Jane Di Castro

Memória: Revista J.P relembra as muitas histórias da trans Jane Di Castro

11.06.2017  /  8:25

Figura tradicional do cenário carioca, a travesti Jane Di Castro agora galga reconhecimento na terceira idade. Cantora de primeira, ano passado lotou teatros com o show Passando Batom e viu o espetáculo Divinas Divas virar documentário de sucesso. Não bastasse tudo isso, vive ela mesma na novela das 9, A Força do Querer. Como diria a máxima: É a glória! 

Por Renato Fernandes para Revista J.P de junho

Nem tubarão, nem sereia.” Era assim que o adolescente Luiz de Castro se sentiu durante anos em Oswaldo Cruz, subúrbio do Rio de Janeiro. Filho de militar com enfermeira, ainda criança se trancava no banheiro de casa, enrolava uma toalha na cabeça, vestia o maiô Catalina da irmã e passava o batom da mãe. Naqueles poucos momentos conseguia viver seu sonho: ser mulher, ser vedete, ser estrela de Hollywood. Um dia a mãe quis entrar no banheiro. Luiz se desmontou rapidamente e esqueceu de tirar o batom. Apanhou, e muito. Encarou porradas e preconceito por décadas. Defeito? Nenhum, apenas nasceu com alma de mulher. Aos 16 anos, vestiu sua primeira calcinha e nunca mais tirou. “Me sentia diferente, hoje sei que sou uma transexual e não apenas uma travesti”, diz, em entrevista a J.P.

Estudar nunca foi com ela. Repetiu vários anos. Durante a aula, ela só pensava em boás e descer escadarias. Morava próxima do Teatro Zaquia Jorge, nome de uma vedete já falecida, e lá ficava na calçada, vendo as fotos e sonhando em ser uma.  Conseguiu, mas lutou demais para isso. Ainda na adolescência foi convidada a se retirar do coral da igreja porque seus trejeitos incomodavam aos evangélicos. Se a família a ajudou? Nada. O pai tinha a mente aberta, mas a mãe, severa, comprava bola para ela jogar e palmadas não faltavam. No entanto, não adiantou, seu “destino era ser star”, no palco e na vida.

Dos seis irmãos, apenas Lourival, que já faleceu, entendia a alma da irmã. Levava Luiz para passear no guidão de sua bicicleta pelas então bucólicas ruas de Madureira e Oswaldo Cruz. Já outro irmão foi responsável por Jane deixar a casa dos pais de vez. Ele a impedira de entrar e até hoje cortou relações com ela. “Não era como agora, éramos tratadas como anormais, doentes”, revela.

Foto: Arquivo Pessoal
Jane Di Castro quando ainda era Luiz de Castro || Foto: Arquivo Pessoal

Plumas & Bananas

Apesar de tudo e de todos, Jane é superfamília e nunca teve um pé ou dois na marginália. Jamais namorou bandido e nem tinha tesão em ter um revólver na mesa de cabeceira enquanto transava. Fetiche de algumas. Gostava mesmo era de causar e ser paquerada. Se ela e Rogéria trocam confidências? “Não, só holofotes.” Dividem o palco maravilhosamente bem. Ano passado lotaram o Imperator no Méier.

Amigos íntimos são pouquíssimos, entre eles a travesti Eloína, que lhe abriu as portas para o show business. Em 1966, Jane já era uma das atrações do espetáculo Le Girl com uma peruca cor de vinho. De lá para cá, nunca mais parou. Estrelou vários espetáculos de revista, no teatro Rival, na Cinelândia ou nas casas da Praça Tiradentes.

E foi, ao sair de um show no Rival, que conheceu Otávio Bonfim, seu marido e companheiro há 40 anos. “Nunca tive o sonho de casar, nunca quis ter marido, foi ele que me achou”, conta. Achou e sofreu todos os preconceitos do mundo por se apaixonar por ela. Bonitão, olhos azuis, Otávio era modelo e fazia propaganda para a Casa José Silva, Ducal e Adonis. Perdeu amigos, perdeu emprego, mas a união dos dois ficou cada vez mais forte. Estão juntos até hoje.

Jane Di Castro entre Ney Latorraca, Glória Menezes e Terezinha Sodré || Foto: Arquivo Pessoal
Jane Di Castro entre Ney Latorraca, Glória Menezes e Terezinha Sodré || Foto: Arquivo Pessoal

Bibi e Tarzã

“Mas, minha filha, Jane só tem uma… a do Tarzan! Como Jane você não vai acontecer não”, disse Bibi Ferreira a Jane na Galeria Alaska, em 1979, enquanto a dirigia no espetáculo Gay Fantasy, no teatro Alaska, com produção de Eloína e João Paulo Pinheiro. Jane pensou, repensou e as duas chegaram num consenso de que seu sobrenome Castro era bem sonoro. Porém, Jane fez questão de incluir Di em homenagem a Di Cavalcanti. “Bibi tinha razão, desde então minha carreira mudou. Ela foi muito generosa com todas, pois sua direção trouxe notoriedade a todas nós travestis.” O espetáculo lotava, de terça a domingo, e chegou a ser capa da revista Fatos e Fotos. Nessa época, Jane já estava turbinada. Por insistência da amiga Eloína, colocou próteses nos seios e seu corpão de 1,77 metro chegava a causar inveja até mesmo em mulheres. A vedete Nélia Paula, que dividia palco no espetáculo com ela, pedia para entrar antes de Jane, já que a loura roubava a cena.

