Maria Eugenia Tita, filha de Antonio Nóbrega e Rosane Almeida, conta como foram suas andanças pelo Brasil em busca de novas oportunidades artísticas

12.04.2021  /  10:08

Maria Eugenia Tita / Crédito: Arquivo Pessoal

Maria Eugenia Tita desembarcou na capital paulista em fevereiro para uma temporada de 15 dias. O motivo da viagem foi uma série de trabalhos: ela veio dirigir o espetáculo do artista Eduardo Colombo e assinar a direção cênica do show de Victor Kinjo. Entre um afazer e outro, no entanto, a programação foi colocar o sono em dia, aquele descanso que só mesmo a casa dos pais pode propiciar. Filha dos artistas Antonio Nóbrega e Rosane Almeida Tita é nascida e criada em São Paulo, mas decidiu pegar a estrada após uma temporada no “limbo”, depois de tentativas sem sucesso de viabilizar os próprios projetos. “Acho que a vida estava me pedindo algo diferente e eu gosto muito de mudanças”, conta.

A mudança, no caso, começou quando ela recebeu um convite para participar do Festival Nacional de Teatro Revirado, em Santa Catarina, com o espetáculo Planta do Pé, o que ela encarou como um sinal. Assim, a partir de Içara, cidade na qual o evento seria realizado, Tita organizou um roteiro com apresentações por todo o trajeto, incluindo Cananeia, Jaraguá do Sul, Joinville, Chapecó, Lages, Criciúma, Florianópolis e Curitiba. Nesse primeiro mês, a viagem foi ao lado de um amigo, mas logo depois Tita prosseguiu sozinha, tendo Cabeção, um grande boneco em molde de isopor e coberto de tiras de jornal, como seu principal companheiro.

Maria Eugenia Tita / Crédito: Arquivo Pessoal

Com ele, visitou, em Joinville, o Mirante do Morro da Boa Vista e tirou sarro na estátua da liberdade da loja Havan; dançou a típica chula em Urussanga e participou até mesmo de uma roda de capoeira. “Encontrei muita gente com esse sonho de viajar o Brasil de carro, mas eu não tinha esse desejo. A minha vontade era levar meu espetáculo para um público que dificilmente teria acesso, brincar com o Cabeção, ter autonomia de ir embora quando quisesse”, explica Tita. “Foi pensando onde eu poderia experimentar essas coisas que a ideia foi se consolidando e, quando percebi que faria uma viagem de carro pelo Brasil, tudo fluiu, foi mágico.”

Em um trajeto percorrido em três meses, nas 45 cidades em que aportou, Tita conheceu muita gente e se surpreendeu com a solidariedade. Sua estratégia foi construir uma rede e, a partir dela, ir descobrindo, por meio de indicações, quem seriam os agitadores culturais que a ajudariam a articular apresentações em cada cidade. Dessa maneira, ela se apresentou não só em instituições como o Sesc, mas em escolas, pátios de igreja e outros tantos locais. As hospedagens às vezes eram nas casas dessas mesmas pessoas, outras por meio de parcerias com hotéis ou até mesmo no espaço de quem ia acompanhando a artista pelas redes sociais e oferecendo estadia à medida que ela anunciava o paradeiro. “Senti solitude porque estava viajando sozinha, mas estava amparada”, diz. “Sempre tinha alguém que sabia que eu ia chegar. Ganhei vários anjos da guarda, muitas famílias.” Talvez por isso a viagem tenha ocorrido sem grandes perrengues. Os poucos, podem ser contados nos dedos: a começar pela Kombi que seria inicialmente o veículo do projeto, mas acabou pegando fogo – do nada – ainda em São Paulo e também por alguns momentos na estrada, como um trajeto à noite em que Tita quase ficou sem gasolina.

Maria Eugenia Tita / Crédito: Arquivo Pessoal

As surpresas boas, em contrapartida, são incontáveis. Entre elas, ter conhecido acidentalmente o projeto pedagógico do antropólogo Tião Rocha, em Araçuaí (MG), baseado no uso da cultura local como matéria-prima de ensino, e encontrar Mestre Zanza, de um dos caboclinhos de Minas, em sua visita à cidade de Montes Claros. Outro fator inesperado foi a parada que fez, por indicação da sua mãe, em uma fazenda em Taperoá, na Paraíba, local onde acabou permanecendo por oito meses com a chegada da pandemia. Nessa propriedade, da família de Ariano Suassuna, a artista fez da garagem uma sala de ensaio e o público, virtual, logo se multiplicou mais e mais. “Ali conseguia me preocupar em fazer apenas o que quero, sem ter que agradar editais, programador. Comecei com programas de lives, criações, e aí entendi que essa produção digital pode ser muito bacana”, revela Tita. Foi essa percepção, inclusive, que a fez articular uma residência artística em uma fazenda vizinha, na cidade de Patos, onde deve permanecer durante este ano todo.

Ali, a garagem do local, como em sua estadia anterior, também virou espaço de ensaios, com palco e luzes para compor o cenário. Desde que chegou à fazenda, em dezembro do ano passado, Tita promove oficinas semanais com os jovens trabalhadores locais, mas também continua com os seus projetos. Desde o antigo Nos Passos da Nossa História, no qual apresenta em vídeo danças regionais seguidas de uma explicação sobre sua origem, até a preparação de aulas on-line de dança e o andamento de um novo espetáculo, que deve ganhar um formato híbrido, com textos, fotos e vídeos. “O sertão da Paraíba é muito impressionante. Já vi um bocado de beleza, mas nada tão bonito e que me fizesse tão bem aos olhos e à alma quanto esse sertão paraibano”, resume.

É nesse cenário, também, que ela e Cabeção ganharam novos companheiros, como uma cabrita e uma maritaca, que se tornaram personagens frequentes dos vídeos que posta nas redes sociais. “A natureza e as pessoas ensinam muito nessa região. É um lugar de resistência e acho que a falta de chuva faz com que as coisas vigorem com muita força. O que sobrevive, sobrevive com esse vigor e isso estimula”, diz a artista, que partiu para conhecer o Brasil por falta de trabalho e, um ano depois, conta até mesmo com um espaço teatral para chamar de seu.