Marjorie Estiano, uma das melhores atrizes do momento, é capa e recheio da J.P de novembro: ‘Adoraria me apaixonar em cada esquina’

20.11.2020  /  13:40

Alheia à exposição, principalmente nas redes sociais, Marjorie Estiano conquista o posto de uma das melhores atrizes do momento com talento, natureza reservada e discurso sensível

por Luciana Franca fotos Jorge Bispo styling Felipe Veloso beleza Vini Kilesse

Dance como se ninguém estivesse olhando. Prazer esse que a atriz e cantora Marjorie Estiano conhece desde criança, ainda em Curitiba, quando passava horas inventando passos e ecoando refrões. “Meus pais trabalhavam fora, minha irmã tinha muitas atividades extracurriculares e meu irmão estudava de tarde. Então, eu tinha a casa inteira só para mim. Colocava o vinil e ficava dançando e cantando na sala até alguém chegar. É uma sensação maravilhosa”, recorda. Assim ela continua, dançando sempre – “coloco tudo para dançar comigo, quem estiver perto, o espaço, os objetos. Inclusive, na quarentena, esse era um recurso para soltar tudo que conseguia, tudo que essa pressão condensava em mim” – e levando a vida sem muitas testemunhas. Marjorie não é do tipo que se expõe nas redes sociais, não é natural dela. “Mesmo entre os meus amigos pessoais, são poucos os com quem divido alguns aspectos da minha vida íntima”, diz.

Respeitar seu temperamento reservado, sua personalidade e sua liberdade não a deixa menos em evidência no que realmente importa: o trabalho como artista. A atriz que ganhou fama instantânea em sua estreia na TV Globo, em 2004 (quem não lembra da Vagabanda de Malhação?) e causou comoção como a doutora Carolina no especial sobre Covid-19 na atual série ‘Sob Pressão’, coleciona prêmios no teatro, no cinema, na música e na TV – em 2019, foi indicada ao Emmy internacional como melhor atriz. Também conquistou o posto de ter levado a melhor cantada em rede nacional. Justo ela, tão discreta. Mas tirou de letra quando Selton Mello contou no palco do programa ‘Altas Horas’ que havia se apaixonado pela parceira de cena na série ‘Ligações Perigosas’ (2017). “Selton foi muito lindo e sensível como ele é, e inconsequente também, coisa que eu não sabia que era, porque essa história vai render por toda a eternidade”, conta, aos risos. “Ele vai estar casado há anos, com filhos e ainda vai ter gente falando: ‘Mas ele ama mesmo é a Marjorie’. Ou se ele tinha consciência desse desdobramento, o admiro ainda mais, muito embora eu não soubesse que ele tinha se apaixonado até o programa.”

Não foi só o ator que viveu uma paixão não correspondida. Marjorie relembra que 100% de seus amores na adolescência eram platônicos e gostava assim. Na vida adulta, já não se encanta por alguém facilmente. “Adoraria me apaixonar em cada esquina, mas não acontece comigo. Quando me apaixono é perdidamente, mas até hoje posso contar duas vezes na vida, o que não me frustra de maneira alguma. A gente pode passar a vida inteira sem um grande amor e eu já tive, isso me faz sentir muito privilegiada.” A discrição volta a aparecer quando ela silencia sobre o status atual.

Aos 38 anos, a atriz não desconsidera a maternidade, embora não aguarde por esse momento com a ansiedade que vê em muitas pessoas. “Tenho curiosidade sobre a gestação, a criança, alguém metade você, metade o pai… Esse fenômeno da natureza sempre me impressionou muito e a criação é uma coisa que me preocupa bastante”, pondera. “Acho que é uma decisão importante e eu sinto falta do impulso interno, por enquanto.” Conta que já pensou em congelar os óvulos, mas ainda não fez, e se a vontade aparecer e não puder gerar, cogita a adoção.

 

Marjorie reflete sobre a chegada de uma nova vida, mas também discorre com profundidade a respeito da morte, principalmente por causa da perda repentina do pai após uma cirurgia, em 2018, e da experiência com médicos na realidade e na ficção. “Morrer é um caminho exclusivamente solitário, e penso muito em como seria. O fato de, inevitavelmente, não ter ninguém para ir comigo, de não saber o que vou encontrar do outro lado, se há outro lado, se vou sentir dor, qual vai ser a sensação… Tudo passa pela cabeça sobre essa experiência que todos nós vamos enfrentar, mas ninguém pode nos descrever”, reflete. “E nessa solidão, independentemente de ter família e amigos por perto, os médicos são as pessoas que, em parceria, vão nos orientar até o último passo que poderemos dar. Entre tantos outros pontos sublimes que permeiam essa profissão, essa troca é o que mais me emociona.” Marjorie tem sabido traduzir muito bem essa emoção para as telas.

Raio x

UMA MANIA De organização
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