Durante anos, Jane viveu entre Rio, Paris, Bruxelas e Nova York, cantando e flanando.  Virou a cabeça de muitos homens. “Diamonds” ganhou, casacos de pele também. Chegou a ter sua própria cobertura de 200 m2 na Praça Sarah Kubitschek, em Copacabana. Amigos de ocasião, muitos. Alguns já chegavam de sunga por debaixo da roupa para mergulhar em sua piscina. “Se filtrar essa gente toda, não sobram quatro”, reconhece. Em 1984, ela é dirigida por Ney Latorraca, para o espetáculo Passando Batom. Fez tanto sucesso que ficou anos em cartaz. Jane passou a ser presença constante na coluna de Eli Halfoun na revista Amiga. Cansada dos amigos interesseiros e de bancar festa para gente que mal conhecia, vendeu a cobertura e comprou outros imóveis – um deles é onde mora e trabalha atualmente como cabeleireira, no Edifício Kansas, vizinho de fundos do Copacabana Palace. Lá é sindica e seu salão vive lotado. Berta Loran é uma das clientes mais fiéis, a ex-primeira-dama Maria Thereza Goulart e Georgia Quental também. A decoração do salão é feita com as matérias de Jane: tem capa de O Pasquim e fotos ao lado de Catherine Deneuve e Roman Polanski, todas emolduradas. Um universo cheio de memórias e histórias.

Jane Di Castro realizando um sonho com seus boás || Foto: Arquivo Pessoal
Jane Di Castro realizando um sonho com seus boás || Foto: Arquivo Pessoal

Galinha Carijó

Gosta muito de Carnaval e continua a ser convidada de honra dos bailes do Copa. Mas nada é como antes. Em 1980, ela foi ao baile do Canecão vestida com uma malha de renda, tapa sexo e um enorme boá de penas de galinha carijó, cobrindo tudo. Ao tirar o boá, o baile parou. Suas fotos rodaram o mundo e o que não faltou foi cantada de gente da sociedade e artistas da Globo. “Até hoje não sei como tive coragem de sair vestida daquele jeito”, conta, rindo. Ao responder se já usou drogas, não faz a linha “por favor, não vamos falar sobre isso”. “Sim, usei, mas tinha uma outra conotação no meu tempo. Não viciei e muito menos me afundei.” Hoje, o que gosta é uma cervejinha ou um vinho, seja num boteco pé sujo da Lapa ou no restaurante Pérgula do Copacabana Palace.

Sobre prostituição é enfática: “Cada um tem o direito de fazer do corpo o que quiser, mas acho muito triste algumas travestis ainda terem de optar por isso. O mercado de trabalho já está maior para todas, mas ainda temos de abrir muito caminho pela frente”. Jane luta, se envolve em causas e já cansou de cantar o Hino Nacional de graça, com o ex-governador do Rio Sérgio Cabral ao lado. Pois é. Do salão onde foi concedida a entrevista, não tem a menor vergonha de dizer: “A cabeleireira sempre sustentou a artista”.

Em 2004, montou no teatro Rival o espetáculo Divinas Divas, com um elenco de travestis famosas e números diversos. O show, que ficou mais de dez anos em cartaz, deu a ideia para Leandra Leal fazer um documentário sobre esse universo. Fez sucesso, ganhou prêmios aqui e fora também. O mais recente foi em Austin, no Texas. Ano passado, Jane se viu mais uma vez em todas as mídias quando ela e Ney Latorraca montaram uma nova versão para Passando Batom, mais um sucesso da dupla. Agora, vive entre idas ao Projac para gravar a novela das 9, A Força do Querer, onde é a musa de Nonato, personagem vivido por Silvero Pereira.

Na carreira, muitos nomes que lapidaram seu talento. Bibi, Berta Loran, Lennie Dale, a cantora do rádio Marlene e até mesmo o rei da noite Carlos Imperial, foram alguns deles. Todos fizeram parte do que ela mais gosta na vida: estar em cena e no movimento dos bastidores. Sempre passando batom, como no banheiro na casa de sua mãe, e nunca esquecendo que seu D é maiúsculo: Di Castro. Se alguém erra isso, uma coisa é certa: vai sobrar pena de boá carijó para todos os lados! Salve Jane, salve Jane Di Castro.