A poesia visual da stylist Lulu Novis

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Difícil traduzir quem é Lulu Novis, dona de uma mente criativa e borbulhante. Luciana é muito mais do que stylist: ela imprime seu estilo e muita ousadia por onde passa e em parcerias que assina com algumas marcas. Quem diria, sua curiosidade a fez cursar quase quatro anos de faculdade de medicina, mas trocou o curso por jornalismo e logo começou a cobrir semanas de moda e fazer figurino. “Sempre fui criativa, ligada à moda e também à escrita e à leitura. Sou extrovertida e sensitiva, gosto de gente, de interagir, de cuidar das pessoas. E sempre amei a ciência e tudo o que se relaciona com o corpo humano”, explica ela, que tem uma coleção de objetos fálicos – e de lagosta. Lulu construiu um universo estético/afetivo em sua casa, no Rio, que é uma extensão de sua essência, para criar as duas filhas, Antonia e Felipa, e receber os amigos.

O que faz da sua casa um lar?

A Casa da Boemia, como chamo minha casa, tem poesia, tem gente de verdade, criança correndo e uma mãe criativa num desafiador expediente de home office. É uma casa vívida, com energia expandida. Fui construindo um universo estético/afetivo que se reflete em cada detalhe: tenho menus dos meus restaurantes e botecos favoritos enquadrados nas paredes da cozinha, convivendo com minhas obras de arte e meus livros. Algumas das estampas que criei estão entre os muitos papéis de parede da casa, junto com um monte de objetos que contam minha história.

O que te salvou na quarentena? Um conjunto de coisas: terapia, meditação, FaceWine semanal com amigos (nossa versão alcoólica do FaceTime), fazer exercício (mesmo que não tão frequente quanto habitualmente), ter a oportunidade de ajudar pessoas que estavam em situação difícil e o lançamento da minha collab com a Farm, um desses projetos-filho. Fruto de muito amor, nascido no meio do caos.

Arquivo pessoal

Na minha geladeira sempre tem: Tudo que é comidinha saudável: iogurte de coco caseiro, frutas vermelhas, salada orgânica (de preferência da minha horta), kombucha… E, claro, cerveja de garrafa gelada. Para dar uma equilibrada e satisfazer minha alma boêmia.

Minha coleção de lagosta começou… Desde adolescente coleciono brinquedos, mania que herdei da minha mãe. Num desses garimpos que faço em viagens, encontrei uma lagosta que foi amor à primeira vista: fiquei hipnotizada pela elegância do seu shape e cores misturada com uma coisa surrealista e divertida. Esse foi o começo. As lagostas precisam quebrar a casca para crescer, e quando quebram, a parte de dentro fica exposta e elas ficam vulneráveis. Até que se expandem e uma nova casca se forma. Levo essa metáfora para a vida: precisamos sair da zona de conforto para evoluir, mesmo sabendo que o processo nos fragiliza e dói. E tem um outro lado delas que diz muito sobre mim: as lagostas são amigas e companheiras leais, encontram um parceiro e vão juntos até o fim.

Minha coleção de falos começou porque… Faz parte do meu fascínio pelo corpo humano. Uma vez, numa viagem com meus pais, com uns 12 anos, gostei de um brinquedo fálico ainda sem saber o que era. Insisti muito e minha mãe me deu. O falo para mim – mulher e ciente das nossas questões e desigualdades – não tem caráter pornográfico e muito menos de poderio do masculino. Pelo contrário: como símbolo, na antiguidade clássica, representava felicidade e sorte. Imagens fálicas eram usadas para proteção, para espantar energia ruim e trazer prosperidade nos negócios. Fora isso, um falo só é funcional se existe o órgão feminino para que haja a cópula, ou seja, ele reafirma a potência de ambos os sexos igualitariamente. 

No meu estilo não pode faltar… Listras, xadrezes, bolas, flores, cores, formas – tudo com muita elegância e diversão.

Não uso de jeito nenhum: “De jeito nenhum” é uma ideia radical. Mas não me identifico com botas, sobretudo as de cano longo. Também não sou de couros, brilhos e paetês.

Filme da minha vida: Ultimamente tenho mergulhado na vida dos meus ídolos: amei os documentários sobre Yayoi Kusama, Iris Apfel, Diana Vreeland, Saint Laurent… E fiquei encantada pelo documentário “AmarElo”, do Emicida. Sempre mexe comigo observar como as pessoas sentem, pensam e lidam com a vida.

Não perco um episódio de: Nunca fui muito de televisão ou Netflix, sou mais dos livros. Estou sempre interessada em filosofia, psicanálise, espiritualidade e artigos científicos.

Gostaria de ter uma obra de… muita gente! Mas sou especialmente fascinada pela instalação de falos do Antonio Dias e amo também os artistas da nova cena, como Rafael Baron e Julia Debasse.

Minha rotina de beleza inclui… Cuidar muito da alma: durmo com celular em modo avião, acordo, medito, tomo café calmamente (uma conquista de vida) e só depois ligo o celular. Em seguida, faço exercício físico. Procuro ter uma alimentação saudável, faço análise e terapia espiritual. Quando está tudo bem por dentro, fica tudo melhor do lado de fora.

Para animar eu… Pratico a medicina da arte: sou sagitariana, então se o assunto me interessa, caio de cabeça. Mergulho nos meus estudos, pesquisas, vasculho meu acervo de peças vintage, observo cada detalhe e neste processo sempre sai alguma ideia boa (ou, no mínimo, prazerosa). A arte salva, mesmo!

Para desacelerar eu…  Sou fiel aos ensinamentos da minha mentora, a médica Carol Presotto, que me ajuda a organizar ideias, equilibrar chakras e me botar no eixo. Mas como sei que meu jeito de equilibrar e me encontrar é mesmo no caos e na diversidade, prezo aquela desaceleração que só as brechas na rotina proporcionam: cerveja gelada, música na varanda, garimpo nas feiras de rua, picadinho com farofa, jujuba fora de hora – tudo isso alimenta meus olhos, corpo e espírito. Sou essa mistura. 

* Matéria originalmente publicada na Revista J.P, do grupo Glamurama

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