Britney Spears
Foto: Michelangelo Di Battista/Sony/RCA via Getty Images

Britney Spears representa o colapso da extimidade

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“Senhorita do Sonho Americano”, “Senhorita Carma da Mídia Negativa”, “Srta. Estilo de Vida dos Ricos e Famosos”, a “Srta. Ela Está Muito Gorda, Agora Ela Está Muito Magra”, a “Srta. Oh meu Deus, Aquela Britney é Sem Vergonha”. Como a própria artista canta em “Piece Of Me”, no fim do dia todos querem – de alguma maneira – um pedaço de Britney Spears. Recentemente a Netflix tentou o seu com “Britney X Spears”, da diretora Erin Lee Car, mais um documentário que joga luz sobre a complicada disputa judicial que Britney trava contra o seu pai e a tutela a qual foi submetida há mais de 10 anos.

A história da disputa judicial retomou a força de sua repercussão após o “The New York Times” revelar o contexto do movimento liderado por fãs da cantora, o #FreeBritney, que busca fazer pressão pública a favor da sua liberdade. A pauta caiu como um prato cheio para a mídia e traz à tona um irônico dilema da sua tóxica relação com a imprensa. A mesma mídia que por meio do assédio desmedido foi corresponsável pela situação atual da cantora, é a que, por fim, colabora no fortalecimento da pressão pública e ajuda a problematizar o caso. Como coloca o crítico Henrique Haddefinir, a pergunta que também me ressoa é quem de verdade está pensando no bem de Britney?

O documentário foi uma sugestão da head de conteúdo do Glamurama, Dolores Orosco, para o meu final de semana. Compartilhamos brevemente sobre o choque do círculo midiático que sempre se formou em volta deste ícone do pop. É impossível acompanhar as imagens da perseguição dos paparazzi e não lembrar de Lady Di. Seja você ou não do mercado do entretenimento e tenha uma visão mais acostumada com isso, convenhamos que é um pouco bizarro como as celebridades povoam o imaginário social, não acha? E por que, afinal, celebridades despertam tanto desejo em nós?

Nem só de visibilidade ou exposição midiática uma celebridade é consagrada. A sua ocupação num lugar de destaque, um desempenho tomado como excepcional naquilo que faz, qualidades próprias e/ou se ver em situação ou acontecimentos de destaque também são determinantes. As celebridades ostentam aquilo que uma determinada sociedade, num determinado momento, valoriza e isso explica muito sobre a sua ascensão e também a sua condenação. Exemplo notório é o peso da carga misógina com a qual a imprensa pinta o quadro de Britney à época, em contraponto ao retrato que faz dela hoje.

Na perspectiva do consumo, a constituição de uma celebridade também pode ser compreendida a partir de uma identificação e da compreensão do outro na sua face mais humana, no seu sofrimento, de suas dores e a solidarização nas suas perdas. Há também o viés da identidade na qual a celebridade é a projeção de uma idealização, e também na diferença, pois o famoso não é você, mas um outro, estabelecendo um lugar seguro de diferença e proximidade para a fruição dessa relação que evoca uma pluralidade das formas de ser. Por isso, podemos inferir que o assédio, o julgamento público de Britney é o grande karma dos famosos. Todos nós queremos um pedaço.

Reflito sobre duas perversões no caso de Britney Spears. Primeiro que fica declarado no decorrer dos acontecimentos que não importa Britney como sujeito e sim Britney como produto best-seller da Indústria Cultural – tutelada ou livre. A outra se dá na esfera da vida privada, a nossa, a ordinária, quando revelada pelas câmeras disponíveis em todo lugar e que se transforma num espetáculo para olhos curiosos, um espetáculo da vida na sua banalidade radical. Isso já não é mais um “privilégio” só de quem já está no palco da cena pública.

“Oi, pessoal! Tô meio sumido aqui das redes, mas tá tudo bem!” A performance pública da extimidade – termo criado pela antropóloga Paula Sibilia para se referir à vida íntima que é constantemente exposta – tão naturalizada hoje em dia, derruba os limites fronteiriços entre o que é público e a vida íntima promovendo um “borramento” dessas instâncias, causando até mesmo uma erosão da distância mental entre nós. Ao serem mediadas por imagens, as relações se mercantilizam e esse processo está associado às mesmas mediações que podemos compreender o consumo.

A partir de todo o seu potencial estético como imagem, triunfa um modo de vida que irá consequentemente atender as dimensões lógicas de mercado. Além do mais, o desenvolvimento e a distribuição cada vez mais acelerada das ferramentas da produção midiática amplificada pelas redes convida a nos mostrar. A problemática que tais casos célebres nos advertem é que todo esvaziamento da intimidade para a cena pública parece ter o mesmo fim, uma exaustão do indivíduo.

Segundo a decisão judicial expedida no final de setembro, Britney Spears saiu da tutela do seu pai e o fim definitivo do processo vai ser decidido numa audiência no dia 12 de novembro. Britney também desativou suas redes sociais e declarou: “Não se preocupe, pessoal. Estou apenas tirando um tempo das redes sociais para comemorar meu noivado. Eu voltarei em breve”. Tome o seu tempo, Brit :)

Victor Brandão é bacharel em comunicação social e especialista em Cultura Material e Consumo na perspectiva semiopsicanalítica pela Escola de Comunicação e Artes da USP. Trabalha com pesquisas de comportamento e com estratégias de comunicação, marcas e negócios.

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