvez clichê, concluo: não estou me banhando no mesmo rio novamente. E estou pronta para me banhar nos próximos que estão por vir.

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